Falar sobre a obra de Stan Brakhage é redescobrir o cinema, é como adentrar num emaranhado de sensações oníricas proporcionadas pelos mais diferentes experimentos cinematográficos.

Brakhage produziu por volta de 400 filmes em sua vasta carreira, dos mais variados formatos e das mais variadas durações, com filmes que chegavam a durar segundos e outros que chegavam a nove horas. Os seus filmes são repletos de experimentalismo, que às vezes se refletiam em viagens narrativas extremamente profundas, como em sua obra mais celebrada “Dog Star Man” (1964).

Mas o filme do Curta de Quarta de hoje é sobre a obra “I… Dreaming” (1988), um filme-espelho, onde Brakhage se filme para talvez, se encontrar e olhar para dentro de si mesmo. O processo criativo desse filme surgiu num contexto de bastante melancolia, onde ele enfrentava a dor da sua separação em relação à sua musa Jane.

O tom de melancolia toma conta da obra, embalado pela própria imagem de Brakhage nu e pela observação de seus netos brincando em casa, tudo isso embalado por uma trilha sonora bastante carregada realizada por Maertling e Foster. Os famoso inserts de Brakhage também estão presentes no filme, os dizeres rabiscados diretamente na película parecem gritar em suas formas distorcidas, são palavras soltas, como cold e dark, que complementam o sentimento deprimido da obra.

Os cortes entre as imagens do corpo nu e velho de Brakhage e de seus netos brincando nos propõe uma reflexão sobre o tempo e sobre a vida, que caminham continuamente para um futuro incerto. O título do filme também reflete sobre esse sentimento de fluidez da vida, onde o sonhador, no caso o próprio cineasta, está se debruçando sobre seu inconsciente e o refletindo em sua vida, em sua rotina e em sua própria melancolia.

I… Dreaming” é uma obra profunda e poética, como era de costume nos filmes de Stan Brakhage, que foi um cineasta que conseguia dizer muito somente através das imagens. Imagens essas que parecem conversar diretamente com o nosso subconsciente, nos mostrando as belezas e as angústias da existência.

Agora, curta o curta!