behemoth_posterÉ fato que o cinema pode nos levar para conhecer locais e culturas, mas muita das vezes o cinema também serve como forma de denúncia, explicitando fatos que para muitos nem imaginavam que acontecia. No documentário “Behemoth” (2015), do chinês Liang Zhao, temos todos esses fatores reunidos, com uma linguagem poética envolto.

O filme abre com plano geral de uma montanha, um plano que se segue silencioso até o momento de uma grande explosão, as explosões seguem e o filme se inicia com letreiros que citam uma passagem na qual diz que Deus criou o monstro Behemoth, um monstro gigante que dominava os desertos. E é partindo dessa metáfora que Zhao observa o trabalho de pessoas em uma mina de carvão no interior da Mongólia.

Behemoth” é quase um trabalho puramente de observação, com exceção de algumas cenas propositalmente lúdicas, onde um personagem sobe as montanhas carregando um espelho e pelas narrações em off que procuram metáforas em suas cenas, o que faz o filme perder um bocado de seu tom, pois a narração condiciona o espectador a ter reflexões que as imagens já propõem, tornando as reflexões em fala um pouco enfadonhas. Mas tirando as narrações que prejudicam o filme, “Behemoth” é grandioso em suas imagens, os planos gerais dos campos verdes da Mongólia impressionam, e os planos gerais das montanhas impressionam mais ainda pelo paralelo feito, enquanto o primeiro aparenta vida, o segundo é rústico e chegam a se assemelhar com uma grande prisão a céu aberto, mostrando a pequenez das pessoas perante a paisagem. E é nessa região montanhosa que vemos, às vezes de longe, o trabalho das pessoas nos canteiros de mineração, e a medida que o filme passa vamos nos aproximando mais dessas pessoas.

O filme é repleto de metáforas visuais assertivas, o cenário parece mesmo engolir os trabalhadores como um monstro e quando começamos a acompanhar a jornada de trabalho dessas pessoas vemos o quanto esse ‘monstro’ as escraviza, os planos detalhes que Zhao usa nos olhos das pessoas é devastador, olhares distantes e melancólicos. Zhao também foca muito nos personagens após a jornada de trabalho, em momentos onde eles passam longos minutos se limpando ou como em uma cena onde um personagem passa um bom tempo mexendo nos calos de sua mão.

O silêncio do filme é gritante, no caso o silêncio dos personagens, que trabalham calados, sem esboçar grandes reações, parecendo que o trabalho já é feita numa forma automática. Se por uma lado o silêncio dos personagens é forte, o barulho da produção, das explosões, dos caminhões que entram e saem e das máquinas é angustiante. É um barulho contínuo, que incomoda o espectador. Mas quando todo o ruído nos deixa, ficamos com o silêncio absoluto e com planos nos corpos de suor dos trabalhadores, nas mão calejadas, na pele repleta de fuligem e mais uma vez nos olhares desolados. Nesse instante, mesmo sem som algum, parece que o filme grita, talvez mais alto que o barulho das máquinas que estavam nos acompanhando até o momento, é um grito pavoroso da escravidão que perpetua em nossos tempos de uma forma camuflada.

Os personagens são quase seres esquecidos naquela paisagem, ora na mineração, ora em suas casas e ora em hospitais. O pó de carvão causou doenças em muitos dos trabalhadores, é nesse momento que Zhao leva o filme para os leitos do hospital. As sequências são longas, os personagens respiram de uma forma difícil, os pulmões parecem querer falar nessas cenas, pois aqui o barulho das máquinas é substituído pelo som das respirações e tossidas, é estarrecedor.

No fim, Zhao consegue montar uma composição de denúncia, como os grandiosos documentários de Wang Bing, que também criticam a industrialização asiática. Mas em “Behemoth” essa denúncia vem com momentos de lirismo, que às vezes se perdem com as reflexões e com as citações a Dante, mas que em grande parte, dentro de seu deslumbre visual, dá voz para essas pessoas que no filme falam com os gestos, com a respiração e com o olhar.