Filmes são frutos de seu tempo, de alguma forma ou outra o cinema revela o momento social e político vivido em determinado lugar, criando assim um registro histórico que ficará para posterioridade. E há muito disso em “Corpo Elétrico” (2017), filme dirigido por Marcelo Caetano, que também escreveu o roteiro juntamente com Gabriel Domingues e que contou com a colaboração de Hilton Lacerda.

Em “Corpo Elétrico” acompanhamos a vida de Elias (Kelner Macêdo), um rapaz vindo do interior e que trabalha em uma confecção feminina na cidade de São Paulo. Ele é assistente da estilista Diana (Dani Nefussi), mas seu grande sonho é ter uma marca própria em que possa expressar seus desejos. Ele cria laços com várias pessoas ao seu redor e juntos buscam encontrar o seu lugar no mundo.

Corpo Elétrico” é claramente um filme de camadas, ele usa da trajetória de seu protagonista para pontuar vários aspectos, que de modos diferentes mostram um regime de opressão velada, seja pelo capital, através da exploração da mão de obra, ou seja pela questão de gênero. Mas, embora possa parecer, o filme não cai num discurso panfletário, muito menos num discurso didático, ele sabiamente expõe situações cotidianas e assim vamos as absorvendo.

O primeiro plano do filme já invoca todo o seu poder visual, que se estende por toda a projeção. Os corpos nus nas cenas de sexo são essenciais para o seu discurso, que são filmados em primeiro plano, para que o espectador também se perca naquele universo onde os personagens estão inseridos. Há um misto de erotismo, com entrega, sentimentos e companheirismo que remetem ao filme “Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda, embora a diferença entre eles seja o modo de amar de Elias, que é super intenso.

Aliás, há aqui dois universos distintos para Elias, um de romances, sexo e festas, e o outro é o profissional, que embora sejam sim distintos, possuem suas semelhanças. E isso se deve muito a montagem do filme, que estabelece cortes inteligentes que subvertem a cena anterior, e isso é crucial para o andamento da narrativa, que é construída em cima de uma ironia sagaz e elegante.

A fotografia do filme extrai muito bem o que a cena pede, como por exemplo os planos conjunto usados na fábrica, que são compostas por uma profundidade de campo ampla, que resulta num olhar documental, onde, estaticamente, vemos a classe trabalhadora na fábrica de costura. A escolha por usar uma profundidade de campo onde podemos enxergar ao longe, nos dá uma clareza do perfil das pessoas que trabalham naquele ambiente, embora sejam de diferentes etnias, percebe-se claramente o mesmo modo que o corpo trabalha, assemelhando-se a robôs que existem para produzir. Agora, quando a fotografia do filme reduz seu campo e se foca em um personagem, claramente ele quer evidenciar os seus respectivos sentimentos naquele momento, e novamente o corpo fala por si, sem a necessidade de palavras.

O som do filme também é bastante funcional, principalmente quando somos inseridos no interior da fábrica, com barulhos das máquinas que atrapalham a comunicação entre os companheiros de trabalho, e nisso voltamos novamente ao forte simbolismo do filme: o corpo como comunicação.

Além de servir com um signo no filme, o corpo também serve como resistência política, assim como a maioria dos personagens que são arquétipos de uma classe. Se o filme se mostra muito afetuoso nas cenas de sexo de Elias, ele também se revela como uma denúncia e coloca todos, independente da orientação sexual, num mesmo regime. São funcionários que precisam fazer longas horas extras, são funcionários que precisam trabalhar durante as festas de fim de ano e são funcionários que possuem uma relação estreita com os patrões, mas que acabam se revelando ainda assim opressoras. E nesse sentido, o filme só cresce.

O grande trunfo do roteiro é, ao mesmo tempo em que abraça a característica de uma história fragmentada, ele aprofunda seus personagens que surgem entre esse fragmentos. Apesar de existirem muitos personagens que passam pela vida de Elias, todos possuem suas características claras, deixando aquele universo o mais palpável possível. Há um cena maravilhosa, por exemplo, onde em um longo plano, o cineasta Marcelo Caetano passeia pelos conflitos de cada trabalhador ao saírem da fábrica. A câmera entrelaça cada núcleo, onde fica claro os anseios de cada um, mostrando a pluralidade daqueles trabalhadores, deixando o filme ainda mais rico.

Continuando na pluralidade das personalidades de seus personagens, o filme ainda introduz um núcleo que exala representatividade, e que são apresentadas de uma forma pouco vista no cinema nacional. O olhar do filme, quase documental, nos joga dentro de conversas íntimas, momentos afetivos e de espetáculos. Artistas como a MC Linn da Quebrada estão no filme como um reflexo da força da obra, que além de dar espaços para essas artistas que permanecem geralmente à margem, também as humaniza e as apresenta para o grande público, tornando-se assim porta voz de um grupo socialmente excluído.

E, se tratando de músicas, o filme usa bastante de sons diegéticos para compor os ambientes de relações, como por exemplo na cena de confraternização de fim de ano entre os funcionários da fábrica, onde eles escutam funk e cantam pagode, mostrando o que de fato é a música popular brasileira de hoje, criando uma nova lógica para esses estilos musicais e colocando o verdadeiro Brasil na tela, o Brasil de trabalhadoras e trabalhadores.

A cena final de “Corpo Elétrico” é libertadora no seu sentido mais literal e ela só funciona, com todo o seu poder visual, porque a montagem a preparou desde começo. O final foi pensado cuidadosamente e o resultado não poderia ser mais catártico, o poder da imagem nos revela um otimismo em relação ao futuro de seus personagens e um otimismo em relação ao futuro de nossa sociedade. Chega a ser inspirador.

Corpo Elétrico” é um filme que surge num período político e social onde se é necessário criar voz e lutar, e é isso que os personagens dessa trama fazem, eles lutam para alcançar seu espaço e realizarem seus sonhos, mesmo cruzando caminhos difíceis. As ações aqui são políticas, mesmo que inconscientes em alguns momentos, e o corpo fala muito mais do que as palavras.

*Filme assistido na abertura da 12° edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo

Título Original: Corpo Elétrico
Direção
: Marcelo Caetano
Roteiro: Marcelo Caetano, Gabriel Domingues, Hilton Lacerda
Elenco: Kelner Macêdo, Lucas Andrade, Welket Bungué, Ronaldo Serruya, Ana Flavia Cavalcanti, Linn da Quebrada, Márcia Pantera, Henrique Zanoni, Nash Laila, Georgina Castro, Evandro Cavalcante, Emerson Ferreira e Ernani Sanchez.
Fotografia: Andrea Capella
Produção: Beto Tibiriçá, Marcelo Caetano
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 94 minutos
Estreia: 17/8/2017
Distribuidora: Vitrine Filmes