O material original de “Ghost in the Shell” serviu de inspiração para inúmeros filmes em Hollywood, quem bebeu mais desa fonte foram as irmãs Wachowski para criar boa parte do conceito da trilogia “Matrix” (1999-2003), que por ventura acabou influenciando tantas outras obras posteriores. Dito isso, o filme “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” (2017), de Rupert Sanders, possuía uma grande tarefa nas mãos, que vai além de se sustentar como uma boa adaptação hollywoodiana de uma clássica franquia japonesa e lidar com o caso de whitewashing (que se refere ao uso de atores brancos para interpretar personagens de outras etnias), mas também se distanciar visualmente e conceitualmente das obras que se influenciaram à partir de seu material fonte, isso sem perder a essência da trama. Mas, apesar do filme tentar resolver tais questões, o que vemos em seu resultado final é uma obra que não se arrisca tanto quanto deveria.

Na trama de “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell“, acompanhamos a trajetória de Major (Scarlett Johansson), uma ciborgue que possui um cérebro humano e serve como militar, comandando a força-tarefa Seção 9, um esquadrão de elite especializado em combater crimes cibernéticos. Mas, pistas do passado começam a surgir para Major quando um inimigo surge para impedir os avanços tecnológicos da HankaRobotic.

A adaptação hollywoodiana usa vários conceitos da obra original de Masamune Shirow como ponto de partida para desenvolver sua trama de forma completamente independente. Mas mesmo assim, o filme tenta agradar aos fãs da obra original usando planos que remetem a animação de 1995, embora em muitas vezes o conceito das cenas sejam outros, os quadros são idênticos e transmitem aos espectadores mais familiarizados com o material original uma certa nostalgia. A primeira cena, que é a famosa cena da construção do corpo de Major é idêntica ao original e até a trilha sonora flerta com a música tema da animação, conseguindo emular bem uma música nova que não se distancie tanto da que os fãs estão habituados.

Mas uma boa adaptação tem que funcionar como uma obra concisa e que dependa somente dela, sem se ancorar tanto no material fonte, nos entregando um filme que se sustente por si só. E, nesse ponto, o filme possui acertos e erros que precisam ser levantados, sendo eles concentrados no conceito criado pela obra e pela sua proposta. O grande trunfo do filme é a sua concepção visual, todo o conceito tecnológico que cerca a vida de seus personagens são bem trabalhados visualmente, os implantes robóticos que as pessoas usam deixam o filme com um aspecto que beira o fantástico e o horror. Mas o que de fato enche os olhos no quesito de desing de produção é a cidade com seus enormes hologramas e seu caráter ameaçador. O clima sufocante, frio e apático da cidade contrasta com suas luzes e suas cores vivas. Claro que a referência visual é vinda de “Blade Runner, o Caçador de Androides” (1982), grande obra da ficção científica de Ridley Scott, mas isso não tira o mérito da obra, pois o filme de Scott estabeleceu um conceito visual de cidade futurística no cinema e, tal conceito, já está integrado na concepção visual do cinema de ficção científica como um todo.

O primeiro ato do filme flui muito bem, somos apresentados a personagem, ao universo em que ele se passa e a premissa do conflito da trama. A primeira cena de ação é empolgante, embora não seja nem um pouco visceral, ela é bem editada e nos mostra as possibilidades de combate que a tecnologia futurística oferece. O problema é que ao decorrer do filme, as cenas de ação vão ficando cada vez mais estilizadas, há um uso excessivo da câmera lenta e os combates corpo a corpo acabam por perder o peso por possuir coreografias que impedem o impacto visual que tais cenas poderiam ter, as deixando pasteurizadas.

Como era de se esperar, o filme busca ir por uma caminho mais fácil e consequentemente bem mais palatável ao grande público, afinal é um filme da grande indústria e precisa atingir o maior número de pessoas possível. Mas, uma coisa é tentar ser palatável, outra é ser didático em demasia, pois, ao mesmo tempo que a trama parece ser complexa, os questionamentos existenciais de Major são os mais rasos possíveis e, assim, o filme apela para o mais fácil, com diálogos expositivos na sua maior parte do tempo e com artifícios narrativos fáceis, como no caso dos flashbacks da protagonista que entram abruptamente na história de tempos em tempos.

O filme tenta mesclar o conflito da protogonista por possuir uma ‘alma‘ num ciborgue com o passado da mesma, deixando a trama truncada e impossibilitando a obra a prosseguir por caminhos mais sensoriais. Há duas cenas, pontuais, que o filme acerta ao mostrar a crise de identidade que Major está passando e, obviamente, nenhuma dessas cenas precisou apelar para diálogos expositivos e sentimentalistas, como ocorre na maior parte da projeção. Uma dessas cenas foi retirada da obra original e claramente possui uma carga existencial profunda e que poderia ter sido explorada mais vezes. Me refiro a cena do mergulho que, assim como na obra original, cumpre sua função narrativa e dá mais profundidade à personagem de forma bastante eficaz. A outra cena que também passa tal sensação é quando Major procura uma mulher para ter um contato mais físico e assim, conhecer sensações e tentar descobrir se sua ‘alma‘ pode refletir alguma humanidade para sua ‘casca‘.

