É gratificante quando um filme consegue expor tão bem os anseios de seus personagens de uma forma tão visual, se por um lado temos as poesias melancólicas da figura aqui retratada, por um outro temos a forte personalidade da personagem, que convergem em toda a cinematografia de “Além das Palavras” (2016), novo filme de Terence Davies.

Além das Palavras” conta a história da poeta americana Emily Dickinson (Cynthia Nixon e Emma Bell quando mais nova), o filme passeia desde a sua juventude, quando começou a se dedicar a poesia e vai até os últimos suspiros de Emily, que lutava por reconhecimento enquanto vivia sua vida de uma forma extremamente reclusa.

A primeira cena de “Além das Palavras” revela muito sobre toda a proposta da obra e, de cara, já nos encantamos com o design de produção minucioso que o filme possui, nos transportando para os E.U.A. do começo do século XIX. Além do impressionante deslumbre visual, logo de início já nos damos conta também da forte personalidade de Emily, pois ela se recusa a declarar publicamente a sua fé num seminário de mulheres aparentemente muito religioso e rígido. Seus questionamentos sobre a fé são a frente do seu tempo e bastante lúcidos, o que evidencia seu espírito livre que acabaria se refletindo em seus poemas posteriormente.

Os planos conjunto que o filme entrega são ótimos pra revelar muito do cenário e dos lindos figurinos dos personagens, é um trabalho bastante competente de cinematografia e que engrandece muito a obra. Em vários momentos a fotografia é iluminada somente por velas, revelando as penumbras de seus personagens, como se cada um ali, atrás do manto do conservadorismo, escondesse desejos reprimidos e escondidos nas sombras. A paleta de cores traz uma certa melancolia para as cenas, apesar da sua leveza evidente, com cores moderadamente quentes na maior parte do tempo.

Para completar os ótimos aspectos técnicos do filme, a maquiagem é muito eficiente e mostra de uma forma assustadoramente real os envelhecimentos de seus personagens de forma gradativa. Inclusive, em uma linda transição de tempo, a maquiagem se mostra crucial, onde unida com um sutil efeito digital, mostra os personagens envelhecendo num plano sem cortes.

O filme consegue ambientar muito bem toda a relação de seus personagens em seu primeiro ato, conhecemos as personalidades de cada membro da família Dickinson, isso sem precisar expor muito através de palavras, o foco aqui está nas ações de seus personagens. Enquanto Emily se mostra rebelde em relação a algumas convenções sociais, principalmente aos rituais cristãos, seu pai Edward Dickinson (Keith Carradine), é um homem bastante religioso e rígido, embora muito amoroso e compreensível; a mãe de EmilyEmily Norcross (Joanna Bacon), é uma mulher reservada e que carrega consigo uma grande angústia; já seus irmãos Austin Dickinson (Duncan Duff) e Vinnie Dickinson (Jennifer Ehle) se mostram bastante irreverentes e companheiros, principalmente Vinnie, que dividia todos seus momentos com a irmã, na qual estabeleceu um enorme vínculo de companheirismo ao decorrer dos anos. O filme não se alonga além do necessário estabelecendo essa relações e o faz na medida certa e, após vinte minutos saltamos no tempo e começamos a acompanhar a vida de Emily na meia idade, período em que suas angústias começam a florescer e a tomar conta de seus pensamentos.

Embora possa parecer, por conta de sua cinematografia carregada e por seus planos estáticos, o filme é extremamente bem humorado, isso graças a personalidade rebelde de Emily, que acaba trazendo ótimos momentos cômicos para o filme quando são contrapostas a personagens extremamente conservadores. Esses momentos cômicos se ampliam com a chegada da personagem Vryling Buffam (Catherine Bailey), que rapidamente cria um forte laço com Emily devido ao seu senso de humor totalmente dúbio. As cenas em que as duas estão juntas são sempre impagáveis, os ótimos diálogos rápidos entre essas personagens são repletos de ironias e críticas a sociedade em que vivem.

Além de servir como núcleo cômico da trama, Buffam também serve para que Emily não se sinta sozinha com seus pensamentos rebeldes. Emily enxerga na amiga uma igual, que não se curva, que possui valores bem definidos e que também é livre em suas ideias, isso corrobora também para que seu processo criativo continue firme e, assim, se manter forte escrevendo sobre a sua visão de mundo. A importância de Buffam para Emily é tão gigantesca que, após o casamento de sua amiga, os poemas de Emily começam a ficar mais amargos, o que nada mais é do que um reflexo direto de sua vida, que vai ficando cada vez mais melancólica, com os acúmulos de perdas e despedidas de pessoas próximas.

