birth_of_a_nationDemorou mais de cem anos para o cinema se apropriar do título do filme de D.W. Griffith, lançado em 1915. Embora o filme de Griffith tenha estabelecido toda uma linguagem cinematográfica na época, o filme em si exala preconceito , sendo uma das obras mais racistas já concebidas. Mesmo Griffith tendo lançado posteriormente o filme “Intolerância” (1916) para se ‘retratar’, faltava ainda um olhar que voltasse para o período do mesmo filme propagandista da Ku Klux Klan de Griffith. Um filme que subvertesse todo o peso de um nome que dava a entender que uma nação tinha nascido a base de trabalho negro e escravo e que isso seria algo pra se louvar, e é isso que Nate Parker faz ao utilizar o mesmo título do tal filme de Griffith, contar uma história protagonizada por oprimidos, que ridiculamente foram tratados como marginais no filme de 1915 e que infelizmente ainda são jogados à margem nas grandes produções hollywoodianas. Um filme que carrega no título “O Nascimento de Uma Nação” e que tem uma função humanitária, o faz ser um filme totalmente político e necessário, uma obra que faltava na história do cinema e que tardou a chegar.

O Nascimento de Uma Nação” é o primeiro longa dirigido por Nate Parker, que também protagonizou e produziu o filme. A trama se passa em 1831, nos Estados Unidos e é baseada na vida de Nat Turner (Nate Parker), que comandou uma rebelião de escravos, na qual foi o ponta pé para uma grande luta dos negros pela liberdade de seu povo.

O filme abre com uma cena de perseguição, o que nos dá o tom da obra como um todo, pois ao acompanharmos a história através dos olhos olhos de Nat, seremos sempre remetidos a repressão que cresce a medida que o filme avança. Mesmo com o todo pano de fundo denso que o filme possui, o primeiro ato é mais ameno se comparado aos atos seguintes, já que é aqui onde acompanhamos o crescimento de Nat, pois no começo do filme somos apresentados ao personagem ainda criança e, onde, por uma série de incidentes é recrutado pelos donos da fazenda para aprender a ler e a trabalhar dentro de casa, realizando afazeres domésticos. Mas fato que não dura muito e Nat volta aos seus afazeres anteriores colhendo algodão. Após um salto no tempo já o vemos mais velho e utilizando o que aprendeu quando criança para ler a bíblia e a pregar para os escravos, o que mostra a sua devoção perante a Deus. E essa devoção e pregação serão essenciais para a revolta de Nat conta a escravidão.

A construção do protagonista é lenta e demasiadamente sofrida, pois são inúmeras vezes que ele precisa presenciar momentos de repressão com mais violência física para se questionar quanto o seu papel como cidadão e de todos os negros, além de enxergar a verdadeira face da escravidão, pois até então a sua visão estava velada pelo convívio mais próximo com os donos da fazenda. E são nesse momentos que Nat descobre que possui a a oratória como uma forte arma ao seu favor para reunir os escravos e juntos se rebelarem.

As cenas de violência são bem gráficas, principalmente no último ato, onde os escravos iniciam as revoltas e vão atrás dos senhores das fazendas, e nesse ponto a violência se faz necessária, pois isso é quase como uma resposta a toda violência que o negro sofreu ao longo da história do cinema e mais além, a violência que o negro sofre no cotidiano diariamente. Há aqui uma cena de decapitação muito simbólica, ela não é só uma cena gratuita de violência como possa parecer, é um grito por liberdade praticamente catártico. Vide como Parker a filma, em um plano aberto, mostrando a liberdade que tal cena simboliza.

Embora o filme tenha cenas poderosas, em alguns momentos ele se perde. Todas as visões e sonhos de Nat que são colocadas no filme são fracas, embora algumas possuem um forte impacto visual, a maioria não serve muito para o andamento da trama, e isso quando a cena não atinge seu objetivo e acaba se tornando piegas. E, ao mesmo tempo que Nate insere essas cenas na obra para tentar criar sentimentos no espectador, a trilha é totalmente maniqueísta e vai para o mesmo lado. Nas cenas fortes, ou carregadas de emoção, a trilha toma conta do filme e não funciona, o que acaba tirando quase o valor do texto, tamanha a forçação sentimental que ela quer transmitir.

E infelizmente o filme acaba se perdendo nos momentos finais, toda a jornada do protagonista e dos demais companheiros revolucionários são jogados em uma cena com um tom forçado de clímax, o que acaba soando desnecessário, assim como a necessidade de ter um antagonista central, pois quando chegamos nessa cena de batalha, além dela soar artificial, ela transmite para o espectador um aspecto de conclusão, fato que notoriamente não é. E no fim, Nat é retratado mais como um mártir do que um líder que iniciou uma revolução importante.

Apesar dos problemas apontados, o filme é poderoso em seu tema e nos transmite esperança em sua cena final, nos dizendo que a luta pela igualdade racial é importante e sempre se manterá firme enquanto houver racismo em nossa sociedade. Portanto, “O Nascimento de uma Nação” é um filme importante e vem numa época necessária, e a apropriação do título do filme do Griffith lhe caiu muito bem, pois a história do cinema americano clamava por algo assim há tempos.

*Filme assistido durante a 40° edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo

Direção: Nate Parker
Roteiro: Nate Parker
Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Penelope Ann Miller, Jackie Earle Haley, Mark Boone Junior, Colman Domingo, Aunjanue Ellis, Dwight Henry, Aja Naomi King, Esther Scott, Roger Guenveur Smith, Gabrielle Union, Tony Espinosa e Jayson Warner Smith
País: Estados Unidos da América
Ano: 2016
Duração: 120 minutos