Existem filmes que são reconhecidos pela relevância temática que abordam, mas a maioria deles dependem muito de seu tema para que o filme funcione, são raros casos onde a obra possui um equilíbrio temático e narrativo e, “Fala Comigo” (2016), filme de Felipe Sholl, consegue muito bem levantar questões que permanecem ainda como tabus e também construir uma narrativa rica e autoral.

Fala Comigo” levou dois prêmios no Festival do Rio em 2016, um de Melhor Atriz para Karine Teles e o outro de Melhor Filme. Tais prêmios reforçam a força que mora na obra de Sholl, que faz um recorte na vida de uma família de classe média do Rio de Janeiro e com isso, também acaba fazendo um recorte de uma época marcada pela incomunicabilidade.

No filme, acompanhamos o jovem Diogo (Tom Karabachian), de 17 anos, que gosta de ligar para as pacientes de sua mãe Clarice (Denise Fraga), que atua como psicanalista, e se masturbar enquanto ouve as vozes do outro lado da linha. E é assim que ele conhece Ângela (Karine Teles), de 43 anos, que acabou de ser abandonada pelo marido. Os dois então iniciam uma relação, o que desencadeia uma série de conflitos.

O filme de Felipe Sholl se inicia com uma cena que faz uma rima com o título do filme, o ‘fala comigo‘ sai do título e parte de encontro aos personagens. A cena em questão é a de Ângela ao telefone, acreditando que está falando com seu ex marido, pedindo desesperadamente para que seu ex companheiro a respondesse, no entanto, descobrimos que do outro lado da linha está Diogo, que está se masturbando enquanto ouve a voz de Ângela. Além da rima com o título do filme, o aspecto que ronda a frase ‘fala comigo‘ é expandida, e as verdades que tal frase traz começam a ser debulhadas.

A escolha fotográfica que Sholl utilizou para compor a narrativa do filme traz um aspecto de solidão, que reforça as introspecções de seus personagens, embora seja um filme onde o relacionamento é o ponto chave, as relações são muito mais carnais do que afetivas de fato. Os planos do filme, geralmente, são fechados em close-ups nos rostos dos personagens, e a profundidade de campo é extremamente reduzida, e isso fica mais evidente nas cenas externas, onde os personagens parecem flutuar meio a um mundo distorcido a sua volta. Tal aspecto faz com que cada personagem tenham suas angústias reforçadas, embora, cada um possua o mesmo problema crônico de uma estrutura familiar quebrada, todos as vivem a sua maneira e lidam com isso dentro de um processo deliberadamente solitário.

Cada plano que se dedicada a captar a essência de seus personagens se concentra em seus rostos, e fica claro que o que interessa dentro da narrativa não são os corpos dos personagens, mas sim as emoções que são extraídas por suas feições. O que acaba se tornando uma alternativa arriscada quando se trata de um filme com essa temática, onde o sexo é quase um personagem vivo. Mesmo assim, a opção de narrar o filme sob essa perspectiva intimista chega a ser assustadoramente reveladora. E isso se reverbera com o silêncio de seus personagens, que apesar de se comunicarem uns com os outros, não se aprofundam em seus anseios.

A ruína da estrutura familiar é sempre salientada por Sholl, mas de uma forma bastante sutil. As cenas são construídas para que o vazio e o silêncio fiquem evidentes. Apesar de Diogo possuir uma mãe psicanalista e uma base familiar aparentemente estruturada, falta a eles o ‘olhar‘ para o outro e, o que aflige Ângela, também aflige Clarice, mas de forma uma diferente.

O elenco do filme é ótimo, com atuações homogêneas e que funcionam muito bem. Mas fica claro que o destaque da obra é de Karine Teles, que consegue compor uma personagem forte, mas que possui suas fraquezas evidentes. Ela é uma mulher solitária, apaixonada e sensual e que enxerga em Diogo uma oportunidade de recomeçar a sua vida. As dores e angústias das personagens se mostram nos detalhes, em pequenas falas e em pequenos gestos. Na maior parte da trama, Ângela reprime suas angústias, o que acaba criando um contraponto interessante quando ela não consegue se conter mais e desaba meio as suas dores, um exemplo disso é a cena logo após uma discussão calorosa com Clarice, repleta de uma psicologia que se sustenta pelos diálogos e pelas atuações.

O filme segue explorando seu tema, mas há uma subtrama envolvendo Diogo e seu amigo Guilherme (Daniel Rangel) no segundo ato do filme que o desvirtua um pouco, apesar de acrescentar mais camadas aos conflitos vividos pelo protagonista, esse ponto não é aprofundado e o filme se perde por alguns momentos. Seria interessante a trama investir mais tempo no conflito proposto, mas isso não acontece e o protagonista não ganha mais profundidade dramática com tal conflito, o que é uma pena.

Interessante observar também como o filme consegue ressignificar seus personagens e em determinado momento da trama os papéis acabam se invertendo de alguma forma, o que deixa o deixa mais interessante, e o processo de investigação em cima das ações dos personagens mais profundo. Esse ponto de virada acontece no terceiro ato, que vai ganhando cada vez mais carga dramática. Os conflitos se intensificam e o impulso sexual, chave da relação de Diogo e Ângela, fica mais evidente.

O filme não levanta questionamentos sobre a relação estabelecida entre os personagens principais, a narrativa a incentiva, por sinal. Claro que são colocados conflitos e situações que vão se opor ao relacionamento de Diogo e Ângela, mas a trama está muito mais preocupada em fazer um recorte da vida dessas pessoas e expor essas situações, do que ser panfletário e indicar o que é o certo ou o errado. E isso é um dos fatores que o fazem funcionar tão bem tematicamente.

Infelizmente, por se tratar de um recorte, o filme termina de uma forma um tanto quanto abrupta, sem dar tempo de explorar os conflitos que ficavam cada vez mais intensos. E, mesmo se tratando de um recorte, talvez a trama careça de um arco mais definido para o protagonista, onde fique claro a transformação do personagem desde o início da projeção. Mesmo com essa escolha de cortar o filme num possível momento de ápice, a obra como um todo não é comprometida e a força do filme se mantêm mesmo após os créditos finais subirem por completo.

Obras como essa são cruciais para entender o mundo a nossa volta e fazer um retrato de sua época, sendo assim, “Fala Comigo” é uma obra sólida e que pode gerar debates calorosos sobre seu tema principal e assim, manter o filme vivo mesmo após sua projeção. Além do mais, é um filme importante tematicamente e que possui uma narrativa que condiz com sua trama e com seus personagens, criando assim uma obra rica em vários aspectos distintos.

Título Original: Fala Comigo
Direção
: Felipe Sholl
Roteiro: Felipe Sholl
Elenco: Karine Teles, Tom Karabachian, Denise Fraga, Anita Ferraz, Daniel Rangel, Emílio de Mello, Guilherme Guaral, Manoela Dexheimer
País: Brasil
Ano: 2016
Duração: 90 minutos
Estreia: 13/7/2017
Distribuidora: Vitrine Filmes