Foram 394 filmes exibidos em 35 salas durante duas semanas, incluindo projeções ao ar livre e, pela primeira vez na programação, filmes em realidade virtual.

Além do panorama do cinema contemporâneo mundial e da já habitual competição de novos diretores, a 41° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo realizou uma série de pequenas retrospectivas e homenagens, que incluíram obras de grandes cineastas, como Agnès VardaPaul VecchialiAlain Tanner.

A Mostra também realizou uma homenagem ao grande ator Paulo José, que recebeu o Prêmio Leon Cakoff, inserindo na programação três clássicos filmes em que ele atuou: “O Homem Nu” (1968), “O Padre e a Moça” (1966) e “Macunaíma” (1969).

Filmes Suíços também foram apresentados dentro do Foco Suíça, que incluiu uma pérola pouco conhecida de Jean-Luc Godard, o filme “Ascensão e Queda de uma Pequena Produtora de Cinema” (1986).

Outro grande homenageado desse ano foi o artista Ai Weiwei, que assinou a arte do cartaz da 41° Mostra e que exibiu seu filme “Human Flow – Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir” (2017) na cerimônia de abertura do evento.

Dentro dessa vasta programação, selecionei 10 filmes imperdíveis e que me chamaram a atenção, seja pela forma que o tema da obra é conduzido, ou pela própria experiência cinematográfica, que foi reforçada através de uma linguagem elaborada e rebuscada.

A lista encontra-se em ordem de preferência:

10 – Pororoca (2017), de Constantin Popescu

SinopseCristina e Tudor Ionescu formam uma família feliz com seus dois filhos, Maria, 5, e Ilie, 7. Ambos têm por volta de 30 anos e moram em um bom apartamento numa cidade romena. Em um domingo pela manhã, enquanto Tudor leva as crianças ao parque, Maria desaparece e a vida deles muda, de forma abrupta, para sempre.

O cinema Romeno, quanto estudo de personagem e construção narrativa, se mostra sempre bastante eficaz. No caso de “Pororoca“, filme que rendeu à Bogdan Dumitrache o Prêmio de Melhor Ator no Festival de San Sebastián, tudo é concebido de forma meticulosa e gradativa.

Até a chegada de seu clímax, o filme consegue estabelecer uma tensão que, de forma alguma, vai perdendo a força durante os seus 153 minutos de projeção. E o final arrebatador pode deixar o público incrédulo, num misto de sentimentos tão intensos que precisariam de horas para serem absorvidos e compreendidos totalmente.

09 – Loveless (2017), de Andrey Zvyagintsev

SinopseZhenya e Boris estão passando por um terrível divórcio, marcado por ressentimento e frustração. Já com novos parceiros, eles estão ansiosos para recomeçar suas vidas, mesmo que isso signifique a possibilidade de deixar Alyosha, seu filho de 12 anos, em segundo plano. Até que, depois de testemunhar uma das brigas entre os pais, o garoto desaparece.

Após o sucesso de “Leviatã” (2014), Andrei Zvyagintsev volta com mais um drama cru e intenso. “Loveless” (2017) narra a trajetória de pais que estão em processo de separação e que são totalmente apáticos em relação ao filho, que acaba fugindo de casa e se desaparecendo meio ao frio da cidade.

A diferença entre “Loveless” e “Pororoca” (filme anterior dessa lista), que possuem semelhanças temáticas, é o direcionamento do conflito e como Zvyagintsev mantêm a narrativa, que é tão fria quanto os personagens e a cidade em que eles vivem. E no fim dessa dolorosa trajetória de busca, o arco de ambos os personagens principais se mostra assustador e cruel.

É um filme que, mesmo no silêncio, nos diz muito sobre a angústia de uma criança que vive em um lar desestruturado e evidencia um desamor tão profundo que é tão avassalador quanto o modus operandi descartável da vida de seus personagens.

08 – O Dia Depois (2017), de Hong Sang-soo

SinopseÉ o primeiro dia de Areum em uma pequena editora. Bongwan, seu chefe, terminou há pouco tempo o relacionamento que mantinha com a funcionária que trabalhava ali anteriormente. Ainda nesse mesmo dia, Bongwan, que é casado, sai de casa na manhã escura e parte para o trabalho. Sua esposa encontra um bilhete de amor, explode em fúria no escritório e acaba confundindo Areum com a mulher que ele deixou.

