A cineasta Kathryn Bigelow ganhou notoriedade quando seu filme “Guerra ao Terror” (2008) foi o grande premiado no Oscar de 2009, os méritos pra tal conquista ainda rendem discussões, mas o filme de Kathryn era o que a Academia precisava premiar naquele momento. Desde então a cineasta realiza obras que se focam em grandes conflitos, que por sua vez se refletem nos conflitos internos de seus personagens.

Em “Detroit em Rebelião” (Detroit, 2017), a cineasta volta ao tema que a fascina, com conflitos históricos e que, de alguma forma, marcam a trajetória da história americana, além de expor vários personagens intrigantes, como a própria os define.

O filme se passa em 1967, em Detroit, onde uma revoltante operação policial originou uma revolta popular que durou cinco dias na cidade, deixando um gigantesco número de pessoas mortas e feridas, além de milhares de prédios queimados.

O filme se inicia com uma animação que faz uma rápida contextualização histórica sobre o racismo institucional nos Estados Unidos, o que de antemão já percebemos o que Kathryn quer abordar com sua obra, se propondo a realizar um processo investigativo sobre o racismo no país através de um fato.

A escolha narrativa do filme é bastante funcional, a fotografia de Barry Ackroyd possui um tom quase documental, trazendo uma verdade estética para obra, isso graças a câmera na mão e os planos fechados, além da montagem, que realiza inúmeros cortes entre os planos, que parecem sair de dentro da ação.

A preocupação de Kathryn ao realizar uma obra calcada em fatos é clara, que, como já citado, vai desde a escolha na fotografia, como também nos vários inserts de imagens de arquivo e letreiros que surgem para ambientar as locações e apresentar alguns personagens, o que as vezes pode soar um tanto quanto exagero, tornando o filme burocrático em sua realização.

Outro destaque importante de ressaltar, que também serve para ambientação, é a reconstituição histórica através de sua cinematografia. O filme consegue transportar o espectador para a década de 1960, nos jogando dentro de um bairro periférico culturalmente efervescente, onde a cultura negra se faz presente, principalmente através da música. Os figurinos e algumas locações são bem críveis em suas reconstituições, dando o pano de fundo necessário para a trama se desenrolar.

E, tratando-se de trama, o filme possui uma certa bagunça que o prejudica bastante em alguns momentos, pois o roteiro de Mark Boal, que trabalha com Kathryn desde “Guerra ao Terror“, possui uma estranha estrutura, que acaba se perdendo ao longo da projeção. No primeiro ato, o filme se mostra bastante amplo, contextualizando os fatos e os conflitos ocorridos na cidade, e então abrindo um grande leque de personagens, onde começamos a acompanhá-los por bastante tempo, mesmo sem que eles tenham uma ligação aparente. Isso dá ao filme um sentido de urgência perante a denúncia que a cineasta pretende realizar, na qual ela se foca na cidade e nos mostra como os demais personagens se situavam meio a constante opressão policial.

O problema é que todo esse panorama traçado está a serviço de uma situação em específico, que, embora traduza muito sobre o forte racismo presente nesses cindo dias de conflitos aqui apresentados, não condiz com o que tinha sido apresentado até então. Além do mais, nos dá a impressão de que o filme se estendeu demais para chegar ao seu foco principal, que é a angustiante sequência que se passa no Motel Algiers. O que fica sugerido é que o filme sempre quis fazer esse recorte do conflito em Detroit, mas que ao mesmo tempo não quis abrir mão de tantas outras cenas que a precedem, deixando-o demasiadamente com excessos, o que acaba se reverberando em seu ato final, de uma maneira bastante negativa.

Mas, não se pode negar que a sequência do motel é meticulosamente construída, o que serve para criar a tensão necessária e a clara revolta e o desespero que os personagens estão vivenciando, afinal o abuso de autoridade atrelada ao racismo é tão repugnante que parece que somos jogados dentro de um filme de horror. Claro que, por ser uma sequência longa, a angústia toma conta conta da projeção, cada ato de covardia torna o filme mais incômodo de se assistir, o que se mostra bem eficaz por conta de sua montagem, que deixa as cena dinâmicas. Há também uma sábia escolha de não mostrar mais do que deveria, deixando várias situações somente em sugestões, o que causa um horror e um desconforto maior ainda.

A maioria dos personagens possuem um peso na trama, o que não pode se dizer do personagem Melvin Dismukes (John Boyega), que embora possua um tempo razoável de tela, não mostra a que veio, mesmo sendo um personagem interessante para se trabalhar, afinal, assim como tantos outros em Detroit, precisa de dois empregos, e um deles é servir como segurança de uma loja. A situação dele perante aos acontecimentos no motel era algo a ser explorado com mais profundidade, em conclusão, é um negro em um posição um pouco mais favorecida em relação aos outros, leia-se aqui como possui uma arma e está fardado. Mas suas atitudes se mostram um tanto quanto passivas e, embora ele queira sempre evitar o conflito, o personagem se mostra apático ao longo de todo o filme e no fim, não vemos o seu arco narrativo de uma forma clara, como vemos de alguns.

E como dito anteriormente, o filme possui grandes excessos em sua estrutura narrativa, o que fica claro em seu ato final quando ele começa a se apressar para encontrar suas resoluções. Se até então a obra foi construída meticulosamente, o ato final é totalmente apressado, o que o acaba prejudicando a força temática do filme, pois ele passa por várias situações no mínimo importantes para a trama de uma forma abrupta, tirando todo o senso de urgência do longa até então. O que só acaba reforçando ainda mais que o roteiro de Mark Boal está repleto de elementos que engessam o filme, transitando da amplitude do começo para um recorte de um conflito em específico e depois tentando voltar a sua amplitude temática inicial, perdendo muito da força da obra como um todo.

Detroit em Rebelião” é um filme tematicamente relevante, na qual mostra as várias faces de um racismo institucional que nos assombra até os dia de hoje, mas, tratando-se de estrutura narrativa, ele peca em vários momentos, dando relevância para situações que poderiam passar mais despercebidas e não se aprofundando em tantas outras que mereciam a nossa atenção. Mesmo assim, quando o filme se propõe a expor o racismo, principalmente durante seu segundo ato, ele é excepcional, pois a obra se transforma e ganha bastante força, graças a detalhes técnicos já citados em sua cinematografia, causando repulsa e tensão na mesma proporção. Infelizmente, a vontade de recriar as situações num âmbito geral o prejudica, deixando personagens sem arcos narrativos claros, além das várias pontas soltas que ele deixa ao longo de toda a projeção. Embora o filme esteja recriando fatos, é inegável que estruturalmente ele não é eficiente, pois diferentemente da realidade, a ficção precisa ser coesa.

Título Original: Detroit
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: John Boyega, Will Poulter, Algee Smith, Jacob Latimore, Jason Mitchell, Hannah Murray, Jack Reynor, Kaitlyn Dever, Ben O’Toole, John Krasinski, Anthony Mackie, Nathan Davis Jr., Peyton ‘Alex’ Smith, Malcolm David Kelley, Joseph David-Jones, Laz Alonso, Ephraim Sykes, Leon Thomas III, Gbenga Akinnagbe, Chris Chalk
Fotografia: Barry Ackroyd
Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Matthew Budman, Megan Ellison
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 143 minutos
Estreia: 12/10/2017
Distribuição no Brasil: Imagem Filmes