Hoje (12), começamos a nossa cobertura do É Tudo Verdade 2018 – 23° Festival Internacional de Documentários, que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro de 12 a 23 de abril, com uma ótima seleção de documentários do mundo todo.

No primeiro dia assistimos a quatro filmes, sendo dois deles da Competição Internacional, que são “A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História” e “O Distante Latido dos Cães“; e um filme da Competição Brasileira – Longas, que foi “Missão 115“, do documentarista Silvio Da-Rin. E, por fim, e não menos importante, também assistimos o filme que abriu o É Tudo Verdade em São Paulo, o documentário “Adoniran – Meu Nome é João Rubinato“.

Abaixo seguem os textos dos respectivos filmes assistidos nesse primeiro dia de festival. E não deixem de acompanhar também a nossa cobertura através do Twitter, Instagram e Facebook.

Bom festival à todo(a)s!

A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História

La Bataille d`Alger, Un Film Dans l`Histoire (2017), de Malek Bensmaïl
Argélia, França, Suíça / 117′ 

A Batalha de Argel, Um Filme Dentro da História” recupera a história de um dos filmes mais importantes da década de 1960, que foi dirigido pelo cineasta italiano Gillo Pontecorvo e abraçado pelo povo oprimido pelo colonialismo.

O filme possui uma linha cronológica muito bem definida, ele inicia com imagens de arquivo da premiação do Festival de Veneza de 1966, no qual “A Batalha de Argel” angariou o Leão de Ouro de Melhor Filme. E, a partir dessa premiação, o filme salta no tempo para contar histórias da produção e também da repercussão que se deu após a noite em Veneza, que foi um marco para a trajetória política da obra.

O documentarista Malek Bensmaïl visita as locações e entrevista personagens, mesclando a já intrínseca história entre a produção do clássico filme e a história política da Argélia. Fortes momentos são rememorados, ao mesmo tempo em que os personagens relembram o processo de produção do filme, ficando nítido o que essas memórias carregam em si. Todo o resgate que o filme faz é, além de tudo, um processo de reviver a história.

O documentário ganha uma força política ainda mais ampla quando nos é mostrado como “A Batalha de Argel” reverberou pelo mundo, tornando-se um filme ícone da resistência contra a opressão. E isso, obviamente, causou desconforto em muitas pessoas, principalmente no governo francês da época, que proibiu o longa de ser exibido no país. Depoimentos de pessoas ligadas ao Partido dos Panteras Negras nos Estados Unidos, mostram a força que o filme obteve na década de 1960, por exemplo.

Infelizmente o documentário se abre demais tematicamente e acaba focando, em seu final, no que “A Batalha de Argel” simboliza hoje, mais precisamente nos E.U.A.. Mas, ainda sim, o filme de Malek Bensmaïl é uma obra fundamental para entender não só como se deu a produção de um dos maiores clássicos do cinema mundial, mas também para entender a política daquele período e como colonialismo se deu e ainda se dá, mesmo de uma outra forma. É um filme que reflete a luta de um povo oprimido, e o cinema é somente o fio condutor dessa luta.

O Distante Latido dos Cães

The Distant Barking of Dogs (2017), de Simon Lereng Wilmont
Dinamarca, Finlândia e Suécia / 90′

Outro filme político e incrivelmente assustador. “O Distante Latido dos Cães” praticamente observa a rotina dos primos Oleg e Yarin, meninos que vivem em Donesk, região afetada por ataques de mísseis, por conta do conflito russo-ucraniano.

A proximidade da câmera de Wilmont com a vida dos personagens, revela um lado bastante íntimo de pessoas que vivem sob o medo de um bombardeio, no caso crianças. Apesar do filme dar espaço para as pessoas que vivem na região, como a avó do protagonista, que cuida do garoto após o falecimento dos pais, o documentário está mais interessado em observar como as crianças lidam com essa realidade que os cercam.

Entre brincadeiras, treinamentos de evacuação na escola e as relações familiares, as crianças, mesmo tentando não demonstrar, vivem em estado de alerta. O olhar atônito delas é crucial para que possamos entender seus sentimentos. E por ser um registro de dentro da ação, vemos como os bombardeios são aterrorizantes, pois ao acompanharmos de forma tão próxima a rotina desses personagens, conseguimos sentir o pânico que os tomam conta.

