Eis que Laís Bodanzky volta com mais um filme tematicamente contemporâneo, através de um olhar atento e com uma narrativa muito bem conduzida, mostrando que é uma cineasta atenta ao seu tempo e as suas questões. Após ser exibido no Festival de Berlim desse ano e ter sido o grande premiado do Festival de Gramado, “Como Nossos Pais” (2017) chega aos cinemas para expandir a sua discussão perante ao público.

No filme acompanhamos Rosa (Maria Ribeiro), que quer ser perfeita em todas suas obrigações: como profissional, mãe, filha, esposa e amante. Filha de intelectuais dos anos 70 e mãe de duas meninas pré-adolescentes, ela se vê pressionada pelas duas gerações que exigem que ela seja engajada, moderna e onipresente, uma super mulher sem falhas nem vontades próprias.

O drama familiar de Bodanzky se mostra muito mais arrojado do que possa aparentar. A trama se foca num drama particular da protagonista, para assim expor as várias camadas de um conflito fruto de uma modernidade, que ainda se mostra nebulosa quanto pensamentos, embora possua claros avanços em pautas importantes como feminismo, racismo e gênero.

O grande foco do filme é o lugar que a mulher, com seus 40 e poucos anos, possui na sociedade atual. Claro que, dentro desse conflito há um recorte, e é exatamente sobre esse perfil em específico, que o filme discorre. Onde está situada, socialmente, a mulher que se vê na obrigação de se debruçar em várias etapas do dia a dia? E no caso de Rosa, onde se situa a mulher que carrega o peso de uma família politizada dos anos 1970, de classe média, na qual os pais são separados? E como se dá o seu relacionamento em casa, com seu marido e filhas? E com a sociedade ao redor, como o trabalho? Tudo isso é levantado, alguns temas de forma mais sutil, mas todos com bastante eficiência.

Há uma clara sensação de esmagamento emocional vivido por Rosa, por todos os lado que se possa olhar encontra-se a opressão de uma vida que a todo momento realiza cobranças. E tal sentimento fica claro através da fotografia do filme, que, através de planos conjunto, separam os personagens em cena. A composição do quado por muitas vezes insere uma coluna entre Rosa e seu marido Dado (Paulo Vilhena), para demonstrar o distanciamento entre ambos, assim com as portas entreabertas, que indicam o caminho para a protagonista, mas que ainda assim não está totalmente visível, ou até mesmo as grades das janelas que aprisionam a personagem.

Aos poucos, Rosa vai descobrindo o seu papel e começa a se impor, tomando as rédeas de sua própria vida e de seu caminho. Isso se dá graças a uma revelação que sua mãe Clarice (Clarisse Abujamra) lhe faz. O que, inicialmente, se mostra como ponto de partida para uma verdadeira ruína dentro da estrutura familiar e emocional da personagem, aos poucos se mostra como ponto chave para a sua emancipação. E o arco da protogonista se mostra muito bem elaborado, com claros caminhos a serem percorridos.

A atuação de Maria Ribeiro é magistral, ela dá à personagem todas as nuances das angústias que acabam absorvendo a personagem. A personagem de Rosa é bastante palpável, e isso não é mérito somente do roteiro de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, mas também da entrega de Maria, que nos transmite uma verdade tão própria que cativa. E, ainda referindo-se a atuações, obviamente que Clarisse Abujamra nos chama a atenção, sua personagem, que carrega em si uma áurea misteriosa, é com certeza a personagem de apoio com mais profundidade da trama. A personagem de Clarisse, que sempre aparece em cena de uma forma bastante firme e segura, nos brinda com a cena mais emocionante do filme quando esse arquétipo é quebrado e a personagem é humanizada. Há nessa cena, uma harmonia maravilhosa entre montagem, trilha sonora e a atuação esplêndida de Clarisse, que tira da personagem o tom certo para que a sequência funcione como deveria.

O que acaba destoando do filme são seus diálogos fortes que, na mão da maioria do elenco, não conseguem se sustentar. Paira no ar a sensação de texto decorado em algumas cenas, com frases de efeitos que são jogadas por alguns personagens para evidenciar os tantos conflitos que Rosa enfrenta. Mesmo servindo para pontuar algumas situações, como o discurso pós moderno do amor livre, ou até mesmo os devaneio sobre o amor vindos de Homero (Jorge Mautner), pai de Rosa, o texto perde a força quando apresentado de uma forma mecânica, sem aquela sensação de naturalidade que encontramos em Maria e em Clarisse.

Mas ainda assim, “Como Nossos Pais” possui um discurso forte e bastante atual, a forma como a narrativa nos entrega todos os conflitos da personagem são funcionais e em algumas passagens até sublime. O filme serve como uma crônica da super mulher, e o faz com maestria, desconstruindo toda a personagem que simboliza esse papel, para depois, através de uma jornada de redescoberta, a reconstruir com mais força. No fim, fica a sensação de que Rosa necessita trilhar o caminho do equilíbrio e, assim como seus pais, descobrir o seu espaço na sociedade e o seu espaço dentro de sua própria vida.

Título Original: Como Nossos Pais
Direção: Laís Bodanzky
Roteiro: Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi
Elenco: Maria Ribeiro, Clarisse Abujamra, Paulo Vilhena, Felipe Rocha, Jorge Mautner, Herson Capri, Sophia Valverde, Annalara Prates e Cazé Peçanha
Fotografia: Pedro J. Márquez
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 102 minutos
Estreia: 31/8/2017
Distribuição no Brasil: Imovision