O cinema de ação já nos rendeu uma série de filmes esquemáticos ao longo das últimas décadas. A fórmula, que parece sempre esgotada, ainda gera inúmeros filmes que nem chegam aos cinemas. Mas, num mar de mesmice, ainda surgem exemplos que se destacam dentro desse gênero, seja por sua narrativa inventiva, ou seja por inserir novos elementos à trama, o que pode ser um ar fresco dentro do mais do mesmo.

Dupla Explosiva” (The Hitman’s Bodyguard, 2017), filme escrito por Tom O’Connor e dirigido por Patrick Hughes, possui alguns elementos que o destaca dos demais filmes ação da atualidade, se revelando como uma grata surpresa dentre as grandes produções lançadas nessa época do ano.

Na trama, nada complexa e bem direta, Michael Bryce (Ryan Reynolds), é um guarda-costas de elite e, após um trabalho mal sucedido, se vê na necessidade de escoltar o assassino Darius Kincaid (Samuel L. Jackson) para assim tentar recuperar o renome em sua carreira. Os dois são velhos rivais do passado e agora precisam, juntos, viajar de Londres para a Holanda, enquanto são perseguidos pelos agentes de um ditador do Leste Europeu, tudo isso em 24 horas.

O mérito de “Dupla Explosiva” se encontra na direção concisa de Patrick Hughes, que sabe onde quer chegar com o filme e o realiza de uma forma bastante despretensiosa, calcando a narrativa no absurdo brincando com as convenções do gênero.

Logo de início, nos créditos iniciais, Hughes usa de uma rápida montagem, repleta de dinamismo, para nos apresentar um dos personagens principais da trama, que no caso é Bryce, realizando meticulosamente o seu trabalho como um excelente guarda-costas. Que é uma cena bem empolgante de se acompanhar por conta de seu ritmo, que serve também para mostrar as principais características de Bryce, com seu lema “o tédio é mais seguro“, além de mostrar a sua rotina de vida, que é completamente subvertida na cena subsequente.

O filme funciona basicamente por sua proposta estranhamente desajustada, isso se dá pelas cenas absurdas de ação, pelo carisma de seus personagens principais e pela montagem extremamente funcional, que aliás serve muito para dar o timing perfeitos das piadas, que nesse caso vão além do texto e se focam nas situações que a montagem acaba criando.

Dentre esses aspectos funcionais do filme, claramente que a interação dos personagens principais é um dos fatores que mais chamam a atenção, pois o contraponto entre as personalidades de Michael e Darius não só funciona nos momentos cômicos, mas também para criar um elo entre os dois, que se dá de uma forma orgânica e totalmente divertida. Tanto Ryan Reynolds quanto Samuel L. Jackson estão bastante confortáveis em seus respectivos papéis, principalmente Jackson, que entrega um personagem irônico e com valores éticos extremamente dúbios. Os dois, de fato, resgatam o espírito dos protagonistas dos clássicos filmes de ação, se complementando e se contrapondo.

As cenas de ação seguem numa crescente por todo o filme, o que acaba por se tornar um problema quando chegamos ao ato final, pois elas começam a soar repetitivas, por mais inventivas que sejam. O que impressiona e que merece destaque é a violência gráfica do filme, pois o sangue é abundante nas mortes, claro que nada comparado a filmes extremos, mas é o suficiente para o espectador sentir o peso de cada morte que o filme mostra. E isso no cinema atual, principalmente dentro desse gênero, é algo a se destacar, já que as cenas de violência não são pasteurizadas. O diretor faz questão de mostrar a violência, não a deixando passar por desapercebido, respingando sangue até mesmo na câmera.

E voltando novamente à montagem, o que é entregue é o que se espera de filmes com essa proposta. O dinamismo que a montagem dá ao filme é o seu grande fôlego, pois, como já citado anteriormente, as situações cômicas são criadas através do corte, deixando as cenas com uma ótima fluidez e, mesmo quando ele começa a se estender além do que devia, a montagem não o deixa perder o ritmo. E é também por conta dessa montagem funcional que o filme vai se resolvendo aos poucos, várias pistas sobre os passados dos personagens vão sendo lançadas durante a narrativa, mas só na metade do segundo ato que se revelam completamente, deixando assim o público instigado para descobrir o que motiva cada personagem.

Claro que a trama se mostra absurda, o que fica claro quando toda ela se resolve no final do filme, essa falta de coesão da premissa do filme poderia ser justificada como um pretexto para as cenas de ação acontecerem, mas o roteiro deixa pontas desencontradas, o que torna o roteiro do filme um bocado problemático. Por exemplo, não sabemos o real motivo da personagem Sonia Kincaid (Salma Hayek) estar presa, mesmo com o filme jogando algumas ideias a respeito sobre isso, sem contar que todo o plano do antagonista de exterminar Darius se mostra totalmente sem lógica, por mais que isso seja o conflito que faz o filme caminhar.

O antagonista, o ditador Vladislav Dukhovich (Gary Oldman), é muito bem apresentado em sua primeira cena, mostrando toda a crueldade que o personagem carrega, o que faz com que o público logo de início crie uma aversão por ele. O personagem se mostra como um típico vilão dos filmes de ação, ainda mais com a áurea de ditador sanguinário que ele possui. Gary Oldman não possui muito espaço em tela para elevar o seu personagem, com exceção do final do terceiro ato em que ele faz um rápido monólogo, o que é clichê dentre esses personagens, mas que com Oldman soa com um pouco mais de força. Vale dizer também que a maquiagem que deixa o personagem com um aspecto mais vilanesco é bastante artificial, deixando-o com aquela clara áurea dos vilões clichês dos filmes de ação.

Dupla Explosiva” possui, infelizmente, um título no Brasil deveras genérico, o que acaba não se reverberando em sua narrativa, embora ele possua sim claros problemas no roteiro, além de se estender mais do que deveria. Porém, esses problemas são compensados pelo seu ar despretensioso, debochado e divertido. Os personagens principais funcionam muito bem e a dinâmica entre eles não poderia se dar de melhor forma, tudo isso graças ao carisma dos atores e as fortes personalidades que os personagens carregam. Mas o que segura o filme de fato é a sua inteligente montagem, que o deixa dinâmico e que constrói ótimas cenas cômicas. Esse é um filme que, em suma, cumpre com sua proposta e se mostra como uma boa surpresa dentre a nova safra de filmes de ação e, mesmo com seus problemas, ainda merece o destaque.

Título Original: The Hitman’s Bodyguard
Direção
: Patrick Hughes
Roteiro: Tom O’Connor
Elenco: Ryan Reynolds, Samuel L. Jackson, Gary Oldman, Salma Hayek
Fotografia: Jules O’Loughlin
Produção: Les Weldon
País: E.U.A.
Ano: 2017
Duração: 118 minutos
Estreia: 31/8/2017
Distribuidora: Califórnia Filmes