Talvez Robin Campillo seja mais conhecido por seu trabalho como roteirista do que de diretor, ele escreveu 6 filmes para o também diretor francês Laurent Cantet, incluindo o vencedor da Palma de OuroEntre os Muros da Escola” (2008). “120 Batimentos por Minuto” (120 Battements par Minute, 2017), é o terceiro longa escrito e dirigido por Campillo, que traz as melhores características de seus roteiros, na qual acompanhamos um grupo de pessoas, em meios a conflitos e debates ideológicos.

O filme, que recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2017, se passa no início dos 1990 e faz um retrato bastante próximo dos ativistas da Act Up, grupo de apoio à pessoas com AIDS.

A intenção de Campillo ao retratar seus personagens de uma forma íntima é sentida desde a primeira cena, pois a câmera na mão nos aproxima das ações e dá à obra um aspecto praticamente documental. Acompanhamos o grupo da Act Up em atos contra a indústria farmacêutica, intensas reuniões e em mobilizações que tinham como objetivo conscientizar a população dos riscos das doenças sexualmente transmissíveis, e também expurgar os estigmas que vinham entrelaçados com a AIDS. O filme nos joga no cerne das atividades do grupo que, através de diálogos naturalistas, uma montagem dinâmica e a já citada câmera na mão, nos transmitem uma verdade muito particular e funcional.

O roteiro de Campillo vai construindo, pouco a pouco, as personalidades de seus personagens através dos diálogos conflituosos. A princípio, não interessa o passado desses personagens, de como eles adquiriram a AIDS, mas sim como eles se portam desde a descoberta de que são soropositivos e como eles lidam com suas vidas e com os seus papéis sociais como militantes de um importante grupo. O senso de urgência que o cineasta injeta em seus personagens é espantoso, pois o espectador sente que, de fato, eles estão correndo contra o tempo e que as suas vidas estão em jogo.

O tom naturalista do filme, que deixa tudo mais vívido, permeia o filme inteiro, com exceção de algumas transições de cenas que arriscadamente são lúdicas. Através de uma inteligente montagem, o filme sai de uma cena, por exemplo, em que os personagens estão dançando e se divertindo, para algo minimalista e sensorial, que também é totalmente favorecido por uma ótima trilha. E, por incrível que pareça, tais transições na narrativa funcionam muito bem e levam o espectador em uma viagem para dentro dos sentimentos desses personagens. É algo poético, forte e que contribui muito bem para a narrativa.

Outro aspecto interessante da obra é a sua discussão histórica, que evidencia como eram tratadas as pessoas soropositivas, seja pela mídia, pela população e pelas indústrias farmacêuticas. O filme aponta também uma homofobia da sociedade que tenta ser velada, mas que é claramente escancarada e nojenta. A falta de informação sobre a doença naquela época era somente um reflexo de uma ignorância latente, que só dificultava a ação dos grupos de pessoas contaminadas.

Os melhores momentos do filme se dão, justamente, nas reuniões da Act Up, onde os personagens se confrontam, buscando um caminho mais eficaz para serem ouvidos pela sociedade. As regras estabelecidas no espaço da reunião dão ainda mais credibilidade para verossimilhança das cenas, como os estalos de dedos que substituem as palmas – que atrapalhariam a fala de alguém, as proibidas conversas no corredor e as votações, dão às reuniões uma sensação palpável que é bastante orgânica, algo difícil de se conseguir.

O filme caminha muito bem enquanto ele se propõe em narrar a trajetória da Act Up. Ele é político e ao mesmo tempo provocante, mas, aos poucos, Campillo vai se desgrudando do grupo e se concentrando em um personagem em específico, na qual conhecemos seu passado, seus medos e conflitos. Embora a escolha de fazer um recorte para um personagem em específico seja acompanhada de um construção narrativa funcional, o filme perde um pouco do ritmo e o seu aspecto amplo, ele se torna intimista, o que causa uma certa estranheza no tom.

O estranhamento da quebra de ritmo e de foco do filme não o prejudica completamente, graças a construção sólida do personagem Sean Dalmazo e, principalmente, pela ótima atuação de Nahuel Pérez Biscayart, que incorpora trejeitos ao personagem que acabam o enriquecendo, além de toda a fisicalidade presente, que vai marcando a sua trajetória.

As cenas finais do filme são devastadoras, o naturalismo solta aos olhos e o sentimento de vazio preenche toda a tela. Se, ao início, o filme nos insere em discussões com bastante vigor, em seu ato final, ele nos insere em um processo de luto que rasga o peito e, no fim, voltamos os olhos para a Act Up novamente e assim, o filme se encerra de forma grandiosa.

120 Batimentos por Minuto” é um filme assustadoramente palpável, com ótimos personagens e ótimos diálogos. Ele pode se perder um pouco quando resolve ser mais intimista, mas ainda sim, mesmo nesses momentos, a obra não abandona sua veracidade e o seu grito político.

Título Original: 120 Battements par Minute
Direção: Robin Campillo
Roteiro: Robin Campillo, Philippe Mangeot
Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Ariel Borenstein, Félix Maritaud, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Coralie Russier, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Saadia Bentaïeb, Jean-François Auguste
Fotografia: Jeanne Lapoirie
Produção: Hugues Charbonneau, Marie-Ange Luciani
País: França
Ano: 2017
Duração: 140 minutos
Estreia: 04/01/2018
Distribuição no Brasil: Imovision

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima

Avaliação
  • 9/10
    120 Batimentos por Minuto (2017), de Robin Campillo - 9/10
9/10

Resumo

“120 Batimentos por Minuto” é um filme assustadoramente palpável, com ótimos personagens e ótimos diálogos. Ele pode se perder um pouco quando resolve ser mais intimista, mas ainda sim, mesmo nesses momentos, a obra não abandona sua veracidade e o seu grito político.