Inúmeras obras ultimamente acabam ganhando a alcunha de “necessário” por grande parte dos críticos cinematográficos, o que faz com que a palavra seja diluída e o peso nela contida acaba se perdendo. E para me referir ao filme “Era o Hotel Cambridge” (2016), de Eliane Caffé eu uso aqui o adjetivo “necessário” na sua forma mais concreta possível, pois é uma obra rica em sua linguagem e rica em sua temática, ainda mais se tratando de um filme que reflete luta, o que atualmente se mostra muito pertinente.

Era o Hotel Cambridge” acompanha a rotina de refugiados e desabrigados numa ocupação em um prédio no centro da cidade de São Paulo, e a partir disso somos convidados a conviver com tais pessoas, juntamente com seus tantos dilemas ao meio de uma luta por uma vida melhor.

O roteiro de Eliane Caffé, Luis Alberto de Abreu e Inês Figueiró é primoroso, aos poucos o filme vai contemplando todas as nuances que a obra possui, isso mesclado com a direção bastante concisa de Eliane, que consegue administrar de uma forma bem orgânica uma narrativa que possui um aspecto híbrido entre o real e a ficção, coisa que estamos acostumados a ver bastante nas obras de Gabriel Mascaro Adirley Queirós, quando nos referimos ao cinema nacional, mas diferente do estilo desses dois cineastas citados, Eliane foge de alguns maneirismos estéticos que poderiam deixar a obra mais sisuda, a câmera aqui nos revela a ação de dentro pra fora, não somente de dentro do prédio para fora, mas também de dentro dos personagens ali retratados para fora, a lente serve como captação dos sentimentos e os externaliza. Talvez isso se deva ao fato de que a equipe do filme tenha permanecido por dois anos na ocupação antes de começarem as filmagens, criando uma relação de reciprocidade com as pessoas que fazem parte de uma luta diária por moradia.

No início do filme somos apresentados ao edifício como se ele fosse uma entidade viva, um monstro gigantesco com suas dezenas de andares. Os planos externos são intercalados com planos internos que nos apresentam toda a sua arquitetura, chega a ser assustador a forma como esse edifício parece ter personalidade e se, antes, eu disse que ele parecia um ser vivo, essa impressão fica mais evidente quando nos são mostrados os canos que cortam as suas paredes. A metáfora é clara, aqueles canos são as veias desse ser que, ao passar água por eles cria vida e é assim que somos apresentados aos primeiros personagens, como se a vida brotasse num lugar de concreto totalmente inóspito e que permanecia abandonado, essa a vida que surge vem com as inúmeras famílias que ali começam a viver, famílias que possuem valores culturais distintos, mas que se unem para assim conseguir um lugar para viver.

As personalidades dos personagens vão surgindo na tela a medida que eles se relacionam, existe nesse convívio um evidente choque cultural, que é retratado de uma forma bastante cômica e agradável. Temos aqui pessoas vindas de diferentes lugares do mundo, pessoas que foram obrigadas a abandonar seus lugares de origem por conta de conflitos; Isam por exemplo veio da Palestina e traz no semblante uma história que só ele vivenciou, repleta de conflitos e de luta. Ainda há personagens que vieram da África, da Bolívia e por que não do próprio Brasil e a personagem central da obra, a Dona Carmen sintetiza isso muito bem, pois ela é uma brasileira, vinda do nordeste e assim como tantos outros que estão na ocupação, traz consigo um histórico cultural e um desejo por moradia. Mas não se engane pensando que esse desejo parte de um individualismo, pois apesar de tudo, a luta é coletiva e bastante organizada, fato que o filme nos exemplifica muito bem. Todas as pessoas possuem uma função para que o movimento seja forte e para que isso funcione da melhor forma possível é preciso de organização, e esse é o papel de Dona Carmen, que por várias vezes toma as rédeas e aponta as diretrizes para que o movimento continue caminhando e abraçando mais refugiados, sejam eles brasileiros ou estrangeiros.

Como dito anteriormente, Eliane Caffé sabe muito bem controlar a narrativa do filme, pois em alguns momentos vemos imagens de arquivo ou até mesmo cenas de outras produções que remetem ao passado de alguns personagens. E o que poderia soar arbitrário, faz todo sentindo para a obra, porque há também um trabalho de metalinguagem que dá vazão para inúmeras possibilidades narrativas e que, felizmente são brilhantemente aproveitadas. A presença do ator José Dumont, que interpreta Apolo e da atriz Suely Franco, que interpreta a carismática Gilda, servem também para essa mescla de realidade e ficção funcionar tão bem, principalmente a partir da figura de Apolo, que organiza espetáculos entre os refugiados e acende a veia artística do local, pois ora ele está organizando uma peça de teatro, ora está organizando filmagens para um vlog e ora está com um morador que toca algum instrumento. Ou seja, é a partir dessa figura que é canalizada a maior parte ficcional do filme, que se relaciona muito bem com os verdadeiros refugiados do edifício.

