Alejandro Jodorowsky, o cultuado cineasta, escritor, ator e psicomago, lançou recentemente o seu mais recente filme: “Poesia Sem Fim” (2016), que está encantando os cinemas de todo o mundo, inclusive no Brasil.

A força de sua obra se estende através de sua visão única acerca do mundo, na qual ele se debruça espiritualmente no seu ato de fazer arte. Abaixo segue uma lista com onze lições, onde o próprio Jodorowsky fala como se pode fazer cinema. São lições claramente voltadas à psicomagia, que possui um aspecto muito mais intuitivo do que técnico.

I. Primeira Lição

Sentar-se do amanhecer ao anoitecer na frente de uma árvore sentindo a luz. Voltar por sete dias seguidos e fazer o mesmo.

II. Segunda Lição

Voltar à meia noite com uma lanterna e iluminar a árvore por infinitos pontos distintos.

III. Terceira Lição

Colocar-se a um quilômetro da árvore. Olhar para ela fixamente e avançar centímetro por centímetro em direção a ela até que, depois de algumas horas, se choque o tronco com o nariz. (As duas primeiras lições servem para desenvolver o sentido da luz. A terceira para desenvolver o sentido da distância.)

IV. Quarta Lição

Colocar-se em um interior ou paisagem e mover-se pensando que o seu peito fotografa, depois, pensando que a sua cara fotografa, depois o sexo, depois as mãos.

V. Quinta Lição

Coloque-se em um lugar e sinta que você é o centro dele. Logo sinta que está sempre na superfície ao redor do lugar. Ao final rompa a ideia de centro e superfície. Está aí, tudo está em você e fora de você ao mesmo tempo. Você é a parte do lugar. Existe o lugar. Você desapareceu!

VI. Sexta Lição

Procurar a cor que não tem cor. Pegue uma página branca e veja suas cores. Pegue uma página preta e veja suas cores. Veja as cores de um vidro transparente. Descubra o arco-íris em um pedaço de terra, em um cuspe, em uma folha seca. Expresse a cor com materiais sem cor. Na verdade lhe pergunto, você sabe quantas cores tem a pele da sua cara?

VII. Sétima Lição

Sinta as pontas dos seus dedos como se fossem a ponta da sua língua. Apoie as pontas dos dedos nos objetos do mundo pensando que são frágeis, que uma pequena pressão pode quebrá-los. Peça-lhes permissão antes de tocá-los. Antes de apoiar os dedos na sua superfície, sinta como penetra na sua atmosfera. Aprenda a como sentir e a acariciar com respeito. Qualquer ação que faça no mundo com as suas mãos ou corpo pode ser uma carícia.

VIII. Oitava Lição

Pense que os atores vivem dentro de um corpo como um centro de uma caverna. Peça-lhes que não gritem com a sua boca, e sim dentro da sua boca. Que não se expressem com a cara, e sim com vibrações. Vivo debaixo da superfície. A superfície do rio não se move, mas você sabe que leva correntes profundas.

IX. Nona Lição

Não importam os movimentos da câmera. Ela deve mover-se somente quando não puder ficar quieta. Você leva o alimento na mão. A câmera é um cão. Faça que ela siga o alimento com fome. A fome faz com que o animal se apague. Não há cão, há fome, não há câmera. Há acontecimentos. Você nunca pode comer a maçã inteira no mesmo instante. Tem que dar mordiscadas. Enquanto come você tem uma parte. Deve saber que o pedaço que mastiga não é a maçã inteira. Você nunca ode ter a maçã inteira na boca porque por maior que seja a sua boca, não pode caber nela o fruto que é da árvore nem a árvore que é parte da terra. A tela é a sua boca. Ali entram pedaços. Partes do acidente. Não tente trabalhar com planos absolutos. Não creia que existe o plano melhor. Se pode morder a maçã em qualquer lugar. Se a maçã é doce, não importa onde você comece a comê-la. Preocupe-se com a maçã, não com a sua boca. Cineasta! Antologia de fragmentos, você também é um fragmento, seu filme incluso, você é parte, é continuação. Não há encerramentos. Mate a palavra fim. Você começará um filme o dia em que se der conta que você simplesmente continua. Não procure o prestígio. Desdenhe os efeitos. Não adorne. Não pense o que a imagem vai produzir. Não a procure. Receba as imagens. A caça está proibida. A pesca permitida.

X. Décima Lição

Nunca trabalhe no papel seus movimentos de câmera. Chegue aos lugares pensando que você irá mover a câmera, que não iluminar, que não irá inventar. Não crie cenas, crie acidentes em direção à câmera. Você não está fazendo um filme, você está metido em um acidente. Parte do acidente são seus movimentos de câmera.

XI. Décima Primeira Lição

E, de repente, o grande prazer. Um plano pensado com a câmera opinando com luz artificial, com “Atuações” (uma verdadeira sobremesa!).

De verdade lhe digo, por este caminho você pode chegar a fazer filmes de Hollywood dos anos 40. Se você quer ser um grande cineasta de vanguarda, volte a filmar “E o Vento Levou” exatamente igual, com atores de corpos gêmeos aos de Clarck Gable e Vivian Leigh. Se conseguir que seu filme não ossa ser distinguido do original, você passou à história.

* Texto retirado do catálogo da Mostra Jodorowsky, realizada no Brasil no ano de 2007.