Entrou em cartaz nesta semana, nos cinemas brasileiros, o filme “Comboio de Sal e Açúcar” (2016), do premiado escritor e cineasta Licínio Azevedo.

O nosso colunista Paulo Gomes teve a oportunidade de conversar com Licínio sobre os temas que o seu filme aborda e também sobre questões políticas atuais.

Comboio de Sal e Açúcar” é baseado no livro homônimo do diretor. O filme se passa em Moçambique, em plena guerra civil, onde um trem, que liga Nampula (província do Norte de Moçambique junto ao oceano Indico) ao Malawi, atravessa uma perigosa zona de guerra. Esta viagem é a única esperança para centenas de pessoas dispostas a arriscar a própria vida numa viagem para garantir sua subsistência, indo trocar sal por açúcar no país vizinho. Trafegando por trechos da linha de trem completamente sabotados, a jovem enfermeira Rosa, que está a caminho de um hospital onde irá trabalhar, conhece o Tenente Taiar, que tem como missão conduzir todos a salvo. Uma estória de amor em tempos de guerra a bordo de um comboio de mercadorias, que leva além de pessoas, sonhos.

Confira a entrevista logo abaixo:

O filme é muito impactante, você consegue tratar de questões muito sérias de uma forma bastante poética. Como foi para você o ponto de partida para a concepção de “Comboio de Sal e Açúcar”?

Eu fui pra Moçambique há quarenta anos, fui como jornalista. E eu vivia no Brasil na época da ditadura militar, então não podíamos publicar reportagens e notícias sobre os desenvolvimentos das guerras nas colônias africanas, era proibido pela censura. Mas nós recebíamos telex e assim eu acompanhava a situação, foi quando conheci os líderes africanos que lutavam pela independência, como Agostinho Neto, Samora Machel e Amílcar Cabral. E quando a guerra acabou eu resolvi, como jornalista, conhecer esses lugares. Fui primeiro para Guiné-Bissau, onde escrevi um livro sobre histórias da guerra.

Conto isso, pois foi através desse livro que me convidaram para ir à Moçambique para participar da formação do Instituto Nacional de Cinema, escrevendo histórias para serem utilizadas por cineastas moçambicanos. E dez anos depois comecei a dirigir filmes, realizando documentários. Toda a minha relação com o cinema está ligada ao documentário e ao jornalismo. Eu fiz mais de trinta documentários e acompanhei todo o período da guerra.

Durante a guerra Moçambique era um grande produtor de açúcar e foi tudo destruído. E as mulheres do norte do país descobriram uma maneira de sustentar suas famílias, compravam sal no litoral e atravessavam o país no meio da guerra. Eu ouvi falar dessa história e na época pensei em fazer um documentário, isso nos anos de 1980.

Não consegui financiamento, porque em Moçambique não havia dinheiro para se fazer cinema e os financiadores eram europeus. A guerra acabou e não consegui realizar o filme. E como eu acredito que o documentário é uma coisa sobre o momento, aquilo já era passado no princípio dos anos 1990. Mas como queria recuperar essa história, fui sozinho e entrevistei várias pessoas que viajavam durante a guerra e os trabalhadores ferroviários. No fim, escrevi um livro, um romance que foi publicado em Moçambique, na África do Sul…

Somente depois de quase vinte anos, após realizar outros longas-metragens de ficção, pensei que poderia adaptar o meu livro. E o que no início era um documentário, tornou-se um livro e depois transformou-se neste filme.

Enxergar as coisas pela ótica feminina, a questão da mitologia, o fascínio pelo religioso e a conexão do povo com a terra é muito rico dentro do país. E, justamente por essa perspectiva, você atribui a qualidade do cinema moçambicano a essa abordagem por ser mais próximo do cotidiano das mulheres?

Do cotidiano em si, na verdade.

Moçambique teve um grande momento do cinema, que era considerado um grande exemplo do cinema revolucionário, logo depois da independência. Foram para lá cineastas famosos do mundo inteiro, como Ruy Guerra, que voltou às suas origens, Godard, Jean Rouch e dezenas de outros. E a opção era o documentário, então Moçambique se tornou um exemplo de produção de documentários.

Toda a produção moçambicana, mesmo quando se faz ficção, é muito relacionada a realidade e também por um lado mágico dos livros do Mia Couto. Eu costumo dizer que se tu não acreditas que um feiticeiro consegue montar num hipopótamo e atravessar um rio, você não pode fazer filmes em Moçambique, você tem que acreditar por um lado. Tem que trabalhar a realidade, mas por um outro lado acreditar nessa realidade mágica.

E a mulher tem um papel preponderante, grande parte dos meus documentários, ou quase todos eles, a mulher é personagem principal. Porque na África a mulher tem uma participação fundamental na economia da família, pois a mulher trabalha no campo, cuida das crianças e prepara a casa, enquanto o homem vai caçar ou pescar. Mas todo o sustento da família acaba caindo nas costas da mulher africana.

Você como uma pessoa experiente, de vivência de conflitos e, como mesmo mencionou, que teve um contato direto com a ditadura militar, como enxerga esse movimento retrógrado de pessoas que evocam a ditadura no Brasil?

Eu acompanho pouco a situação no Brasil. Mas eu acho que o lugar dos militares é nos quartéis. Quando há uma intervenção externa, aí sim é o papel do militar se envolver. Acho que é um grande erro envolver os militares nas questões políticas do país. Falo isso também porque fui aluno de colégio militar, onde estudei dos 9 aos 12 anos. E a minha família, por parte da minha mãe, tem muitos militares.

Em sua opinião, existe algum meio significativo de como um jovem pode fazer um filme? Existe algum ponto de partida?

Posso me referir ao problema em Moçambique. É que nós estivemos naquele período revolucionário exemplar, logo após a independência, que mesmo sem haver escolas de cinema, fomos formados na prática. Atualmente os jovens têm um grande problema, não há uma formação ou uma escola de cinema, essa é a grande dificuldade. Nós temos a Associação Moçambicana de Cineastas, a MOCINE, que críamos há vinte anos, na qual procuramos incentivar ao máximo os jovens a fazerem filmes e damos pequenos cursos de formação, dentro das nossas possibilidades.

Nesse momento há um pequeno grupo de jovens que fazem documentários, mas não há recursos e eles não têm condições de procurar dinheiro fora como eu tenho. Então há uma grande dificuldade de começar, mesmo que se houvesse uma boa escola de cinema em Moçambique do que adiantaria, já que não há fundos no país, o jovem sai da escola e vai fazer o quê?

Paulo Gomes e Licínio Azevedo; maio de 2018.


Comboio de Sal e Açúcar” segue em cartaz nas salas de cinemas do Brasil.