A cineasta e atriz Emmanuelle Bercot possui uma carreira sólida que veio através de exibições de seus filmes em festivais consagrados. Seu último filme, “150 Miligramas” (La fille de Brest, 2016), foi exibido na abertura do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián e apresentou ao público uma tentativa de Bercot de trilhar por caminhos tematicamente fora da curva em sua carreira, a fazendo sair de um possível lugar comum.

150 Miligramas” é adaptado do livro “Mediator 150 mg.“, de Irène Frachon, que por sua vez traz aspectos reais da história da própria autora, que é uma pneumologista do Hospital Universitário de Brest, que, ao estabelecer uma ligação direta entre mortes suspeitas e o consumo de Mediator, um medicamento que está no mercado há 30 anos, trava uma briga direta com a indústria farmacêutica no intuito de desmascarar os efeitos colaterais que a medicação causa, levando os pacientes a problemas cardíacos e por fim a óbito.

O filme de Bercot possui uma premissa interessante, trata-se de uma médica (Sidse Babett Knudsen), uma mulher determinada, que enfrenta os poderosos da indústria farmacêutica por uma causa nobre. A escolha por tratar a personagem como uma pessoa comum salva o filme de um desastre total, que juntamente com a atuação de Sidse, são os poucos pontos positivos dentro da obra, com também algumas leves ressalvas dentro da narrativa.

O poder do filme se encontra completamente na figura de sua protagonista, que, embora também possua problemas de construção, se mostra como uma personagem forte, pois ao longo de sua trajetória, Irène começa a descobrir que para enfrentar pessoas poderosas, precisará se dedicar emocionalmente e se arriscar de uma maneira que a mesma jamais poderia imaginar, se expondo de uma forma que traz perigosas consequências.

Mas o caminho que a protagonista percorre, apesar de louvável, é pecaminoso para o espectador, isso graças a narrativa totalmente esquemática que o filme possui. Os moldes de uma narrativa clichê de uma investigação hospitalar estão todos aqui, desde o começo já sabemos onde o filme irá chegar, mas isso não seria um problema se toda essa trajetória da personagem fosse construída de uma forma mais rebuscada.

No começo, o filme parece que vai se arriscar ao longo de sua projeção, pois, ao se passar boa parte dentro de um hospital, é corajoso por parte da cineasta ao mostrar o que a cena pede em certos momentos, como no caso de uma cirurgia realizada logo no começo do primeiro ato. Essa coragem visual se repete posteriormente no filme, durante uma cena de autópsia e, o resultado de tais cenas, impressiona. A fotografia, em planos detalhes, vão mostrando os órgãos com uma realidade incrível, aliás, em vários momentos como esse, o filme ganha um aspecto quase documental, tamanha a precisão das cenas. É um trabalho de maquiagem que impressiona e que causa o choque necessário no espectador, não por serem cenas arbitrárias de desmembramentos de pessoas, mas por mostrar, de fato, os efeitos colaterais do Mediator.

Mas também vale ressaltar outro lampejo de inventividade que o filme possui, que são as construções de algumas cenas através do som, criando tensão nos ápices dramáticos e pontos chaves, realizando uma ótima ambientação, o que engrandece o filme, transformando-o numa obra verdadeiramente cinematográfica.

Se nesses momentos, a narrativa possui inspiração, durante o resto do filme ela é problemática. Começando pelos planos fechados que ele adota nos momentos que pedem um vislumbre maior da cena. E isso causa um desencontro visual, já que o filme não se decide se ele vai caminhar com seu ar documental, com câmera na mão, ou vai caminhar como se fosse um telefilme. E é esse a impressão que o filme acaba nos transmitindo, que ele parece mais um telefilme, da forma mais pejorativa possível, com planos médios na sua maior parte do tempo e com um roteiro repleto de clichês.

O filme segue toda a sua narrativa de forma apressada, ao longo da história vemos saltos no tempo, que vão de 2009 até 2011. Por conta disso, algumas relações não são bem exploradas, com exceção da relação da protagonista com o doutor Antoine Le Bihan (Benoît Magimel). A relação entre os dois ajuda o filme a fluir, pois é através desses dois personagens que alguns conflitos menores surgem, estabelecendo assim sub conflitos que dão à obra um pouco mais de profundidade, fugindo dos arquétipos tão engessados que a obra possui.

O roteiro do filme escolhe nos mostrar as ações através do olhar de Irène, assim o espectador só acaba sabendo o que a personagem sabe, o que é uma linha interessante para se contar a história. O problema é que, por mais que o filme pontue em alguns momentos, quase não enxergamos a vida da personagem fora do seu arquétipo heroico, pois quase todas as suas interações se dão à volta de seu trabalho de denúncia. E mesmo quando o conflito acaba se estendo para demais pessoas, ou quando até mesmo o conflito invade a casa da personagem, quase não a vemos interagindo com seus familiares e amigos de forma orgânica. Claro que a personagem é focada em seu objetivo, mas lhe falta mais de uma camada mais subjetiva, que deixaria a personagem mais profunda.

Mas, mesmo assim, Sidse Babett Knudsen consegue carregar o filme com um brilhantismo mágico. A personagem é forte e determinada e Sidse ainda consegue introduzir algumas camadas que a deixa mais interessante. Ao mesmo tempo em que ela se mostra convicta, partindo para a luta sem medo, ela também possui lapsos de impulsividade, o que demonstra em certos momentos uma certa ingenuidade que a personagem possui no embate com a indústria.

Se o filme é esquemático em demasia, a trilha sonora é acereja do bolo. A trilha de Martin Wheeler é sensacionalista e pontua o filme de forma errada, deixando-o repleto de sentimentalismo vazio. A tentativa de condução de sentimentos através da trilha fica nítida e se repete durante todo o filme, chegando a cansar em alguns momentos.

E no fim, após se estender por mais tempo que deveria, “150 Miligramas” se mostra como uma obra fraca em sua realização, apesar de possuir uma trama inspiradora e uma protagonista corajosa, mas que lamentavelmente é engolida por uma narrativa calcada nos clichês do cinema americano de denúncia. Infelizmente, é um filme que prefere não se arriscar demais, deixando-o tão esquemático que cansa. Ao menos a atuação de Sidse traz brilho para a obra, mesmo com o filme transformando uma figura tão forte e com uma trajetória tão humana, em algo raso. Faltou a “150 Miligramas” a coragem que verdadeira Irène Frachon teve ao se arriscar, o que nos deixa com a sensação de que com certeza o filme não faz jus a trajetória de luta de sua própria protagonista.

Título Original: La fille de Brest
Direção
: Emmanuelle Bercot
Roteiro: Séverine Bosschem e Emmanuelle Bercot (Adaptado do livro “Mediator 150 mg.”, de Irène Frachon)
Elenco: Sidse Babett Knudsen, Benoît Magimel, Charlotte Laemmel, Isabelle de Hertogh, Lara Neumann, Patrick Ligardes, Olivier Pasquier, Gustave Kervern, Philippe Uchan
Fotografia: Guillaume Schiffman
Produção: Simon Arnal, Caroline Benjo, Barbara Letellier, Carole Scotta
País: França
Ano: 2016
Duração: 128 minutos
Estreia: 31/8/2017
Distribuidora: Califórnia Filmes