O poder de contar histórias no cinema por muitas vezes se esbarra em fatos históricos e, a partir da junção imagética da sétima arte e acontecimentos da história da humanidade, propõe-se um novo olhar para determinado fato, um exemplo comum são os filmes que se passam durante a Segunda Grande Guerra, na qual sabemos quase todos os pormenores, sob o olhar cinematográfico, mas que mesmo assim ainda geram uma enxurrada de filmes sobre o período, alguns excelentes, outros nem tão impressionantes assim.

No caso de “Bye Bye Alemanha” (Es war einmal in Deutschland…, 2017), novo filme dirigido por Sam Garbarski, há um traço de inventividade dentro de um período tão retratado no cinema, o que, pela sua proposta, pode ser mostrar corajoso, mas que perante a sua narrativa, se mostra menos ambicioso do que aparentava.

A trama se passa em Frankfurt, no ano de 1946. Acompanhamos o judeu David Berman (Moritz Bleibtreu) e seus seis amigos, que só possuem um propósito em mente: conseguir finalmente ir embora da Alemanha. Mas, nos tempos difíceis de crise após o fim da Segunda Guerra Mundial, eles precisam de muito dinheiro para realizar seu sonho de partir para os Estados Unidos. Para isso, encontram apenas uma saída: começar a vender enxovais para mulheres alemãs.

O filme é baseado em uma história real e toma liberdades poéticas para contar tal história, isso de acordo com os letreiros que apresenta a obra. E, gratificantemente, logo de início, percebemos que apesar do pano de fundo avassalador, o filme optará por contar a sua história de uma forma despretensiosa, com leves toques de humor. Tal escolha se confunde com o arquétipo de seu protagonista, um verdadeiro contator de histórias, piadista e mentiroso, o que transforma o filme em uma história sobre o poder de contar histórias.

Bye Bye Alemanha” se inicia abrindo o quadro como se estivéssemos prestes a mergulhar numa fábula, o que inicialmente parece uma piada de mau gosto quando pensamos nos traumas que a Segunda Guerra trouxe para toda a humanidade, mas mesmo com esse aspecto despretensioso de conto, o filme ainda possui uma certa urgência e, através de sua cinematografia, consegue transportar todo o caos que Alemanha passou durante a guerra e como as pessoas lidavam com isso enquanto tentavam reconstruir suas vidas.

Como dito anteriormente, a cinematografia é bastante rica em seus detalhes, ela se preocupa em ambientar de forma precisa o sentimento do pós guerra, com ruas e casas destruídas. O figurino e a paleta de cores da fotografia servem para compor a sensação de depressão em que o país se encontrava, as cores frias nos remetem ao que o filme possui de mais real, que são as reconstituições de época quanto cenários e também quanto sentimentos.

Mas essa frieza da cinematografia é quebrada pela personalidade do protagonista do filme, que é bastante irreverente e se mostra, mesmo como um personagem dúbio a princípio, bastante cativante, isso graças ao seu ar descontraído e pela atuação de Moritz Bleibtreu, que se revela canastrona na medida certa, ao mesmo tempo em que é misterioso e também bastante companheiro.

O primeiro ato estabelece muito bem a relação entre os personagens principais, são judeus que se ajudam e que permaneceram na Alemanha por algum motivo e se vêem obrigados a aplicarem alguns golpes de vendas para sobreviverem e conseguirem dinheiro o suficiente para poder sair do país. Mas, tal fluidez é quebrada quando o filme recebe um outro conflito, que inicialmente se mostra como uma outra camada do principal conflito do protagonista, pois o personagem começa a ser investigado e dar depoimentos para esclarecer algumas situações desencontradas do período em que o mesmo estava em um campo de concentração.

Quando tal camada é inserida, a obra perde um pouco seu ritmo e demora a engrenar com essa nova súbita proposta, mas que, após um certo desenvolvimento, se mostra promissor, dando ao filme mais uma metáfora sobre a sua proposta e, ao mesmo tempo, perdendo o seu sentimento de urgência que o primeiro ato havia construído.

Nos momentos de depoimentos de David, que possuem um ar de mistério sobre suas verdades, o filme recebe uma nova cinematografia, com uma fotografia bem mais reconfortante, que não demonstra de forma alguma o peso da guerra. Claro que a opção de ambientar uma história lúdica é visível, mas mesmo dentro desse paradigma estabelecido pela narrativa, não há sequer grandes contrapontos que vão a fundo no que o período representa, ainda mais com um protagonista judeu e sobrevivente do holocausto.

Para deixar a trama mais esquemática ainda, a trilha sonora se mostra maniqueísta, pontuando o filme sempre nos momentos de virada, mas não de forma orgânica, deixando claro a intenção de se tirar sentimentos através de recursos preguiçosos. Assim como o roteiro, que caminha entre altos e baixos, no qual insere um drama bastante denso no arco de um personagem coadjuvante, que acaba levando-o a consequências extremas. Apesar do filme ser baseado numa história real, fica claro que tal inserção dramática na trama o destoa completamente da leveza que, apesar de tudo, estava tentando ser construída. E os pontos fortes que obra nos apresentava até então estava em suas nuances, como, mesmo após o fim da guerra, o sentimento de perseguição ao judeus ainda existia, mesmo que de forma subjetiva, vide o incansável interrogatório que David acaba passando.

O humor de David se mostra como uma forma de fuga e também de sobrevivência, meio aos conflitos do período, mas, o que inicialmente se mostrava como uma proposta corajosa, se revela como uma narrativa que fica aquém de sua coragem. Pode-se dizer que “Bye Bye Alemanha” é um filme leve de se assistir, mas que não funciona como humor propriamente dito, as situações reimaginadas na obra parecem servir em função a um roteiro que quer transgredir o conceito de filmes sobre judeus e o holocausto, mas que ainda assim sabe que está tratando de algo espinhoso e se contém o máximo que pode. Tanto que, ele procura um desfecho romântico, que, ao que foi construído até então, se mostra forçado.

Mas, mesmo com seus problemas narrativos, “Bye Bye Alemanha” se revela como um filme que possui simbologias fortes, tal como o poder de contar histórias, onde, na maioria das vezes, é absorvido com uma boa fluidez, integrando a personalidade de seu protagonista em sua narrativa fragmentada. Pena que, após o segundo ato, o filme deixa o lado real dos personagens cair no artificial, se perdendo entre o imaginável e o palpável.

Título Original: Es war einmal in Deutschland…
Direção: Sam Garbarski
Roteiro: Michel Bergmann, Sam Garbarski
Elenco: Moritz Bleibtreu, Antje Traue, Tim Seyfi, Mark Ivanir, Anatole Taubman, Hans Löw, Pál Mácsai, Václav Jakoubek, Jeanne Werner
Produção: Roshanak Behesht Nedjad
País: Alemanha
Ano: 2017
Duração: 102 minutos
Estreia: 24/8/2017
Distribuidora: Mares Filmes