Chegamos ao segundo dia do É Tudo Verdade 2018 – 23° Festival Internacional de Documentários, que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro de 12 a 23 de abril.

Hoje assistimos a mais três filmes, todos com um forte aspecto político e que, apesar de tratarem de diferentes temas, refletem-se num espírito de emancipação e de clamor pela justiça.

O primeiro filme do dia foi “Quando as Montanhas Tremem” (1983), da documentarista Pamela Yates, que está sendo homenageada no festival com a exibição de sua Trilogia Guatemalteca pela primeira vez integralmente no Brasil. Pamela apresentou o filme para o público e, após a sessão, voltou para responder algumas perguntas. A força do filme refletiu-se no debate, com apontamentos lúcidos sobre a atual conjuntura brasileira e revelações interessantes por parte da cineasta sobre a produção do documentário.

O segundo longa do dia foi “Amarra Seu Arado a Uma Estrela” (2017), filme argentino dirigido por Carmen Guarini. O filme já havia sido exibo anteriormente na coletiva de imprensa do É Tudo Verdade, onde, na ocasião, anunciaram os filmes selecionados.

E o momento mais marcante do dia foi, sem dúvidas, a sessão de “Auto de Resistência” (2018), de Natasha Neri e Lula Carvalho. O documentário, que aborda com muita seriedade sobre a insegurança no Rio de Janeiro e o extermínio da população periférica, foi apresentado pelo curador Amir Labaki, que chamou ao palco os realizadores, que também chamaram para apresentção o coletivo Mães de Maio, que protagonizam uma luta diária por justiça que fora retratada no filme. O clima da sessão foi intenso, as falas, tanto dos realizadores, quanto do coletivo Mães de Maio, foram extremamente pertinentes, o que reverberou durante a projeção, que foi acompanhada de gritos inconformados do público. Ao final da sessão, durante aplausos que duraram minutos, ouviu-se gritos de Marielle presente, seguidos de nomes de pessoas assassinadas por policiais.

Leia abaixo as rápidas impressões sobre os filmes do segundo dia do É Tudo Verdade 2018.

Quando as Montanhas Tremem

 

When the Mountains Tremble (1983), de Pamela Yates e Newton Thomas Sigel
E.U.A. / 83′

O primeiro longa de Pamela Yates surgiu na necessidade de investigar o papel dos E.U.A. no golpe de estado que ocorreu na Guatemala na década de 1950, e o que se revela à tela, para além disso, é assustador.

O documentário se inicia com uma inteligente sobreposição de imagens, que mesclam os rostos dos indígenas com o exército em marcha, mostrando que, mesmo sendo um mesmo povo, a divisão naquele momento estava clara. O filme, também sabiamente, é narrado por uma índia que tivera seus familiares assassinatos pelo regime, a dor em sua fala é estendida por todos os humildes trabalhadores, que contam histórias de extermínios.

Uma das grandes forças do filme é o registro do ‘agora‘, pois trata-se de um documentário que fala sobre o período em que foi filmado, com um olhar de dentro da história. E esse olhar é bastante cuidadoso, ele dá voz a várias pessoas ligadas a luta popular, e mostra também como com uma propagando anti-comunista extremamente falaciosa vinda dos E.U.A. instaurou um regime de opressão que assassinou centena de milhares de pessoas. O discurso de pessoas ligadas ao exército é esquizofrênico e infelizmente atual, o ódio ao povo é fantasiado numa luta contra o comunismo.

O filme vai fundo em sua investigação, colhendo depoimentos dos próprios militares, que em alguns momentos revelam que não sabem o que estão fazendo ao perseguir a população. Ao passo que o documentário possui um caráter de denuncia, ele também enaltece a cultura popular da Guatemala, registrando com muita sensibilidade rituais populares e costumes que corriam o risco de serem apagados da história do país por conta da perseguição política.

Quando as Montanhas Tremem” é um filme poderoso e serviu como um ponta pé inicial de uma importante denúncia que iria resultar em fatos que são mostrados nos filmes posteriores da trilogia, que são “Granito” (2011) e “500 Anos” (2017).

