Poucas vezes filmes ‘biográficos’ se mostraram tão inventivos quanto “Joaquim” (2017), muita das vezes as obras que retratam figuras históricas acabam caindo em certos maneirismos e a importância histórica desses personagens acabam se tornando maiores do que o filme em si, deixando assim, tais filmes um tanto quanto engessados.

Mas a proposta de “Joaquim“, novo filme escrito e dirigido por Marcelo Gomes, é totalmente diferente do habitual. A começar pelo título que, por si só já demonstra os caminhos que a obra quer tomar, pois chamá-lo de Joaquim traz outro peso para o filme, retirando a aura mítica dessa figura, que é evocada com o nome de Tiradentes. E, além de humanizar essa figura, a obra também se propõe a fazer um recorte de um período do país para assim, contrapor com o Brasil de hoje, tudo isso servindo como pano de fundo para mostrar a gênese de um mártir.

O filme acompanha a trajetória de Joaquim José da Silva Xavier (Júlio Machado), que ficou conhecido pelo alcunha de Tiradentes, antes do desabrochar de sua consciência política, no período em que ele servia como alferes do Regimento de Cavalaria em Minas Gerais. Joaquim possui a ambição de servir como tenente da tropa e encontrar ouro para assim, comprar a liberdade de Preta (Isabél Zuaa), por quem é apaixonado. Mas o cenário de corrupção e desigualdade faz com que Joaquim comece a questionar gradativamente o regime que o cerca.

Como dito anteriormente, “Joaquim” é um ótimo exemplo de como um filme pode criar uma crônica a partir de uma personalidade histórica e estabelecer conflitos que nos fazem refletir nossa sociedade atual. Para se distanciar da figura de Tiradentes, o filme se inicia com um plano estático mostrando a cabeça decapitada do personagem, enquanto o mesmo faz uma narração em off repleta de ironia e deboche, uma liberdade poética do filme que funciona muito bem. A partir de então somos levados aos eventos que antecederam esse trágico acontecimento e, nesse instante, conhecemos a figura de Joaquim.

A ambientação do filme funciona muito bem, a direção de arte de Marcos Pedroso se mostra muito eficaz na reconstituição de época em alguns cenários e figurinos, mas nada aqui é exagerado, tudo é mostrado na medida certa para que possamos ser transportados para o final do século XVIII. Embora a cinematografia se preocupe em ambientar a trama em seu período histórico, quem acaba de fato trazendo a áurea daquele período em específico são as locações externas da cidade de Diamantina, que por muitas vezes são registradas lindamente em planos gerais para que possamos ver as dimensões das regiões montanhosas e como elas acabam engolindo os personagens quando comparados com suas pequenices.

E, claro, que para esses fatores citados anteriormente funcionem, é necessário que as cenas sejam muito bem fotografadas. E é isso que a fotografia de Pierre de Kerchove nos entrega. A fotografia de “Joaquim” não serve somente ao filme como um aparato estético, mas também como função narrativa, já que o filme é inteiramente rodado com a câmera na mão, deixando as cenas mais próximas do espectador, pois a câmera também mergulha na ação juntamente com os personagens. Além dessa proximidade da lente com os personagens, a escolha da câmera na mão influi diretamente num claro paradigma de que filmes históricos necessitam de câmeras com pouco movimento, mas, mais um vez, Marcelo Gomes nos mostra que esse distanciamento da figura de Joaquim não estará presente em seu filme. A contemporaneidade do filme também se deve muito a sua fotografia, que traz um aspecto documental e o dinamismo do cinema atual. Outro brilhantismo da fotografia é seu olhar naturalista, as cenas foram gravadas em luz natural ou, muitas vezes iluminadas somente por velas e fogueiras. Em determinados momentos da obra, só conseguimos ver os rostos dos personagens que estão sendo iluminados por fogueiras, enquanto o resto do quadro está envolto de uma grande escuridão. Pode-se dizer que isso é algo arriscado no cinema brasileiro, que possui um vício histórico de iluminar os atores por completo, mesmo em cenas em que isso não seria preciso. Além do mais, visualmente, essas tais cenas ficam lindas.