A ideia de realizar um vlog soa eficiente para a narrativa do filme, mas também funciona como metalinguagem, pois se a interação entre atores e refugiados reforçava a ideia de que o filme brincava entre o ficcional e o real, uma câmera passeando entre eles para registrar um vlog deixa tudo isso mais orgânico. É uma sacada simples, mas que é muito bem utilizada e que dá mais estrutura a proposta do filme.

A medida que o filme avança os personagens vão ganhando mais camadas, se no começo o vemos como figuras somente simpáticas, ao decorrer da projeção eles ganham um peso dramático que favorece muito a profundidade da obra. Na sala onde os jovens editam os vlogs, os refugiados também se comunicam com seus parentes distantes via Skype e nesses momentos somos defrontados às pessoas que estão ali. Embora exista um roteiro que as cerque, os olhares nos mostram o quão nu esses personagens estão diante de nós, expondo conversas sobre família, amigos e passado. Isam, por exemplo, numa chamada para sua família que ainda vive na Palestina, nos brinda com uma das cenas mais emblemáticas do filme, onde ao fundo vemos os destroços de um conflito realizado a partir de forças desiguais. E assim, o filme pontua, de mãos dadas com as angústias de seus personagens, guerras financiadas pelo grande capital, que vão desde a extração de minério na Angola até a fabricação de armas e munições que servem para sustentar Israel e seus conflitos. Após essas cenas a lente da câmera passa a ser, mesmo que por uns instantes, um mero observador, revelando o silêncio de seus personagens, que apenas com seus pequenos gestos tentam nos mostrar suas memórias e reflexões.

Eduardo Coutinho sempre dizia que o importante era a verdade da filmagem, não a filmagem da verdade, e isso me veio à tona numa cena onde Dona Carmen desaba ao ser tão sobrecarregada com todas as inúmeras tarefas que ela possui, mesclado com a tensão causada por uma ordem de reintegração de posse que a cada dia que passa se aproxima mais. A verdade dessa cena é tão absoluta que pode acabar criando uma confusão no espectador: “Será que Dona Carmen está atuando?“, mas o que importa de fato é que essa cena é real, tão real como todos os personagens que vivem nesse edifício.

Era o Hotel Cambridge” é um filme que contempla várias camadas da luta por direitos sociais. Há aqui um reflexo dos comentários de ódio dos grandes portais, que são deixados nos materiais realizados dos vlogs e também a repressão policial, que se mostra mais uma vez extremamente truculenta. Por sinal, essas são as cenas mais difíceis de se assistir de todo o filme. As violências, sejam elas virtuais ou físicas ferem, e muito. Por isso iniciei esse texto dizendo que “Era o Hotel Cambridge” é um filme necessário, tanto para nos apresentar uma visão mais ampla das lutas por direitos sociais, como para apresentar a legitimidade dessas lutas para pessoas que as tratam com desdém e por muitas vezes destilam ódio por falta de informação.

Mas, além disso, “Era o Hotel Cambridge” é um filme inspirador, que exala luta, com personagens fortes e com reivindicações totalmente necessárias. E, assim como nas suas cenas iniciais, o filme se encerra com cenas igualmente emblemáticas, com bandeiras de movimentos de moradia espalhadas pelas janelas dos prédios ocupados, mostrando que a luta se multiplica e se fortalece, criando assim, uma relação diferente das pessoas com uma cidade fria e cinza. Uma relação onde, tal qual houve no edifício do Hotel Cambridge, acaba dando vida à cidade, que infelizmente permanece a mercê da especulação imobiliária e de seus empresários. Mas enquanto a luta se permanecer necessária, os movimentos sociais ainda vão existir, inclusive os movimentos de moradia para abrigar várias Donas Carmen e vários Isam. Ou seja, abrigar pessoas refugiadas no geral, sendo elas do exterior e estranhamente também do próprio Brasil.

Título Original: Era o Hotel Cambridge
Direção
: Eliane Caffé
Roteiro: Eliane Caffé, Luis Alberto de Abreu, Inês Figueiró
Elenco: Carmen Silva, Isam Ahmad Issa, José Dumont, Suely Franco, Paulo Américo, Juliane Arguello, Thais Carvalho, Guylain Muskendi Lobobo, Lucia Pulido, Mariana Raposo, Gabriel Tonin e Ibtessam Umran.
País: Brasil
Ano: 2016
Duração: 99 minutos
Estreia: 16/3/2017