Amarra Seu Arado a Uma Estrela

Ata Tu Arado a Una Estrella (2017), de Carmen Guarini
Argentina / 80′

O documentário de Carmen Guarini possui um olhar bastante sensível, tanto ao retratar o documentarista Fernando Birri (1925-2017), quanto ao retratar o tema do filme, que reflete sobre a memória. O filme resgata imagens de Birri em 1997, quando voltou para a Argentina 30 anos após a morte de Che Guevara para realizar um projeto sobre a utopia e a memória de Che.

O filme de Guarini não se baseia somente nas imagens de arquivo dos registros de Birri, que por sinal são incrivelmente íntimas e reflexivas, o documentário vai além disso e resgata a figura do documentarista duas décadas após os registros em 1997. Mostrando um Birri ainda bastante lúcido e reflexivo acerca de seus ideais.

E o filme ainda nos permite deslumbrar o que foi provavelmente as últimas filmagens de Birri, numa pequena câmera GoPro entregue por Guarini. E assim acompanhamos a rotina de uma importante figura para o cinema latino americano, que deixou seu marco na elaboração de um novo cinema popular e que sempre será lembrado por suas contribuições no documentário. É um filme honesto, intimista, emocional e reflexivo.

Auto de Resistência

Auto de Resistência (2018), de Natasha Neri e Lula Carvalho
Brasil / 104′

Ao final da sessão de “Auto de Resistência” fiquei me perguntado qual seria o papel da crítica perante um filme tão urgente tematicamente, o que falar sobre uma obra que surge num momento tão necessário? Ainda não possuo essa resposta, assim como ainda me encontro atônito após quase 12 horas que a projeção se encerrou. Enfim, tentarei ser lúcido.

O filme parte de acompanhamentos de casos, que se assemelham aos milhares dos últimos anos, de homicídios praticados pela polícia contra a população periférica no Rio de Janeiro, em situações que são sempre levantadas como auto defesa. O filme coloca em xeque a atuação da polícia e evidencia, de forma nítida, o racismo estrutural que estamos afundados. Com registros caseiros de celular, acompanhamos casos de jovens que foram assassinados e que são taxados de traficantes por uma polícia corrupta e despreparada.

O documentário possui uma força que é carregada pelo seu tema, mas que também se reflete na hábil fotografia que enquadra o necessário para mostrar imagens de dor e sofrimento, são usados muitos planos detalhes em mãos e rostos, nos aproximando das vítimas e estabelecendo o tom de angústia da obra.

A linha narrativa do filme é segura e eficiente, não poupando de expor os lados antagônicos do conflito, o que reflete em revolta por parte do espectador que assiste inúmeras injustiças na tela sem ao menos conseguir fazer algo. A escolha por mostrar imagens caseiras da polícia executando jovens choca, e a princípio me questionei sobre a inserção de cenas tão brutais e revoltantes no filme, mas o que acaba fazendo parte de sua proposta de denúncia, com exceção de uma cena em específico que é mostrada duas vezes, que soa sem finalidade narrativa.

Mas é inegável o peso que o filme carrega e o sentimento de impunidade que percorre por toda a obra. Esperamos que “Auto de Resistência” ganhe um papel importante quanto instrumento social extra-filme, que seja uma obra que as pessoas possam absorver sem máscaras e que vá de encontro com um pensamento retrógrado que pede té mesmo o fim dos direitos humanos. Este é um filme que vai além de sua parte técnica e discussões sobre planos e roteiro, embora seja extremamente necessário para que o documentário se torne coeso, mas o que salta aos olhos é uma obra urgente e que precisa ser assistida, por mais cruel que possa ser, afinal a realidade das pessoas retratadas aqui é cruel, e isso não é uma ficção.

Auto de Resistência” irá ganhar distribuição e quando estrear eu o abordarei mais profundamente, por ora não posso escrever mais, qualquer palavra que coloque aqui não terá força suficiente para demonstrar o impacto que o filme possui.