Os destroços dos lugares são parte inerente das brincadeiras, e isso o filme sabe utilizar muito bem com planos abertos, transmitindo para o espectador todo o efeito do conflito. As imagens registradas por celular também são importantes para que possamos entrar, mais intimamente, na vida dos personagens, justamente nos momentos mais intensos.

O Distante Latido dos Cães” é praticamente um filme de observação, mas que não se assume totalmente como tal por conta de inserts em off da avó do protagonista, o que não tira a sua força temática, que é assustadora.

Adoniran – Meu Nome é João Rubinato

Adoniran – Meu Nome é João Rubinato (2018), de Pedro Serrano
Brasil / 92′

Adoniran – Meu Nome é João Rubinato” é um documentário que busca desvendar o personagem caricato e carismático de Adoniran Barbosa. Com um ritmo bastante leve, por conta da própria figura de Adoniran, o filme vai contrapondo histórias sobre a vida do documentado, que por muitas vezes possuem várias versões, ao passo que também traça uma linha cronológica de sua vida, mais precisamente de Adoniran como um artista, não de João Rubinato propriamente dito, embora os dois acabam por se confundir na vida dessa icônica figura paulistana.

E, por falar em São Paulo, a metrópole é um personagem crucial do filme, já que ela serviu como inspiração para as crônicas de diversas canções de Adoniran. E, ao se debruçar pela cidade, o filme de Pedro Serrano une a história de vida de Adoniran com a história de São Paulo, nos proporcionando uma bela viagem através do tempo.

A montagem do documentário procura evidenciar uma São Paulo de hoje, tão contraditória do que aquela cantada por Adoniran em décadas atrás, mostrando também que o sambista é tão atual como poderíamos imaginar. Infelizmente, o filme acaba caindo num didatismo ao mostrar demasiadamente o que nos é falado, através de imagens um tanto quanto óbvias da cidade.

Adoniran – Meu Nome é João Rubinato” é um filme importante para compreendermos mais profundamente a persona de Adoniran Barbosa e também a história recente da cidade de São Paulo, juntamente com o povo que a habita. No fim, nos damos conta que Adoniran ainda canta sobre o hoje.

Missão 115

Missão 115 (2018), de Silvio Da-Rin
Brasil / 87′

Missão 115“, novo filme do documentarista Silvio Da-Rin, investiga um importante fato da história recente do Brasil e reflete como tal fato se reverbera ainda hoje, mostrando as deficiências da nossa frágil democracia. Tanto que, mesmo após mais de 25 anos do ocorrido, nenhum filme se propôs a realizar essa investigação, o que só demonstra o quão perdidos estamos em nossa própria história.

O filme parte da série de atentados com bombas que estavam acontecendo no regime militar, que descobriu-se que eram forjadas pelos próprios militares para que assim culpassem a esquerda e recebessem um clamor popular, o que resultaria no fortalecimento na ditadura, que naquela altura estava perdendo a força. O atentado crucial aconteceu no Rio-Centro, próximo a um show comemorativo de 1° de Maio, em 1981.

A partir de depoimentos, o documentário vai narrando, através de capítulos, como os atentados acabaram por enterrar de vez a ditadura e, além disso, o que é o mais assustador, como os governos pós-redemocratização lidaram com os crimes dos militares. Criando assim um estudo sociológico sobre a nossa história e elaborando uma tese sobre o Brasil de hoje, que vive claramente num regime de exceção.

Tematicamente o filme é muito contundente, importante para expor feridas vindas do período militar e que ainda sangram, mas por outro lado, a narrativa possui alguns tropeços. A escolha em contar o filme através de capítulos chega a funcionar, mas acaba direcionando os depoimentos, mas são os inserts encenados que nos retiram complemente da obra. Além dessas sequências destoarem de todo o filme, elas nos mostram o que já sabemos, como por exemplo a feitura de uma bomba quando algum entrevistado fala sobre bombas. Tal artifício deixa o filme redundante em alguns momentos.