As atuações do filme também são ótimos, com um destaque claro para o protagonista Júlio Machado, que consegue demonstrar um Joaquim repleto de contradições e, principalmente, repleto de desejos. Sua fisicalidade nas cenas e a sua entrega é espantosa, nos brindando com uma atuação visceral e repleta de sentimentos. Outros momentos que também transbordam brilhantismo são as que a personagem Preta está em cena e isso se deve ao trabalho monumental da portuguesa Isabél Zuaa, que transborda ancestralidade. Sua personagem é uma das figuras centrais da trama, é ela quem representa o espírito de luta e o espírito libertário e, apesar de parecer um tanto ingênua no princípio, ela acaba se revelando a grande revolucionária da trama. Mas, voltando à atuação de Zuaa, é importante destacar a profundidade que ela dá a sua personagem, o seu olhar é sempre destemido e suas ações sempre possuem um objetivo, que é a liberdade. No final do segundo ato, ela nos brinda com uma das cenas mais fortes do filme e, por conta da ótima interpretação de Zuaa, a cena ganha o aspecto catártico necessário para emocionar o espectador e claro, dentro da narrativa, fazer Joaquim refletir sobre a situação política daquele período.

A sábia escolha de Marcelo Gomes de levar o filme para dentro dos quilombos em algumas cenas mostra que de fato, os primeiros grupos revolucionários do nosso país se deram dentro desse quilombos. Além da enorme representatividade que essas cenas possuem, elas também tem um caráter étnico importante, fato que permeia todo o filme e mostra o caldeirão cultural que era o país naquela época, não muito diferente de hoje. Há no meio do segundo ato, uma cena maravilhosa, na qual um escravo e um índio começam a cantar, cada um remetendo ao seu povo, e assim a câmera simplesmente os acompanha nesse número musical simbólico, onde povos escravizados de diferentes culturas se unem para assim, deixar vivo dentro deles os valores que os definem. É uma cena que revela muito do Brasil, em vários sentidos, seja naquela época ou atualmente.

A trajetória de Joaquim é pecaminosa e se revela muito menos heroica do que poderíamos imaginar. Ele parte incansavelmente em busca de ouro e nesse caminho esbarra com situações que aos poucos o fazem enxergar onde está inserido na sociedade. Se em determinado momento da trama, Preta acaba se tornando o ponto de virada definitiva na percepção política de Joaquim, quem começa a construí-la é o seu amigo Poeta (Eduardo Moreira), apresentado vários livros à Joaquim e lhe mostrando as explorações vindas da Corte Portuguesa com mais clareza. O problema é que o filme caminha lentamente para expor todas essas contradições sociais e se apressa demais quando o personagem começa a tomar consciência de si, seria interessante acompanhar como Joaquim lidaria com suas novas visões de mundo e como seriam seus conflitos internos perante a elas, tudo isso posto em xeque com sua personalidade agressiva e rústica. Claro que essa não era a proposta inicial do filme, mas mesmo assim ele dá uma pincelada nesses fatos, o que deixa o espectador instigado para ver a mais do que ele somente ele indo conversar com as pessoas sobre a exploração do povo.

O filme pode parecer se encerrar de maneira abrupta, mas de fato, esse era o limite da crônica de Marcelo Gomes sobre a figura que antecedeu o mártir da inconfidência mineira, a proposta era fazer um estudo sobre os motivos que levaram a Tiradentes se revoltar, remetendo também o estudo de personagem realizado em “Baile Perfumado” (1996), filme pernambucano de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, que faz um resgate do cangaço e de Lampião de forma totalmente inventiva. Tendo isso em mente, o final é evidentemente coerente dentro de sua proposta.

Joaquim” é um ótimo filme, que se deve muito a sua narrativa baseada na desconstrução de um ícone, tratando o personagem da forma menos romântica possível, mostrando suas contradições e seus anseios, que acabaram se refletindo posteriormente em uma revolta. Com essa desconstrução que o filme faz em torno da figura de Tiradentes, Marcelo também constrói um novo ícone, um novo mártir, que é muito mais humano e próximo a nós do que aquele que conhecemos superficialmente nas escolas. Além da figura de Tiradentes, que é totalmente remodelada, o filme também faz um panorama sociopolítico e mostra que os séculos que nos distanciam daquele período não são tão distantes assim. Muito da atual conjuntura é vista no cenário político do filme, trazendo assim, não só o protagonista, mas como tudo que o cerca, para próximo de nós. E isso pode nos parecer demasiadamente assustador.

Título Original: Joaquim
Direção
: Marcelo Gomes
Roteiro: Marcelo Gomes
Elenco: Julio Machado, Isabél Zuaa, Nuno Lopes, Rômulo Braga, Welket Bungué, Karai Rya Pua
País: Brasil, Portugal
Ano: 2017
Duração: 97 minutos
Estreia: 20/4/2017
Distribuidora: Imovision