Um dos três filmes que o prolífico cineasta Hong Sang-soo produziu nesse ano e, mesmo parecendo não haver como, ele ainda consegue nos surpreender com uma obra que possui todas características já habituais de seus filmes, como os seus longos planos estáticos, seus enquadramentos e os seus experimentos com a estrutura narrativa cinematográfica.

Mas, mesmo com tantos fatores que caracterizam sua obra, cada filme de Sang-soo parece uma experiência ainda nova e surpreendente. O preto e branco do filme casa perfeitamente com o universo que o compõe, no caso uma editora de livros, que aqui empresta, metaforicamente, sua tinta para pintar as relações de três personagens. E novamente Kim Min-hee brilha.

07 – Visages, Villages (2017), de Agnès Varda & JR

SinopseAgnès Varda e JR têm coisas em comum: sua paixão por imagens e, mais particularmente, o questionamento sobre os lugares onde elas são mostradas e a maneira como são compartilhadas e expostas. Agnès escolheu o cinema. JR escolheu criar galerias fotográficas ao ar livre. Quando os dois se conheceram, em 2015, imediatamente quiseram trabalhar juntos —fazer um filme na França, longe das cidades. Em encontros aleatórios ou planos pré-concebidos, eles partem em direção a outras pessoas e as convidam a segui-los em sua viagem no caminhão fotográfico de JR.

Vencedor do Olho de Ouro de Melhor Documentário no Festival de Cannes 2017, “Visages, Villages” é um filme que só poderia ter sido mesmo concebido aos olhos da sensibilidade de Agnès Varda, que, juntamente com o artista JR, formam uma dupla que entendem o poder de histórias de pessoas comuns. E assim, através de intervenções artísticas, engrandecem personagens que talvez nem desconfiariam de suas próprias grandezas.

É um filme que pode ser traduzido como um road movie do comum, que vai de encontro a histórias e pessoas que possuem um bocado a nos dizer. E claro, que ao olhar para essas pessoas, Varda também olha pra si, deixando claro mais uma vez a importância de seu cinema.

06 – As Boas Maneiras (2017), de Juliana Rojas & Marco Dutra

SinopseClara, uma solitária enfermeira que vive na periferia de São Paulo, é contratada pela rica e misteriosa Ana para ser babá de sua criança que está para nascer. De maneira inesperada, as duas mulheres desenvolvem um forte vínculo. Porém, uma fatídica noite mudará os seus planos.

Após vencer o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno e de Melhor Filme no Festival do Rio, “As Boas Maneiras” fez sua première em São Paulo durante a Mostra, levando o público ao encantamento.

É inegável a força que o cinema brasileiro se encontra, são obras tão diversas que só enriquecem a cinematografia nacional. E, dentro dessa clara riqueza, há quem se proponha a realizar um cinema de gênero sem medo, sem vergonha de mergulhar de cabeça no fantástico e de se assumir como uma produção totalmente lúdica.

O novo filme de Juliana Rojas e Marco Dutra, que já brilharam em filmes de gênero como “Sinfonia da Necrópole” e “Quando Eu Era Vivo“, realiza em “As Boas Maneiras” o maior exemplo de que uma narrativa sólida pode render um ótimo filme que flerta com vários gêneros cinematográficos, isso sem perder o tom.

Temos aqui exemplos de comédia, terror, fantasia e até mesmo de musical, que são muito bem orquestrados para contar uma história que faz metáforas para expor preconceitos e que também nos diz muito através de seu aspecto fantasioso.

As Boas Maneiras” é um presente pro cinema nacional e que merece ser apreciado pelo público brasileiro que, em sua maioria, ainda precisa conhecer a riqueza da produção do próprio país.

05 – Lucky (2017), de John Carroll Lynch

SinopseA jornada espiritual de um ateu de 90 anos e os peculiares personagens que habitam uma cidade no deserto. Lucky fumou e viveu mais do que todos os seus contemporâneos e se encontra no precipício da vida. Ele é empurrado para uma jornada de autoexploração rumo ao que é frequentemente inalcançável: a iluminação.

O primeiro longa dirigido por John Carroll Lynch é mais do que um estudo de personagem, é uma grande homenagem a uma geração, que obviamente inclui o ator Harry Dean Stanton, morto em 2017 aos 91 anos.

O tom da abordagem do filme, que se propõe a refletir sobre a morte e a velhice, é o mais cativante possível, fugindo dos já esperados clichês e dramalhões que rondam esse tema. O texto, que é bastante divertido, possui a força de uma obra autêntica e que entende muito bem sua proposta. Além de tudo, Stanton está ótimo no filme, despejando toda a carga emocional de seu personagem sem ser piegas, tudo de uma forma singela e orgânica.

