Jonas Mekas é uma das lendas do cinema underground que ainda é vivo e no fim desse ano completará 95 anos de idade, sua trajetória permeia entre as várias décadas do cinema, seu primeiro filme “Guns of the Trees“, foi lançado em 1961 e desde então segue produzindo.

O cineasta lituano é um ícone do cinema vanguardista, assim como Stan Brakhage, que foi o homenageado da semana passada no Cuta de Quarta, Mekas realiza os mais lindos poemas cinematográficos através do experimentalismo.

O curta escolhido para hoje é a obra “Esse Lado do Paraíso – Fragmentos de uma Biografia Inacabada“, lançado em 1999, embora todo seu material tenha sido gravado entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970. O filme é centrado nos verões que Mekas passou com Jackie Kennedy, que na época sofria com o recente assassinato de John F. Kennedy. A câmera de Mekas possui uma função terapêutica nesse filme, servindo para que Jackie e os filhos lidassem com o luto. O resultado final é revelado já em seu título, pois as imagens são de fato fragmentos de uma biografia inacabada.

As imagens registradas em 35 mm mostram a intimidade de uma família e, tal como outras obras do cineasta, consegue nos encantar com sua beleza narrativa, se é que se dá pra chamá-la de narrativa. A sua montagem frenética, os rápidos movimentos de câmera e a beleza das imagens dão ao documentário um tom experimentalista totalmente único, abandonando qualquer preocupação com a linearidade da obra. Mekas demonstra que consegue tornar o prosaico em algo poético e hipnótico.

Como se não bastasse toda a linguagem fílmica, o filme de Mekas ainda tem um enorme valor histórico, por registrar momentos íntimos de uma família emocionalmente abalada, mas que aqui demonstra lampejos de liberdade. “Esse Lado do Paraíso – Fragmentos de uma Biografia Inacabada” é uma das grandes obras de um cineasta que possui um olhar onírico do cotidiano e que, tais como outros grandes nomes da avant garde, necessita que mergulhemos completamente em seus filmes para assim, nos inundarmos de lirismo.