Como se não bastasse todas as filosofias rasas que o filme joga na tala em seus diálogos, ainda há uma cena que extrapola até mesmo a pieguice que a obra tinha estabelecido até então. No terceiro ato, Major está disposta a descobrir sobre seu passado e acaba encontrando informações preciosas que podem lhe revelar o que até então estava nebuloso em sua memória, e essa é uma das piores decisões que o filme poderia ter, nos entregando uma cena totalmente arbitrária, com diálogos que tentam emular um sentimentalismo tão falso quanto a lógica dessa mesma cena. É uma cena que, além de não funcionar, transforma o filme completamente e a trama acaba caindo definitivamente em um maniqueísmo decepcionante.

O roteiro de Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger também tenta esclarecer sobre a maior polêmica que cercou a produção, que é o caso de whitewashing. E o que poderia parecer uma solução, funciona muito mais como um tiro no próprio pé, pois ao tentar introduzir elementos na obra que justificassem a escalação de Scarlett Johansson como protagonista, a produção só está admitindo que há aqui um whitewashing, e nem entrarei ao mérito se de fato é, mas o filme claramente admite isso. E, ao passar pela questão étnica da protagonista, o filme não acerta e tenta criar uma justificativa vergonhosa de novamente criar uma profundidade para Major, mas que não passa da superfície e, nesse caso, se torna inverossímil.

Com um roteiro tão desastroso, o elenco, por melhor que seja, não consegue apresentar interpretações firmes, os personagens são unilaterais, com poucas ressalvas para Major e KuzeScarlett Johansson não consegue extrair muita coisa de sua personagem; Juliette Binoche, que interpreta a Dra. Ouelet também não conseguir fazer muita coisa com uma personagem sem muita profundidade e Takeshi Kitano, que interpreta o chefe de segurança da Seção 9Daisuke Aramaki, está claramente trabalhando no automático. O único que consegue extrair algo interessante de seu personagem é Michael Pitt, que interpreta Kuze, personagem que possui claras angústias existenciais, sem contar que toda a sua concepção visual é ótima, nos mostrando sua dor física, enquanto Pitt fica a cargo de nos mostrar sua dor psicológica.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” é um filme que não corre risco algum em termos narrativos e sendo assim, preferiu dar ao público uma obra rasa e repleta de sentimentalismos emulados. Quanto obra reflexiva, não funciona, mesmo o filme buscando isso em alguns momentos, quanto filme de ação também não funciona muito, pois, ao contrário do que vemos na primeira cena, a ação não é o seu foco e, quanto a um filme de ficção científica também deixa muito a desejar, não explorando tantos conceitos que o universo da obra proporciona, apesar de vermos um deslumbre dos caminhos que o filme poderia ter tomado em relação a ficção científica em seu começo, nada daquilo é mostrado novamente ao longo da projeção. Infelizmente, é um filme contido, que não quis se assumir completamente como um filme reflexivo, como um filme de ação e como um filme de ficção científica, ficando sempre no meio do caminho em tais pontos. O que se salva, são algumas cenas pontuais em que a Major busca a humanidade em si mesmo e o visual deslumbrante que o filme possui. A grande impressão que fica é de que a Paramount preferiu explorar o universo de Ghost in the Shell em outros filmes e criar uma franquia, isso se chegar a ter continuações.

Título Original: Ghost in the Shell
Direção
: Rupert Sanders
Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger (Baseado no mangá “Ghost in The Shell”, de Shirow Masamune)
Elenco: Scarlett Johansson, Juliette Binoche, Michael Pitt, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano, Andrew Ng, Chris Obi, Joseph Naufahu, Lasarus Ratuere e Peter Ferdinando
País: E.U.A.
Ano: 2017
Duração: 107 minutos
Estreia: 30/3/2017
Distribuidora: Paramount Pictures

Avaliação
  • 5.5/10
    A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017), de Rupert Sanders - 5.5/10
5.5/10

Resumo

“A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” é uma adaptação que prefere não correr riscos e trilhar uma linha narrativa mais palatável, sem grande profundidade e com questionamentos existenciais rasos. O que se salva na obra é seu design de produção, nos apresentando um ambiente carregado tecnologicamente, mas muito bonito visualmente. O filme também possui bons momentos bem pontuais, mas que infelizmente não são aprofundados como deveria.