O cinema do filipino Lav Diaz foi e é construído, tematicamente, através da trágica história de seu país. Diaz realiza um cinema de libertação, que busca recontar as histórias sombrias de opressão sobre um povo, além de manter a memória viva, pontuar o presente e alertar sobre o futuro. Embora chamado de slow cinema, e às vezes lembrado somente por tal alcunha, por possuir longos planos e uma narrativa mais calcada na contemplação, o cinema de Diaz é também extremamente político, elemento que caminha juntamente com todo o entorno narrativo proposto.

Diaz, que é um dos grandes nomes atualmente dos festivais de cinema, apresentou sua mais recente obra “Estação do Diabo” (Ang panahon ng halimaw, 2018) no Festival de Berlim deste ano, no qual possui uma premissa curiosa. No filme, somos transportados para o fim dos anos 1970, onde acompanhamos tramas ficcionais extraídas de figuras reais que passaram pela ditadura de Ferdinando Marcos, que, sob a lei marcial, concedeu autonomia a militares locais. Com a perseguição instaurada numa pequena aldeia, os cidadãos tentam resistir e lutar. Tudo isso embalado num musical.

Estação do Diabo“, quando apresentado, foi descrito como um anti-musical, onde não seriam apresentadas músicas incidentais e todos os personagens as cantariam a capela. Chamar o filme de uma antítese musical é um tanto quanto exagerado, pois os elementos característicos e particulares do gênero estão presentes, que se refugia, inclusive, numa mise-en-scène meticulosa, onde personagens ocupam o quadro como num grande número ensaiado, porém de uma forma subversiva, muito mais minimalista.

O filme se inicia com uma narração em off, que além de contextualizar o período político e histórico em que a trama se passa, também serve como uma porta de entrada ao mitológico, que soa, ironicamente, fabular e cru ao mesmo tempo. A contradição entre a fantasia do musical e a austeridade narrativa, com planos longos praticamente estáticos e com uma fotografia em preto e branco, dão ao filme um caráter peculiar, que deixa o espectador envolto de sentimentos confusos. Dificilmente nos desprendermos da realidade cruel que nos é apresentada, em versos, através dos personagens, embora a suspensão de descrença que permeia os musicais nunca deixe de existir. Tal estranheza percorre toda a obra, que possui quase quatro horas de duração.

É interessante analisar a escolha estilística em que o cineasta se propõe ao subverter um gênero, o que não é exatamente original, óbvio, mas que possui o seu claro aspecto autoral. Como o filme não possui acompanhamento instrumental em suas canções, a diegese alcança outros níveis, o que o torna mais orgânico nas apresentações das músicas, não privando a obra de se tornar também enfadonha em alguns momentos. Outro fator decisivo dentro dessa escolha narrativa, é como as canções surgem, ora na voz dos oprimidos e tantas outras vezes na voz dos opressores. Diaz consegue transmitir muito bem os sentimentos dos personagens através da colocação e da entonação das canções, sem necessariamente se fazer valer por letras.

Os monólogos apresentados, muitas vezes cantados pelos perseguidos, são extremamente solitários, enquanto o coro que mais se repete ao longo da obra é cantarolado com euforia pelos pulmões conjuntos dos militares. Com consciência das posições de seus personagens dentro das próprias melodias, Diaz brinca com tal elemento, traçando o arco narrativo de certos personagens baseando-se nesta sutil informação. O poeta Hugo Haniway, brilhantemente interpretado por Piolo Pascual, por exemplo, passa por uma dolorosa transformação durante a trama, que pode ser traduzida na forma como seus versos são cantados, que surgem inicialmente como monólogos, passando por um longo e doloroso silêncio, até, por fim, na subversão do coro dos militares – quando Hugo parte para o enfrentamento e a resistência.

Tratando-se de uma obra com mais de 230 minutos de duração, fica difícil manter o interesse do espectador numa constante dentro dessa proposta de musical, mesmo com todo o esmero da fotografia de Larry Manda, que extraí das locações belos planos expressionistas, que servem muito bem para o entorno soturno e fabuloso da obra. Mas a repetição de melodias apresentadas desfavorece o filme, deixando-o mais cansativo do que obras mais longas do próprio cineasta, como “Do Que Vem Antes” (Mula sa kung ano ang noon, 2014), que possui quase 6 horas de duração e que não sofre com o estofo que marca algumas cenas de “Estação do Diabo“.

Porém, o que marca o filme e o que o potencializa em sua força temática é a necessidade do cineasta em falar sobre o passado de seu país, costurando uma colcha de retalhos histórica, que em tantos momentos parece ser esquecida, fato que precedentes para que momentos sombrios retornem, algo que vivenciamos também no Brasil, inclusive. A força discursiva do filme é tão forte, que, mesmo após as longas horas e das diversas melodias apresentadas, uma se enaltece, seja pela sensibilidade da composição, ou pela forte letra, que é o coro daqueles que resistem e cantam para que os oprimidos despertem, os chamando em repetidas vezes de filhos da pátria. Simbólico e contundente.

*Filme assistido durante a 18ª edição do INDIE Festival.

Título Original: Ang panahon ng halimaw
Direção: Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz
Elenco: Piolo Pascual, Shaina Magdayao, Bituin Escalante, Pinky Amador, Bart Guingona, Hazel Orencio, Joel Saracho, Angel Aquino
Fotografia: Larry Manda
Produção: Bianca Balbuena, Lav Diaz, Quark Henares, Bradley Liew
País: Filipinas
Ano: 2018
Duração: 234 minutos

Notas

00 a 1.5 (Péssimo)
2.0 a 3.0 (Ruim)
3.5 a 5.0 (Regular)
5.5 a 6.5 (Bom)
7.0 a 8.0 (Muito Bom)
8.5 a 9.0 (Ótimo)
9.5 (Excelente)
10 (Obra-Prima)

Avaliação
  • 7/10
    Estação do Diabo (2018), de Lav Diaz - 7/10
7/10

Resumo

O que marca “Estação do Diabo” e o que o potencializa em sua força temática é a necessidade do cineasta em falar sobre o passado de seu país, costurando uma colcha de retalhos histórica, que se reflete numa preocupação com o futuro e com o presente.