414_box_348x490É notório que se espere velocidade e dinamismo em um filme que narra a história de uma corrida de carros, onde pessoas praticamente cruzam o país pelas estradas dos Estados Unidos, mas não é isso que o filme “Corrida sem Fim” (1971) propõe e você acaba descobrindo isso ao decorrer da trama, que apesar de parecer simplória, é repleta de enigmas.

O filme do diretor Monte Hellman narra uma história de dois rapazes que apostam uma corrida até Washington com um desconhecido – eles com o emblemático carro Chevy 55 e o outro com um Two-lane Blacktop (o nome original do filme), e entre eles uma garota que acompanha os dois lados da competição, ora no Chevy 55 e ora no Two-lane Blacktop amarelo. No fim da jornada, quem chegar primeiro ao destino ficará com os dois carros como prêmio. É em cima desse enredo que o filme se desenrola, mas como disse anteriormente, de uma forma não convencional para um road movie.

Os personagens que Hellman nos mostra são arquétipos de um existencialismo que carrega o filme, os personagens não apresentam nomes, suas ações são muitas vezes mecânicas e o silêncio da estrada é o ponto comum entre eles. Nos moldes dos filmes de Robert Bresson, os fatos acontecem em constante repetição, não chegando ao clímax esperado, os tantos rachas, os furtos, as paradas em postos de gasolinas e a própria corrida que conduz o filme, chega a ser tão mecânica quantos seus carros, carros esses que falam por seus personagens e que estão ali para justificarem quase todas as ações.

Mas de forma alguma o filme fica sem identidade, apesar de personagens frios, eles carregam consigo toda uma filosofia da contracultura americana dos anos 1960, seja pelas músicas, as roupas, e principalmente pelo espírito livre e marginal. O filme é quase um retrato documental daquele período, onde a cultura hippie era muito presente entre os jovens, que buscavam novos valores e uma posição libertária na sociedade (voltada contra os velhos costumes conservadores).

No fim, o destino da corrida fica em segundo plano, pois Hellman nos propõe um estudo de seus personagens, que variam em suas emoções ao decorrer da viagem. Um exemplo muito claro é a personagem de Laurie Bird, que assim como os protagonistas muda repentinamente seus desejos e seus caminhos, seguindo todo o caminho da corrida entre os dois carros da aposta.

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A direção de Hellman se mostra bem cadenciada, levando o mesmo ritmo até o final. E por ser um filme frio, pode causar espanto, mas embarcar nessa corrida é como viajar no tempo e vivenciar as incertezas dos jovens daquela época, talvez por isso que o filme tenha sobrevivido ao passar dos anos, abocanhando sempre admiradores fiéis.

Chegando ao fim da jornada, percebemos que o filme nos deu o tempo todo indícios de como ele terminaria, fazendo jus ao seu título em português de “Corrida sem Fim”, pois assim como as ações dos personagens que se repetem e não possuem um fim, a corrida também não, ficando evidenciado que apesar de que os protagonistas sejam inconstantes em suas ações, eles possuem uma certeza, que enquanto se perdem entre tantos pensamentos eles irão percorrer infinitas estradas para dar sentido aos seus devaneios.

Corrida sem Fim” é um filme excepcional, um retrato de uma geração, um road movie como nenhum outro, é cru, embora poético, à sua maneira. Embarcar nessa jornada é mais do que compactuar com a corrida dos personagens, é compactuar também com as incertezas de onde o filme ou a estrada nos levará.