enthralling-poster-of-hele-sa-hiwagang-hapisphotoarticleCerta vez, o documentarista Eduardo Coutinho disse que filmes longos demais, que chegavam a 9 horas de projeção, acabavam se auto boicotando, pois por mais que a obra discutisse assuntos importantes, ela poderia ficar a sombra de sua duração, referindo-se ao documentário Shoah (1985), obra prima de Claude Lanzmann. Em primeira instância é disso que os filmes de Lav Diaz sofrem, suas obras duram 9, 6 e até 11 horas, mas quem for mais além nas discussões de seus filmes, deixando de lado os debates sobre suas durações, vai encontrar filmes políticos e que contam histórias sobre uma Filipinas repleta de contradições sociais.

Em “Canção para um Doloroso Mistério” (2016), Diaz nos conta três histórias, que se intercalam entre si em determinado momento da trama. Tais histórias partem de um mesmo ponto, a execução de José Rizal em 1986, o que gerou uma rebelião contra o processo colonial vindo da Espanha e que já durava cerca de 300 anos. À partir desse ponto começa a procura por Andres Bonifacio, que assumiu o papel de figura mais importante na luta anti-colonial após a morte de Rizal. Esse é o plot que conduz o filme, misturando personagens históricos, como sua esposa Gregoria de Jesús (Hazel Orencio) e personagens fictícios que a acompanha nessa busca por Bonifacio, que até o momento não sabemos se está vivo ou morto. Em paralelo acompanhamos Simoun (Piolo Pascual), um dúbio revolucionário, que viaja para curar seus ferimentos em companhia de Isagani (John Lloyd Cruz) e mais dois ajudantes. E por fim, acompanhamos uma estranha seita religiosa escondida em cavernas, no qual clamam pela liberdade do povo filipino. Além da interação desses três núcleos em determinado momento, a rima entre essas três histórias se faz na eterna busca, talvez a busca por algo utópico, seja para curar ferimentos físicos ou emocionais.

Assim como em outros filme de Diaz, o tempo é quase um força oculta que guia a história. Em vários momentos no qual as personagens adentram a floresta nos parece que elas se perderam e que andam em círculos, e assim como elas, nós, enquanto espectadores, também nos perdemos no tempo, tornando a experiência cinematográfica em algo praticamente metafísico.

A cinematografia é belíssima, com os planos que possuem uma longa duração, e assim podemos deslumbrar cada quadro do filme, principalmente quando Diaz usa de planos gerais, seja na floresta ou na cidade. Podemos ver claramente o trabalho minicuiso de luz e sombra, que obviamente foi planejado para dar o impacto visual necessário para a cena, o filme é de uma beleza plástica absurda, mas que através do seu ritmo lento se torna algo orgânico. Em determinado momento as neblinas tomam conta dos personagens que estão em meio a questionamentos sobre o futuro do país, ou seja, é uma cinematografia que está a serviço da história e que complementa os sentimentos que os personagens querem transmitir.

Quase nada do filme é jogado ao acaso, inclusive o título remete a vários momentos musicais que ele possui, obviamente com músicas diegéticas. As músicas que os personagens executam ao violão são extramente melancólicas e belas, mais uma vez trazendo à tona o sentimento que assolava o país naquele período. E é nisso que o filme de Diaz é poderoso, ele resgata a memória de luta de um povo; se em outros trabalhos ele falava sobre a ditadura filipina, aqui ele retrocede mais ainda no tempo e nos mostra o quanto a história é cíclica e o quanto um povo ao longo de suas gerações lutou pela liberdade. Como se não bastasse esse peso histórico, Diaz traz mais voz ainda para pessoas que talvez foram engolidas pelo tempo e pela globalização ao mostrar a força do folclore local. As crenças indígenas permeiam o filme inteiro, criando em certos momentos situações que se assemelham ao cinema fantástico. Ao todo são três personagens que personificam essa cultura, que revezam entre si com aparições esporádicas, eles trazem consigo a sabedoria de um povo milenar que carregam a esperança da liberdade.

Infelizmente, uma obra com mais de 8 horas de duração é difícil de ser homogênea, por mais concisa que ela seja. Se em algum momentos o filme exala brilhantismo, outros soam fraquíssimos. Cito aqui as atuações para fazer um contraponto: no início do filme temos um brilhante diálogo entre dois personagens num único plano que dura mais de dez minutos, sem corte algum, mostrando o calibre dos atores, que deixam a cena com uma ótima fluidez; em outro momento as atuações entregues não são satisfatórias e isso pesa, principalmente em determinado ponto do filme onde os personagens adentram a floresta e o filme parece não caminhar, fazendo também a obra perder o ritmo, que vinha numa crescente narrativa.

As últimas cenas de “Canção Para um Doloroso Mistério” são repletas de esperança, embora o desfecho dos personagens não sejam esperançosos. O monólogo de Isagani é cheio de indignação histórica, mas que também não deixa de apontar uma certa esperança para o futuro, sem dúvidas é uma das cenas mais emocionante de todo o filme.

Canção Para um Doloroso Mistério” pode ter alguns problemas de ritmo e de atuação, mas nada que comprometa a experiência cinematográfica no geral. É um filme poderoso que fala de um país escravizado e de um povo perdido, mas com forte espírito de luta, e juntamente com esse espírito de luta, Diaz usa do folclore para mostrar que a Filipinas possui história e uma tradição ancestral, que é repleta de conflitos, mas também de misticismo e mistério.

*Filme assistido durante a 40° edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Direção: Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz
Elenco: Piolo Pascual, John Lloyd Cruz, Hazel Orencio, Alessandra de Rossi, Bernardo Bernardo, Joel Saracho, Susan Africa, Cherie Gil, Angel Aquino, Sid Lucero, Ely Buendia, Bart Guingona, Menggie Cobarrubias, Ronnie Lazaro, Karenina Haniel, Paul Jake Paule, Matt Daclan, Sheen Gener, Sigrid Andrea Bernardo, Earl Ignacio, Kristine Kintana, Noel Sto. Domingo, Raymond Lee, Melo Esguerra, Bianca Balbuena, Kuya Manzano e Tenefrancia
País: Filipinas, Singapura
Ano: 2016
Duração: 485 minutos