Uma das grandes surpresas do cinema brasileiro nos últimos anos foi o filme “A Vizinhança do Tigre” (2014), que, num híbrido de documentário e ficção, narrava a rotina de dois jovens da periferia, mostrando-os de uma forma tão próxima e credível que dificilmente é vista no cinema nacional. Se “A Vizinhança do Tigre” colocou os nomes de seus realizadores no radar da cinematografia brasileira contemporânea, o mais recente trabalho da dupla Affonso Uchoa e João Dumans os consagra como um dos mais inventivos cineasta da geração.

Em “Arábia“, acompanhamos a trajetória do personagem Cristiano (Aristides de Sousa), que vive de cidade em cidade em busca de trabalho. Sua história é narrada de uma maneira brilhante, onde o próprio protagonista se faz ouvir, revelando sua complexa história pelo interior de Minas Gerais.

Todas as escolhas narrativas do filme são certeiras em seu propósito. No início, ao acompanharmos um personagem andando de bicicleta, o filme nos mostra as belas montanha de Minas Gerais, que surgem juntamente com os verdes da natureza e com o azul do céu límpido. Esta sequência inicial, filmada num longo plano sem cortes e com belos planos abertos, é crucial para que, quando formos expostos ao contraponto visual logo em seguida, sentirmos plenamente a diferença entre as montanhas e as fábricas, que abruptamente tomam conta do cenário do filme.

O filme também se mostra corajoso ao apresentar um personagem, que a princípio acreditamos ser o protagonista, mas que no fim possui a função narrativa de servir como ponte para que o legítimo protagonista ganhe seu espaço. É algo arriscado, mas totalmente funcional e coerente dentro de sua proposta. Outro artifício arriscado, mas que é totalmente justificável, é a narração em off do protagonista, que por meio de uma espécie de diário, fala sobre os caminhos que sua vida tomou. Sendo assim, o protagonista do filme só ganha seu espaço quando se dá conta de quem ele é. Enfim, Cristiano não surge espontaneamente como o dono de sua própria história, como um protagonista, ele torna-se.

A obra usa da história de Cristiano para registrar uma parte da vida de trabalhadores reais. E esse senso palpável que o filme possui é o que o faz ser tão poderoso em seu olhar. Colocar na tela a rotina do povo trabalhador, sem máscaras ou firulas, observando-os quase que intimamente, também dá ao filme um aspecto político contundente, levantando debates que, mais do que nunca, precisam ser colocados em pauta. Diálogos como “o que é mais fácil de se carregar?“, são tão simples em sua execução, mas tão grandiosos em seus discursos, que fazem do filme o retrato mais cru, sublime e político do operário. Até mesmo o estranho título do filme é justificado em um desse diálogos corriqueiros, dando ao título uma alegoria certeira e que permeia toda a obra.

Essa história de vida de Cristiano, que passa pela cadeia e por diversas cidades na busca de um emprego, além de um lugar que o acolha, faz com que o filme também se torne uma espécie de rodie movie da classe trabalhadora, repleto de simplicidade e sutilezas. Até mesmo o romance inserido funciona de forma orgânica, que por sinal, nos entrega uma das cenas mais sublimes do filme, numa sequência em que o casal de personagens vão para um parque e ouve-se na trilha a música “Três Apitos“, de Noel Rosa, interpretada de forma maravilhosa por Maria Bethânia, isso enquanto a fotografia de Leonardo Feliciano enquadra as mãos dos personagens em planos detalhe, mãos essas que, na maior parte do tempo são usadas para o trabalho, mas que nesse momento estão entrelaçadas, num gesto de afeto, ressignificando assim a sua habitual função.

A dura trajetória do protagonista é narrada lentamente e, aos poucos, o roteiro vai se fechando, concluindo o arco de Cristiano, que se iniciou repentinamente. E por fim, durante esse caminho, nos debruçamos sobre as angústias, os traumas e anseios de Cristiano, que se convergem na espetacular cena onde ele finalmente se dá conta do real significado daquilo que o cerca e também de qual é o seu papel naquela fábrica, ou nesse sistema em que ele está inserido. O final, extremamente catártico, é um grito dos oprimidos, mesmo que internamente. É um lampejo de resistência e o ecoar da voz de uma classe que dificilmente consegue ser escutada e que é, afinal, constantemente abafada pelo barulho da fábrica e por tudo aquilo que ela representa.

Título Original: Arábia
Direção: Affonso Uchoa e João Dumans
Roteiro: Affonso Uchoa e João Dumans
Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Glaucia Vandeveld, Renata Cabral, Renato Novaes, Wederson Neguinho, Adriano Araújo, Renan Rovida
Fotografia: Leonardo Feliciano
Produção: Vitor Graize
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 96 minutos
Estreia: 05/04/2018
Distribuição no Brasil: Embaúba Filmes e Pique Bandeira

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima

Avaliação
  • 10/10
    Arábia (2017), de Affonso Uchoa e João Dumans - 10/10
10/10

Resumo

“Arábia” pode ser chamado de um rodie movie da classe trabalhadora, ele é um filme repleto de sutilezas, que coloca o povo como protagonista de sua própria história e que no fim, soa como um porta-voz de uma classe que dificilmente consegue ser escutada e que é, afinal, constantemente abafada pelo barulho da fábrica e por tudo aquilo que ela representa.