Sem sombra de dúvidas Terrence Malick é um dos cineastas mais autênticos em atividade no cinema norte-americano, suas obras evocam, através de seu olhar, uma áurea filosófica, onde a mais simples trama pode se tornar um profundo estudo da alma humana. Mas, em seus últimos trabalhos, a carga autoral do cineasta têm pesado mais do que deveria, tornando seus filmes vagos em essência, mesmo com a tentativa de alcançar um estado de espírito elevado em suas temáticas, através de narrativas sensoriais.

E, sua mais recente produção, “De Canção em Canção” (Song to Song, 2016), sofre daquilo que é a essência do filme: a narrativa fragmentada e filosófica.

Na trama, acompanhamos dois triângulos amorosos ambientados na cena musical da cidade de Austin, Texas. BV (Ryan Gosling) e Faye (Rooney Mara) são dois compositores, que se relacionam com Cook (Michael Fassbender), um produtor musical famoso e bem sucedido. Os três personagens se entrelaçam e dividem suas angústias, meio ao sonho do sucesso e a necessidade de sanar um vazio existencial.

De Canção em Canção” é um filme puramente concebido para ser um exercício de linguagem e se aventurar por narrativas mais experimentais. Logo de início já percebemos que o filme possui a forte assinatura de Malick, que leva a sua obra para um clima quase espacial, criando uma atmosfera já vista em obras anteriores do diretor, como em “A Árvore da Vida” (2011). O filme inicia com uma narração em off que irá permear toda a projeção, o que acaba se tornando um artifício necessário para manter a linearidade na obra, pois a narração, que varia entre os personagens, acaba complementado as cenas e consequentemente os diálogos, que às vezes se mostram soltos demais, com uma certa descontinuidade.

A descontinuidade do filme se dá por conta de sua montagem, que adota um estilo narrativo não convencional, fragmentando toda a obra, criando situações diversas e em alguns momentos desconexas. A montagem do filme é o que se destaca na proposta de seu exercício de linguagem, o que no começa se demonstra como algo inventivo e interessante, mas que aos longos dos 129 minutos do filme, acaba se tornando enfadonho e repetitivo.

A montagem também acaba estabelecendo uma relação curiosa entre os personagens, fazendo uma alusão ao mundo real, fragmentando o filme como se fragmenta a vida quando olhamos em retrospecto para a nossa jornada, soltando de situações em situações. Mas, o que a princípio funciona como uma alusão filosófica à vida, acaba se tornando um desperdício dramático, pois os personagens não são aprofundados como deveriam, nos dando só uma visão superficial para cada um deles. Além disso, tal escolha narrativa também impede o roteiro de avançar e o que era pra ser algo sofisticado, acaba sabotando o próprio filme.

Mesmo com a proposital montagem fragmentada, o filme possui uma fotografia expansiva em alguns momentos e minimalista em outros, isso graças ao trabalho competente de Emmanuel Lubezki, que consegue extrair da cena o que ela pede. O olhar de Lubezki traduz toda a filosofia espirituosa de Malick, se por um lado o filme não consegue se definir através dos diálogos e de seus personagens, é através das imagens que reside a sua força. A profundidade de campo é ampla e valoriza as locações nas cenas externas, colocando os personagens de encontro com a natureza em lindas composições, com uma paleta de cores viva, dando ao filme, nesses momentos, um certo respiro, fugindo do aspecto carregado de seu discurso.

Mesmo fazendo parte de sua proposta, a fotografia de Lubezki às vezes fica perdida quando colocada ao lado das cenas documentais do filme, que foram registradas de maneira espontânea em concertos e festivais de musicas, criando assim, um claro contraste estético. Claro que essa escolha serve para criar uma composição credível para o universo em que os personagens estão inseridos, mas isso acaba deixando a obra sem um tom coeso, o que fica evidente quando o filme coloca lado a lado seus personagens com músicos reais, nos dando a impressão de que os personagens criados por Malick não fazem parte daquele ambiente, os deixando deslocados.

Alguns aspectos são pincelados dentro da história de cada personagem, conhecemos familiares e o passado que cada um carrega. Mas nada disso é usado como deveria e, apesar desses aspectos serem inseridos para dar maior carga dramática aos seus personagens, o resultado final é uma subtexto vazio e sem propósito. O filme, como dito anteriormente, também insere personalidades importantes da música na trama, fazendo um misto de realidade e brincando com o seu próprio universo. Ver figuras como Iggy PopPatti Smith nos desperta uma certa curiosidade, é como se a câmera tentasse penetrar um outro lado dessas pessoas, os filmando no palco e na maior parte das vezes, longe dele. Patti Smith, por exemplo, serve praticamente como um guia que percorre toda a trama, se tornando também uma personagem que interage, não servindo somente como figura musical representativa para ajudar na ambientação.

Embora o filme possua claros problemas em sua composição narrativa, que se arrisca demais e nos diz de menos, as atuações chamam a atenção para si. Mesmo os personagens não possuindo muita profundidade, Rooney MaraRyan GoslingMichael Fassbender estão ótimos e entregues. A proximidade entre os três chega a ser orgânica em certos momentos, onde fica claro a carência afetiva de cada um deles. E a interação física entre eles é o ponto chave para compreender seus anseios, pois o trio, apesar de se tocarem a todo momento, deixam a entender, que seus toques são metáforas para despedidas. Os abraços, beijos e carícias, quando nos são revelados de uma forma sentimental, sempre possuem um tom de adeus, e isso se expande para os demais personagens que adentram nesse universo, seja Rhonda (Natalie Portman), que começa uma relação mais profunda com Cook; seja Amanda (Cate Blanchett), que se envolve com BV; ou até mesmo Zoey (Bérénice Marlohe), que inicia uma rápida relação com Faye.

O filme é inteiramente trilhado, e as músicas vão desde composições clássicas até a música pop, propondo ao espectador uma viagem sonora interessante. Pode-se dizer que “De Canção em Canção” é uma espécia de musical, mas um musical que foge das convenções e que se dá aos moldes narrativos dos filmes de Malick. A música é sim um ponto chave na obra, pois ela rodeia os personagens, tentando estabelecer uma conexão entre eles, mas que acaba funcionando, por exemplo, muito mais com a persona de BV do que com a de Faye, que em alguns momentos parace distante daquele meio musical.

De Canção em Canção” vale, até um certo momento, pela sua proposta narrativa, mas que infelizmente se torna repetitiva e cansativa durante as suas duas horas de duração. A fotografia de Lubezki também impressiona, conseguindo criar uma ambientação plenamente espirituosa e que reforça a proposta filosófica da obra, mas a força da fotografia quase se perde devido a montagem, que ao optar por fragmentar as cenas, também fragmenta as ideias, as imagens e seus personagens, que mesmo não sendo aprofundados como deveria, são maravilhosamente interpretados e, graças a essas atuações, a obra acaba ganhando uma alma mais palpável do que a proposta pelo texto em si. Pode-se dizer que “De Canção em Canção” é o melhor trabalho de Malick desde  “A Árvore da Vida“, mesmo isso não significando muito, vide os trabalhos mais recentes do diretor até então, onde ele continua a optar por explorar a forma e não o conteúdo propriamente dito.

Título Original: Song to Song
Direção
: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Ryan Gosling, Rooney Mara, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Olivia Grace Applegate, Linda Emond, Iggy Pop, Patti Smith, John Lydon, Florence Welch, Anthony Kiedis, Flea e Chad Smith
País: Estados Unidos da América
Ano: 2016
Duração: 129 minutos
Estreia: 20/7/2017
Distribuidora: Supo Mungam Films