Apesar do filme construir de forma eficaz as passagens de tempo em seu primeiro ato, em seu segundo ato ela fica um tanto quanto confusa, com personagens que somem e surgem aleatoriamente da trama. E, se tratando do segundo ato, ele começa a se arrastar e o ritmo do filme que já era vagaroso cai bastante, deixando o filme arrastado em alguns momentos. Há um momento também no segundo ato onde Terence Davies faz uma contextualização histórica inserindo imagens da Guerra Civil Americana, o que acaba destoando de toda a narrativa construída até então. Embora essa mesma guerra gere um bom conflito ideológico entre o pai Edward Dickinson e o filho Austin Dickinson, as inserções de imagens de arquivo da guerra são arbitrárias e não contribuem para o avanço da narrativa, só deixando o filme mais arrastado ainda.

A atuação de Cynthia Nixon é de encher os olhos, ao mesmo tempo em que a personagem esbanja carisma, ela também pode soar muito cruel em certos momentos. Os olhares compenetrados de Nixon revelam angústias profundas na alma da personagem e suas falas ríspidas travestidas de rebuscamento trazem pra personagem um caráter totalmente único. A medida que a projeção avança suas angústias sobre a solidão ficam cada vez mais claras, e Nixon entrega uma atuação sem exageros, para assim transmitir as dores de sua personagem para o espectador, tudo de forma bastante contida e reveladora ao mesmo tempo, no tom certo.

O último ato do filme é o mais trágico e ironicamente o mais belo, fica cada vez mais evidente o isolamento de Emily e o seu desejo de ser reconhecida como uma poeta, e nisso o filme sabe trabalhar muito bem, pois por ser mulher, o caminho para ser aprovada pela sociedade é muito mais árduo do que seria para um homem, são vários momentos em que ela precisa se mostrar firme para conseguir o seu espaço, ou seja, é uma prova contínua e desgastante do seu valor quanto artista e quanto pessoa.

E, claro, se tratando de uma cinebiografia de uma poeta, “Além das Palavras” não poderia deixar de expor algumas de suas obras, mas ironicamente esse não é o foco da narrativa, que mergulha poucas vezes nos versos da artista. O filme está muito mais preocupado em entender a figura por trás dos poemas do que o processo de criação dos mesmos e assim, narrá-los com total delicadeza. Embora o filme mostre a personagem escrevendo em algumas cenas, a obra se foca em dar um panorama mais amplo sobre as relações da protagonista, seu estilo de vida, seus valores e suas angústias, procurando dessa forma, tornar palpável uma figura que nunca foi devidamente reconhecida em vida e que, apesar de ser reclusa, era bastante livre em suas ideias.

Título Original: A Quiet Passion
Direção
: Terence Davies
Roteiro: Terence Davies
Elenco: Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Duncan Duff, Keith Carradine, Jodhi May, Joanna Bacon, Catherine Bailey, Emma Bell, Benjamin Wainwright, Annette Badland, Rose Williams, Noémie Schellens, Miles Richardson, Eric Loren, Stefan Menaul, Maurice Cassiers, Sara Vertongen, Barney Glover, Simone Milsdochter, Yasmin Dewilde, Marieke Bresseleers e Verona Verbakel
País: Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte
Ano: 2016
Duração: 125 minutos
Estreia: 27/4/2017
Distribuidora: Cineart Filmes

Avaliação
  • 7/10
    Além das Palavras (2016), de Terence Davies - 7/10
7/10

Resumo

“Além das Palavras”, novo filme de Terence Davies, que acompanha a história da poeta americana Emily Dickinson, está muito mais preocupado em entender a figura por trás dos poemas do que o processo de criação dos mesmos e, assim, narrá-los com total delicadeza. A obra se foca em dar um panorama mais amplo sobre as relações da protagonista, seu estilo de vida, seus valores e suas angústias, procurando dessa forma, tornar palpável uma figura que nunca foi devidamente reconhecida em vida e que, apesar de ser reclusa, era bastante livre em suas ideias.