Desde o lançamento de “A Bruxa” (2015) que a crítica começou a olhar com mais atenção para as produções de horror da A24, que, com um orçamento relativamente baixo para os padrões da indústria, entregam narrativas inventivas e que vão na contramão dos mais populares filmes do gênero. Obras como “Ao Cair da Noite” (2017) e “A Ghost Story” (2017) evidenciavam o horror que habita em nós mesmos, fato que, por muitas vezes, pode ser mais assustador do que alguma ameaça monstruosa externa.

A mais recente produção de horror da A24 se mantêm nessa mesma linha narrativa, nos mostrando que ainda há respiros no cinema de gênero, que infelizmente cai, de tempos em tempos, em fórmulas prontas que engessam as produções. “Hereditário” (Hereditary, 2018), do estreante Ari Aster, é um ótimo exercício de atmosfera e já figura entre os melhores exemplos de construção de paranoia dentro do gênero dos últimos anos.

Na trama, acompanhamos a família Graham, que após a morte da avó, começam a desvendar coisas sobre o passado que também pertencem a eles, tudo num âmbito de luto, sofrimento e aceitação, perante a uma realidade que parece desmoronar gradativamente diante de seus olhos.

Os méritos de “Hereditário” são muitos, e por isso é necessário enumerá-los aqui. A primeira coisa que salta aos olhos é a excelente cinematografia da obra, que através de panorâmicas e travellings, estabelece o ambiente hostil em que os personagens estão inseridos. O passeio que a câmera faz em cena é extremamente fluído, criando, além de uma atmosfera densa que os planos mais longos pedem, um interessante aspecto dentro do contexto da trama, nos fazendo crer que os personagens estão, na maior parte do tempo, sendo observados. Algo que a decupagem também contribui, com a inserção de câmeras subjetivas que transmitem o olhar de um certo perigo desconhecido.

Outro aspecto técnico importantíssimo para que a construção de clima funcione muito bem é a mixagem de som, que potencializa as angústias vividas pelas personagens, já que são inserções diegéticas, dentro do universo da obra. Aspecto técnico que também funciona perfeitamente com a trilha sonora de Colin Stetson, que foge dos clichês do gênero e que também serve justamente para complementar a ambientação, não forçando sustos. E, tratando-se de sustos, o filme subverte as expectativas do sustos fáceis, se preocupando muito mais em causar um desconforto contínuo no espectador, do que aliviar a tensão em prol dos rápidos momentos de escape.

Hereditário” começa como um típico de filme de terror sobrenatural, estabelecendo os personagens e todo o ambiente. Mas, num ponto de virada para o segundo ato, o filme se converte, e o que antes parecia algo óbvio, se transforma num drama familiar sobre o processo de luto, porém extremamente ambíguo. E essa escolha que o filme faz pode desagradar aos espectadores mais desavisados, que podem não embarcar, infelizmente, num terror psicológico mais cerebral.

A medida que o filme avança em seus conflitos, os personagens vão ganhando outras dimensões, claramente mais complexas. A personagem Annie (Toni Collette), que é a mãe da família Graham, possui um arco surpreendente, que parte, do início, ao seu trabalho extremamente metódico de fazer maquetes, ao colapso nervoso do mais intenso desiquilíbrio ao decorrer da trama. O caminhar gradativo para que a paranoia tome conta por completo dos personagens pode parecer truncado, mas é justamente com esses passos lentos que conseguimos absorver cada mudança que nos é apresentada. E vale também ressaltar que Toni Collette está assustadoramente incrível no filme, o desespero que ela consegue transmitir não é somente credível dentro dos conflitos que a trama apresenta, como também há algo de expressionista em seu trabalho corporal, que nos joga pra fora da realidade de certezas imutáveis, nos deixando num mundo do irreal, do confuso e do assustador.

O último do ato do filme é extremamente desconfortável, devido ao estranhamento das situações que, por não serem previsíveis, deixam o espectador aflito, justamente ao se deparar com esse desconhecido e assim tentar ordenar as estranhezas de uma forma lógica. E, por apresentar tantas sequências tensas, que são maiores a cada cena, o filme acaba se atropelando, não dando ao espectador um vírgula sequer, uma pausa para respirar. Mas isso não seria um problema se o roteiro do filme não colocasse tantas reviravoltas meio a todo esse desconforto, o que acaba deixando a obra atropelada e confusa em alguns momentos. Mas ainda assim, o filme consegue se manter grande, entregando uma resolução que vai além do assustador, que é literalmente arrepiante.

Ao final da sessão de “Hereditário” a sensação que paira é a de espanto, pois poucos filmes conseguem transmitir com tamanha eficiência uma construção de paranoia dentro do horror. E, mais uma vez, uma produção inventiva e ousada nos mostra que o assustador se torna mais ameaçador quando surge do desconhecido, e por mais incrível que pareça, o desconhecido pode ser até mesmo o âmbito familiar, que esconde raízes ocultas.

Título Original: Hereditary
Direção: Ari Aster
Roteiro: Ari Aster
Elenco: Alex Wolff, Ann Dowd, Gabriel Byrne, Milly Shapiro, Toni Collette, Austin R. Grant, Brock McKinney, Jake Brown, Mallory Bechtel, Morgan Lund
Fotografia: Pawel Pogorzelski
Produção: Kevin Scott Frakes, Lars Knudsen, Buddy Patrick
País: Estados Unidos da América
Ano: 2018
Duração: 127 minutos
Estreia: 21/06/2018
Distribuição no Brasil: Diamond Films

Notas

00 a 1.5 (Péssimo)
2.0 a 3.0 (Ruim)
3.5 a 5.0 (Regular)
5.5 a 6.5 (Bom)
7.0 a 8.0 (Muito Bom)
8.5 a 9.0 (Ótimo)
9.5 (Excelente)
10 (Obra-Prima)

Avaliação
  • 9/10
    Hereditário (2018), de Ari Aster - 9/10
9/10

Resumo

Ao final da sessão de “Hereditário” a sensação que paira é a de espanto, pois poucos filmes conseguem transmitir com tamanha eficiência uma construção de paranoia dentro do horror. Isso se dá ao excelente trabalho da incrível cinematografia que o filme possui, que estabelece, desde o começo, um universo ameaçador.