Quando os Dias Eram Eternos” (2016), animação de Marcus Vinicius Vasconcelos, abre com uma citação do dançarino japonês Kazuo Ohno, traçando um paralelo entre o eixo temático da obra com a sua forma, já que a referência ao mestre do teatro butô se complementa na inserção na narrativa do filme. No butô, os movimentos, mesmo que lentos, substituem as palavras e são extraídos do âmago, criando um híbrido entre teatro, dança e filosofia.

No filme, um filho retorna à casa de sua infância para cuidar de sua mãe em seus últimos momentos em vida.

A imersão que a obra de Marcus nos transmite é assustadora, sentimos o vazio em que os personagens estão inseridos, tal como todo aspecto caótico que reflete os sentimentos em traços inquietos e conturbados. A movimentação sempre constante das linhas fazem com que os personagens, mesmo em suas ações mais simplistas, caem em uma verdadeira dança abstrata, que em alguns momentos os deforma e em outros os dilui, jogando-os num limbo de uma nostalgia sentimental.

O melhor exemplo do constante movimento que a narrativa possui, empurrando os personagens para um esperado trágico momento vindouro e inevitável, são os simbolismos constantemente inseridos, como por exemplo o balanço da infância, que volta ao filme em momentos de uma possível fuga do protagonista. Tal ideia da movimentação, incorporada pelo filme do conceito de Ohno, também é refletida no silêncio dos personagens, que praticamente não dialogam. As ações substituem as palavras e os traços somam aos sentimentos.

A passagem de tempo é sentida com bastante pesar, graças a montagem que o filme possui e a trilha melancólica de Dudu Tsuda, que complementa os vazios que o filme poderia deixar em sua construção temática. Mas no fim, “Quando os Dias Eram Eternos” se revela como uma obra profundamente pessoal e imersiva, que facilmente conversa com o espectador, justamente pelo seu tom nostálgico e passional. Como o estado gradativo do câncer da mãe do protagonista, que é sentido de forma clara e objetiva, mesmo dentro de traços abstratos.

Quando os Dias Eram Eternos” é um filme que sabe como usar da sua própria linguagem para enaltecer seu discurso, examinando o movimento, algo muito rico em uma animação. No entanto, ele expande a ideia da movimentação, não refletindo somente sobre um conceito da animação, mas também sobre o caminhar da vida e a inevitável linha que traçamos em direção ao futuro. O teatro butô, de Kazuo Ohno, é maravilhosamente representado no filme, de uma forma sutil e eficiente, conduzindo o corpo dos personagens como um meio de expressão de sentimentos, que no caso são traduzidos como os complexos e emaranhados traços da animação.

Título Original: Quando os Dias Eram Eternos
Direção: Marcus Vinicius Vasconcelos
Roteiro: Marcus Vinicius Vasconcelos
Produção: Nádia Mangolini
País: Brasil
Ano: 2016
Duração: 12 minutos
Estreia: 22/02/2018
Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes – Sessão Vitrine Petrobras

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima

Avaliação
  • 9.5/10
    Quando os Dias Eram Eternos (2016), de Marcus Vinicius Vasconcelos - 9.5/10
9.5/10

Resumo

“Quando os Dias Eram Eternos” é um filme que sabe como usar da sua própria linguagem para enaltecer seu discurso, examinando o movimento, algo muito rico em uma animação. No entanto, ele expande a ideia da movimentação, não refletindo somente sobre um conceito da animação, mas também sobre o caminhar da vida e a inevitável linha que traçamos em direção ao futuro.