14 anos separam a estreia do super grupo de heróis, criados pela Pixar (e com direção de Brad Bird) deste novo e expansivo capítulo, e o tempo apenas aperfeiçoou o que foi introduzido no início dos anos 2000. O drama inerente a identidade secreta desses personagens e sua dualidade diante das questões familiares – e do governo – ganham ares sombrios dignos dos clássicos Noir dos anos 50. Essa ambientação, inclusive, detalhada em uma fotografia hiperrealista, entretanto, muito charmosa, funciona como um personagem introdutório do tom mais político que a sequência carrega.

Marcado por uma trilha sonora impecável, o filme retorna aos acontecimentos do primeiro filme e o “fracasso” da família incrível na simbólica batalha contra o escavador – aqui detalhada pelo olhar de personagens secundários e destacando que o governo tornou ilegal qualquer forma de super poder utilizado publicamente, ainda que isso sirva ao bem estar social. Beto (Senhor Incrível), desempregado e vivendo o dilema de compreender o crescimento do impagável Zezé, não sabe que rumo sua família tomará sob a sua liderança e é nesse contexto de crise que o enredo se desenvolve brilhantemente mesmo com aspectos mais convencionais (sacadas rápidas e ação desenfreada) das animações: “Os Incríveis 2” é um drama sobre a dinâmica familiar (moral) e o que significa firmar esse conceito nos dias presentes. É importante mencionar esse aspecto como uma retomada da Pixar ao seu estilo que perfeitamente soube equilibrar texto (“Ratatouille“, também do mesmo Brad Bird) com ação e drama (“Procurando Nemo“). 

Avaliando a situação ao lado da flexível Helena (Senhora Incrível), ambos recebem com surpresa uma proposta misteriosa do Gelado, que foi sondado pela maior corporação do ramo das telecomunicações no universo do filme, a DevTech. Presidida por um entusiasmado ricaço e pela sua genial irmã, Beto e Senhora Incrível ficam convencidos de que ali existe uma alternativa ao desemprego e ao medo de deixar seus três filhos desamparados, portanto, esse será o primeiro grande teste de confiança do vínculo proposto no núcleo da família Incrível. 

A Devtech preocupa-se com o bem estar social e com a mudança das perspectivas sobre os heróis, diante de um governo fragilizado e polarizado, contudo, é a ótica feminina dentro desta empresa e a flexibilidade consagrada da Mulher-Elástica, que cabem a dificuldade e a complexidade dos novos desafios que a cidade enfrentará: O Hipnotizador. Esta mudança de unidade, inteiramente protagonizada pela Senhora Incrível, permite que o espectador tenha plena confiança em sua capacidade e na forma como o olhar feminino consegue ser muito mais justo do que na perspectiva algumas vezes egoísta do Senhor Incrível. Cabe aos mais tradicionais a visão de que o pai trabalha enquanto a mãe fica em casa resolvendo os problemas fraternais e de formação.

Os Incríveis 2” faz questão de ser didático na forma como dispõe esse tema através da voz operante de uma mãe guerreira, o que nos dá oportunidade de conhecer melhor sobre as fragilidades de Beto ao lidar com sua real paternidade e o papel conselheiro que o Senhor Gelado e a grande diva Edna Moda passam a exercer para encontrar o equilíbrio nesse contexto caótico: é como a redenção de alguém que enfim aceitou ver o crescimento do fofo Zezé com seus demoníacos poderes e que entende que entre a matemática do filho e o namoro da filha é necessário entender a mudança de paradigmas que mais de uma década entre os filmes consegue nos dizer através das desilusões desse querido personagem.

Se o desenvolvimento do filme no aspecto mocinha contra vilões parece um pouco ágil em sua resolução, “Os Incríveis 2” é um ótimo exemplo de sequência que se equilibra na qualidade ao seu primeiro capítulo e se conecta com a pertinência das questões femininas e como essas relações podem tornar nosso cotidiano mais justo e com leis bem aplicadas.

Título Original: Incredibles 2
Direção: Brad Bird
Roteiro: Brad Bird
Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Catherine Keener, Eli Fucile, Bob Odenkirk, Samuel L. Jackson, Michael Bird, Sophia Bush, Brad Bird, Phil LaMarr, Isabella Rossellini
Produção: Nicole Paradis Grindle, John Walker
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 118 minutos
Estreia: 28/06/2018
Distribuição no Brasil: Disney

Notas

00 a 1.5 (Péssimo)
2.0 a 3.0 (Ruim)
3.5 a 5.0 (Regular)
5.5 a 6.5 (Bom)
7.0 a 8.0 (Muito Bom)
8.5 a 9.0 (Ótimo)
9.5 (Excelente)
10 (Obra-Prima)

Avaliação
  • 8.5/10
    Os Incríveis 2 (2018), de Brad Bird - 8.5/10
8.5/10

Resumo

“Os Incríveis 2” é um ótimo exemplo de sequência que se equilibra na qualidade ao seu primeiro capítulo e se conecta com a pertinência das questões femininas e como essas relações podem tornar nosso cotidiano mais justo e com leis bem aplicadas.