Revisitar temas dos áureos anos 80 não é nenhuma novidade em Hollywood, uma prova disso é ultimamente termos muitas produções originais no cinema e na TV que seguem essa receita, que, sendo bem usada, mexe com as emoções dos marmanjos da época, e até de gente jovem que cresceu assistindo remakes, os filmes clássicos de Steven Spielberg, Joe Dante e também adaptações de Stephen King. E o que dizer das músicas e figurinos que começaram a ganhar espaço no final de 70, e que teve sua explosão no anos 80, e que são hoje fortes influências para o mundo pop e do entretenimento?!

Dentro da Marvel, essas influências ganharam espaço nos dois primeiros filmes de James Gunn, “Guardiões da Galáxia Vol. 1 e 2“, e parecem que viraram uma identidade do mundo cósmico do MCUUniverso Cinematográfico da Marvel, pois vemos todas elas (e mais um pouco) dentro do novo filme do Deus do Trovão. Outra coisa que vemos aqui com forte influência de Guardiões da Galáxia são as piadas sutis e rápidas, que dialogam com a narrativa e facilitam a identificação com os personagens. E como não poderia deixar de ser, também temos em “Thor: Ragnarok” (2017), a identidade visual do mundo cósmico influenciado por Jack Kirby.

Quem comanda “Thor: Ragnarok” é o talentoso diretor neozelandês Taika Waititi, que é bem conhecido na cena independente por seus filmes como “Boy” e “O que Fazemos nas Sombras”.

O filme se passa 2 anos depois dos eventos de “Vingadores: A Era de Ultron”, e logo na primeira cena temos uma explicação rápida do que Thor (Chris Hemsworth) ficou fazendo durante esse tempo em que se desencadeou os eventos de “Capitão América: Guerra Civil”. Depois dessa tal jornada, ele decide voltar para Asgard, e essa volta acaba levando ele a descobrir alguns segredos que seu pai, Odin (Anthony Hopkins), estava escondendo. A vilã do filme, Hela, muito bem interpretada por Cate Blanchett, é o grande embate do Deus do Trovão no filme.

Chris Hemsworfh está bem a vontade com a direção de Waititi. O tom mais cômico da produção parece ter feito bem em sua nova encarnação do personagem. Uma das grandes queixas dos fãs dos quadrinhos eram esses lapsos de comédia que parecem não ser muito comum nas HQs. Mas, para mim, caiu muito bem para dar uma identidade ao herói, que se encontrava um tanto quanto no limbo. O jeito de herói canastrão é muito melhor desenvolvido pelo ator do que o tom que queriam dar antes, mais sério e dramatizado, que, infelizmente, o ator não entregava tão bem.

Mas, o mais engraçado, é que esse mesmo tom canastrão dialoga com todo o filme e com seus personagens coadjuvantes. Isso se deve bastante a essa jornada de dois anos em que Thor esteve sumido, deixando claro que o personagem cresceu bastante. Podemos ver também uma mudança de postura quanto ao irmão Loki (Tom Hidleston), que faz com que a relação entre os personagens amadureça, fortalecendo os laços (vamos ver até quando)!

Taika Waititi tem uma grande habilidade para criar personagens carismáticos. Com diálogos irônicos e sarcásticos, isso é o que mais se vê ao decorrer do longa. Valkyrie mesmo é uma personalidade e tanto. Beberrona, mau encarada, é uma mercenária que trabalha em Sakar e que ganha a vida encontrando novos lutadores para o Grão-Mestre, mas tem certos segredos de seu passado que podem mudar seu rumo no decorrer da trama. O Grão-Mestre (Jeff Goldblum), citado acima, é quem comanda Sakar. Com trejeitos estranhos, meio andrógeno, vestindo roupas coloridíssimas e com uma boa lábia, ele manda e desmanda no lugar praticamente sem opositores. Ele organiza lutas entre gladiadores para ganhar a graça da população, uma figura, além de tudo, carismática. E, falando em personagens carismáticos, não esqueçamos de Korg, interpretado por Waititi. Korg é um alienígena de pedra, uma simpatia, e dono de várias cenas antológicas, com falas muito engraçadas e com um ótimo timing cômico. A interação desses personagens são essenciais para o andamento da trama, e ajudam a deixar o filme mais crível.

Outro vingador que não aparecia desde “A Era de Ultron” era o Hulk, que aqui é um gladiadores comandados pelo Grão-Mestre. Ele é a atração principal, e idolatrado pelos população de Sakar. A união de Thor e Hulk rende uma boa parceria, boas cenas de batalha e alguns bons diálogos, mas, ao contrário de Thor, parece que o gigante esmeralda está ali a favor do roteiro, e talvez por uma vontade desesperada de levar a um pouco da HQ “Planeta Hulk” para os cinemas, e dar mais protagonismo ao herói, que já há alguns anos não ganha um filme solo. O problema disso tudo é que essa tentativa acaba não acrescentando muito ao crescimento do personagem. Parece que vemos o mesmo Bruce Banner de sempre, meio perdido, sem rumo, e com seus mesmos dilemas.

Os efeitos visuais, e captação de movimentos, são um dos grandes feitos do filme. O próprio Hulk está visualmente muito mais bem resolvido, isso tenho que admitir. E toda a construção de Asgard e Sakar é de um trabalho de design de produção e direção de arte de encher os olhos. Sakar é a grande novidade nesse quesito. As mescla de prédios arquitetônicos, com o lixão onde tudo o que não presta cai dos imensos buracos negros, são cheios de cores cintilantes. Essas cores que permeiam o filme, é diretamente uma expansão do mundo cósmico do já citado quadrinista Jack Kirby. Esse mundo de cores e figurinos extravagantes, dialogam com a trilha sonora oitentista, cheio de efeitos eletrônicos que mesclam um Neo Wave com trilha de jogos de Atari.

Se Taka Waititi trabalha muito bem seus diálogos com tons cômicos, e cria personagens que nos fazem sentir envolvidos, isso é inegável, mas quando pensamos no equilíbrio entre esses quesitos com uma parte mais dramatizada, ele deixa a desejar. Na verdade, não existe um equilíbrio. Isso já é um problema nos filmes da Marvel desde começou seu MCU (Creio que o único filme que tenha conseguido medir e dosar essas duas receitas é “Capitão América: O Soldado Invernal”). Essa deficiência que a Marvel tem de equilibrar as coisas reverbera muito mais em seus vilões, que ao final da fita, são sempre descartáveis. Com suas motivações fracas e com planos megalomaníacos, não conseguem conquistar o público. Isso, infelizmente se repete em “Thor: Ragnarok“, e olha que nem a talentosa Cate Blanchett consegue salvar a vilã mau escrita e clichê. E olha que ela tenta.

Thor: Ragnarok” é um filme divertido, que tem personagens carismáticos, que expande e cria alguns conceitos, mas cai na mesma armadilha que seus antecessores caíram por seguir a fórmula Marvel.

Título Original: Thor: Ragnarok
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson e Craig Kyle & Christopher Yost
Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Produção: Kevin Feige
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 130 minutos
Estreia: 26/10/2017
Distribuição no Brasil: Disney