04 – O Trabalho (2017), de Jairus McLeary & Gethin Aldous

Sinopse: Passado totalmente dentro da prisão estadual de Folsom, na Califórnia, o documentário acompanha três homens durante quatro dias de terapia intensiva de grupo com os detentos, revelando um retrato íntimo e poderoso da transformação humana e que transcende o que normalmente se imagina como reabilitação.

A Mostra também é um lugar para descobrir pequenas pérolas escondidas em sua programação, que é o caso do documentário “O Trabalho“, de Jairus McLeary e Gethin Aldous, poderoso filme sobre um processo de terapia intensiva dentro de uma penitenciária norte-americana.

O mais espantoso do filme é a verdade que a câmera traz à tela, pois, durante os quatro dias de terapia que o grupo enfrenta, situações são extraídas do íntimo e externalizadas de uma forma assustadora. E, além de podermos acompanhar o doloroso processo dessa reabilitação através da terapia, o filme levanta questões sobre estrutura familiar e, ainda mais, humanizam presos violentos e revela o quão doloroso é o processo de auto descoberta em casos extremos.

O Trabalho” é um filme necessário para compreendermos melhor o que é o cárcere o de onde vieram a maioria dessas pessoas, que por algum motivo se tornaram criminosas. É um estudo social relevante e que não pode passar despercebido. É um filme forte quanto tema e muito eficaz em sua estrutura.

03 – Arábia (2017), de Affonso Uchoa & João Dumans

SinopseAndré é um jovem morador da Vila Operária, bairro vizinho a uma velha fábrica de alumínio, em Ouro Preto, Minas Gerais. Um dia, ele encontra o misterioso caderno de um dos operários dessa firma.

Um road movie do proletariado! Um road movie da classe trabalhadora! Um road movie do povo! “Arábia” é um híbrido entre ficção e documentário, que usa da trajetória de seu protagonista para dar voz a inúmeros trabalhadores e refletir sobre a posição do indivíduo perante uma sociedade capitalista.

Por abordar situações tão corriqueiras, o filme pode não encantar a primeira vista, mas é justamente nesse olhar sobre o cotidiano que mora toda a sua grandeza.

02 – Custódia (2017), de Xavier Legrand

SinopseDepois do divórcio, Myriam e Antoine dividem a guarda do filho. Refém de um pai ciumento e violento, e escudo para uma mãe perseguida, Julien é levado até o seu limite para prevenir que o pior aconteça.

Uma construção absurda de clima através de uma narrativa fluída e que foge do convencional. “Custódia” é um dos melhores filmes ao ano e, seguramente, um primoroso trabalho de estreia do ator e cineasta francês Xavier Legrand, que realiza o filme numa direção sólida e segura, conseguindo guiar o espectador num drama familiar que se mostra terrivelmente assustador.

O terceiro ato do filme é bastante angustiante, graças as escolhas de Legrand, que sabe como enquadrar a cena para criar a tensão necessária e extrair dos atores um desespero latente, com destaque para o ator mirim Thomas Gioria.

01 – 24 Frames (2017), de Abbas Kiarostami

Sinopse“Um dia, quando eu não tinha nada para fazer, comprei uma Yashica barata e saí pela natureza. Eu queria estar em contato com ela. Ao mesmo tempo, desejava compartilhar com os outros momentos agradáveis que testemunhei. É por isso que comecei a tirar fotografias. Para, de alguma maneira, eternizar esses momentos de paixão e dor…”

O filme de despedida de Abbas Kiarostami não poderia ser mais primoroso, existe aqui uma grandiosidade no singelo. A experiência que Kiarostami nos propõe é puramente de observação, no sentindo mais contemplativo do ato, pois, ao experimentar imaginar histórias através de frames, ele nos conduz à uma viagem através da linguagem cinematográfica.

Aos poucos, a cada detalhe que toma vida nos minimalistas frames apresentados, um artifício é utilizado em função de uma pequena história, seja através do desenho de som, ou até mesmo da montagem, que, apesar de não utilizar de cortes propriamente ditos, abusa da profundidade de campo da fotografia para servir como montagem, fazendo com que o espectador use o próprio olho como ferramenta de corte, nos induzindo para onde olhar nas respectivas cenas.

Além da força narrativa do filme, “24 Frames” também se encerra como uma despedida emocionante de Abbas, com uma sensibilidade característica das obras do poeta do cinema.