6d23f4db88c8c94bf3c1057c62903a03_jpg_290x478_upscale_q90Com um grande pesar recebemos uma triste notícia hoje (28/4) logo pela manhã, o ator, diretor e apresentador Antônio Abujamra nos deixou para ser um provocador em algum outro lugar. E para homenageá-lo nesse momento de despedida, falaremos aqui do filme “Festa” (1989) de Ugo Giorgetti, filme no qual Abujamra foi um dos protagonistas e que acabou rendendo um prêmio como melhor ator no Festival de Gramado em 1990 pela sua atuação repleta de cinismo.

Além da premiação de Abujamra, o filme também recebeu inúmeros prêmios em Gramado naquele ano, incluindo melhor filme, melhor roteiro, melhor figurino e melhor edição de som, além de também premiar Adriano Stuart como melhor ator ao lado de Abujamra. “Festa” é uma pérola quase que escondida da filmografia nacional, o que gera uma ótima surpresa ao espectador desavisado que o assistir. O filme é bastante simples em sua ideia, mas com uma ótima reflexão sobre as diferenças sociais. Ele é todo rodado em uma única locação e durante uma ocasião específica: uma festa.

No filme acompanhamos três personagens: um músico que toca gaita (Jorge Mautner), um jogador de sinuca (Adriano Stuart) e o seu assistente (Antônio Abujamra), eles são contratados para animar uma festa, porém eles tem que aguardar algum chamado no salão de jogos enquanto a festa acontece no andar de cima. Impacientes, eles tentam passar o tempo bebendo, comendo ou até mesmo tentando tirar uma grana dos convidados.

O filme começa com os créditos iniciais em tela enquanto ouvimos ordens sobre os preparativos da festa, logo descobrimos que as ordens são dadas por um mordomo (Otávio Augusto) – que inicialmente acreditávamos que era o dono daquela casa, pelo seu ar autoritário. Essa cena inicial dá o tom do filme, que é permeado de piadas sutis com situações absurdas, nessa primeira cena em específico o mordomo exige que o garçom tire o cachorro da porta da sala e essa situação dá espaço a um ótimo diálogo sobre como tirar o cachorro de lá e onde o colocar, tal cachorro que aparecerá pontualmente durante o filme, sempre numa cena cômica. É logo depois que conhecemos o trio de protagonistas que iremos acompanhar durante o filme inteiro, o mordomo passa as informações pra eles e deixa bem claro que eles não podem subir para a festa, ao menos que sejam requisitados. E como acompanhamos esses personagens, acabamos por ter somente a visão deles sobre as situações, perguntas como: “quem está dando a festa?“, “quem está na festa?” ou “pra quê é essa festa?” acabam ficando no ar, com algumas respostas sendo apenas sugeridas ao decorrer do filme, mas nada que o diretor explicite.

As características dos personagens são muito bem trabalhadas, deixando bem claro para o espectador qual a intenção de cada um. Enquanto o músico fica angustiado para tocar ou para saber quem o contratou, os outros dois querem descobrir a melhor forma de conseguir um trocado, aproveitando cada situação que surge. A dupla Adriano Stuart e Antônio Abujamra é fantástica, os dois personagens são extremamente cínicos e misteriosos, Abujamra está encantador no papel do velho espertalhão, fazendo um pequeno contraponto de seu amigo, sendo mais direto em relação aos seus desejos, enquanto o personagem de Stuart é um pouco mais calado. A interação desse núcleo com outros personagens é muito prazerosa de se ver, seja com os garçons, com o mordomo e outros que vão surgindo, como um bêbado (José Lewgoy), um ator famoso (Ney Latorraca) e a empregada (Iara Jamra), que acaba sendo quase um quarto membro dos solitários do salão de jogos.

fe47_arq098-02-00O roteiro de Giorgetti se sustenta durante o filme todo, com ótimos diálogos e situação atípicas, como por exemplo um garçom com epilepsia que é jogado no banheiro junto ao cachorro preso, um forma de esconder o indesejado dos convidados. O pouco deslumbre que temos da festa é quando algum personagem sai do salão de jogos até o próximo andar, e são cenas que Giorgetti resolve muito bem, com apenas um plano aberto que enquadra os dois andares da casa, isso sem sair do salão, afinal também estamos sendo obrigados a não se misturar com os convidados.

Mas não é só de um leve humor que o filme se baseia, ele possui algumas camadas – como todos os filmes que deixam portas abertas para interpretações. No caso de “Festa“, nada é muito complexo e as metáforas usadas por Giorgetti são quase que literais, como por exemplo a divisão dos personagens em andares e o que a festa representa num contexto social. O trio de protagonistas representam claramente uma classe com menos poder aquisitivo, mesmo um sendo músico e o outro um jogador profissional de sinuca, eles ficam sempre à espera da chamada do dono da casa para exercerem as suas funções, mesmo eles não sabendo quem é, enquanto passam frio e fome. O figurino deixa isso muito evidente, como a meia furada do personagem de Abujamra, onde em uma cena muito cômica ele coloca uma página de um revista sobre filmes pornográficos em seu sapato, dizendo que todas aquelas sacanagens escritas na página vão esquentar o seu pé; e em outro momento num diálogo expositivo próximo ao fim do filme, onde o jogador de sinuca conta ao músico como o seu amigo velho conseguiu a incrível habilidade de dormir de pé sem cair, contando uma história de uma pousada que ele descreve como um “cu” e de tão lotada alguns tinham que dormir de pé, nesse diálogo é sacramentado que os três já tiveram que dormir nesse lugar, sendo assim, iguais perante a sua classe social. A sacada mais irônica de Giorgetti nesse filme é com o personagem do mordomo, com seu ar autoritário, ele é o único personagem que passa as ordens aos garçons e ao trio contratado, mas de uma forma ríspida, lembrando claramente um dizer de Paulo Freire: quando o oprimido tem a chance de ser o protagonista da sua própria história ele só saberá agir como como um opressor, pois esse foi o único método que ele aprendeu. Essa frase com certeza define o personagem do garçom.

Enfim, “Festa” é um filme soberbo, ele possui um ótimo roteiro que fala sobre diferenças sociais sem ser panfletário, com um toque sutil de humor, com um ótimo ritmo, ótimas atuações, uma boa montagem, bons figurinos e uma direção concisa de Ugo Giorgetti. Apesar de tratar de um tema denso no seu subtexto, “Festa” é um filme leve e deveria ter um lugar mais destacado entre os clássicos do cinema nacional, além de ser um registro de ótimas interpretações de atores/diretores consagrados que nos deixaram,  que são Adriano Stuart e Antônio Abujamra.

6tYz90V

Abaixo fiquem com a primeira parte de uma entrevista de Ugo Giorgetti no programa Provocações, no qual Abujamra apresentava há mais de uma década. A parceria de Giorgetti rendeu um outro filme em 2010, onde Abujamra apresenta um monólogo com várias reflexões sobre a sociedade, o cotidiano e a vida. Um filme peculiar, que vale ser assistido.

Adeus Abujamra!