“Modernizar o passado

É uma evolução musical

Cadê as notas que estavam aqui

Não preciso delas!

Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos

O medo dá origem ao mal

O homem coletivo sente a necessidade de lutar

o orgulho, a arrogância, a glória

Enche a imaginação de domínio

São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade

Viva Zapata!

Viva Sandino!

Viva Zumbi!

Antônio Conselheiro!

Todos os panteras negras

Lampião, sua imagem e semelhança

Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.”

(Monólogo Ao Pé do Ouvido – Chico Science & Nação Zumbi)

Vamos começar no ano de 1996, com o filme “Baile Perfumado“, com direção de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, o filme se destaca como um dos filmes da retomada do cinema Brasileiro. Era um filme que representava a vontade de fazer, a vontade de produzir, foi o começo de uma forma de expressar através do cinema.

O Baile Perfumado” foi o resultado de uma bolha que estava crescendo e que explodiu nesse filme, que podemos considerar como um big bang nas produções de Pernambuco. Um embrião já estava rolando há algum tempo, com Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Clara Angélica e Beto Normal. Com influência do movimento Manguebeat, surgiram filmes como “Maracatu, Maracatus” (1995) com direção de Marcelo Gomes, “Cachaça” (1995) de Adelina Pontual e “That’s a Lero-Lero” (1995) de Amin Stepple e Lírio Ferreira, só pra citar alguns curtas que já estavam sendo produzidos naquela época, antes da produção de “Baile Perfumado“. Importante lembrar que os filmes funcionavam como um coletivo, um trabalho de toda a galera que pensava e produzia cinema.

Os filmes posteriores iriam abordar Recife como a protagonista de seus enredos, mostrando personagens envoltos de uma cidade desigual, rica em vários aspectos, inclusive na sua cultura. Recife é Hellcife, costumes são colocados em prova, nos filmes de Cláudio Assis, existe um Recife dentro de Recife, com seus próprios costumes, valores, com muita liberdade, porém muita acentuada nas questões desiguais, nos filmes de Kleber Mendonça Filho, Recife não está suportando o seu crescimento como uma grande metrópole, que também pontua a desigualdade de uma cidade, onde há o crescimento de uma verticalização em certos pontos e outros continuam à margem da sociedade, há também em alguns filmes do Kleber uma crítica ao pensamento do cidadão, um pensamento de senhores de engenho em tempos de grandes condomínios. Destaco aqui três trabalhos do Kleber que tratam desse assunto, “Eletrodoméstica” (2005), “Recife Frio” (2009), ambos curtas, e o premiado longa “O Som ao Redor” (2012).

Falando em nomes importantes do cinema pernambucano e dos filmes de Cláudio Assis, não podemos deixar de falar sobre Hilton Lacerda, que escreveu o roteiro dos três primeiros filmes de Cláudio. Parafraseando o personagem Zizo no filme “A Febre do Rato” (2011) – que foi muitíssimo bem interpretado por Irandhir Santos. “Cláudio e Hilton é uma dupla do caralho, do caralho!!”

tatuagem_posterOs roteiros de Hilton são de uma poesia magistral, são histórias humanistas e repletas de amor. O seu primeiro longa de ficção, “Tatuagem” (2013) é um filme repleto dessa poesia, repleto de amor. “Tatuagem” também é uma homenagem ao Recife marginal, a trupe Chão de Estrelas, que são artistas marginais, possuem uma liberdade de ideias maravilhosas, justamente numa época onde ser livre era crime, na ditadura militar. As únicas leis que parecem ser seguidas dentro do Chão de Estrelas são o amor e liberdade, atreladas uma a outra.

O filme narra um amor que surge entre o personagem Clécio (Irandhir Santos), líder da trupe do Chão de Estrelas e um militar chamado Fininha (Jesuíta Barbosa). A história dos dois se passa no meio de uma ditadura militar, que apesar de servir de pano de fundo histórico, não é o foco do longa, o conflito é dentro do Chão de Estrelas, em meio a apresentações e ensaios.

Tatuagem” possui duas cenas de sexo entre Clécio e Fininha, com direito a cenas de nu frontal dos personagens, mas nada é gratuito. Apesar dessas cenas poderem chocar o espectador não avisado com o cinema humanista dessa galera de Recife, outras cenas se sobressaem e ficam na cabeça do  público, como a cena de Clécio cantando a música “Esse Cara” de Caetano Veloso, enquanto a câmera vai se abrindo e vemos Fininha na plateia observando a figura de Clécio. Outra cena que se destaca no filme é a apresentação da Polka do Cu, o maior ato de liberdade do filme. A cena é um número musical, com dança e ousadia, os personagens se apresentam nus ao som de uma música que fala sobre o cu. A música foi composta pelo DJ Dolores, que ganhou o prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Gramado nesse ano, DJ Dolores que também já fez músicas para outros filmes de Recife, como “O Som ao Redor“, ele também fez parte do movimento Manguebeat que mostrou ao Brasil quem era Chico Science.

Hilton também faz uma homenagem ao movimento de filmes em Super 8 que surgiram em Recife na década de 1970, dentre esse movimento, o pensador Jomard Muniz de Britto se destacou com dezenas de curtas que tinham o espírito livre, assim como os filmes de Hilton e Cláudio hoje em dia.

Jomard fazia o seu super 8 marginal para discutir, levantar questões e questionar. Destaco aqui um ótimo exemplo que levanta essas questões daquele momento, o curta “O Palhaço Degolado” de 1977, onde um palhaço brinca e dança numa antiga casa de detenção, enquanto uma narração muito certeira, vinda de um poema do também nordestino Wilson Araújo de Sousa, chamado ”Outdoors de Recado“. As críticas são bem ácidas e a linguagem que Jomard usa no curta é deveras irônica.

Fazendo um rápido parênteses em mais influências que agregam ao “Tatuagem” e que serviu de influência para a base do personagem Zizo no filme “Febre do Rato” – escrito por Hilton também, esse ponto em destaque é a poesia marginal, feita de coração aberto, com muita paixão. Alguns nomes de destaque são os poetas Zizo, MiróErickson Luna e Valmir Jordão, só pra citar alguns.

E pra fazer um link entre o tópico do Jomard Muniz e o da poesia, existe um curta metragem sobre o poeta Miró, que também é de Recife. O curta é de 2008 e se chama “Miró: Preto, Pobre, Poeta e Periférico“, com direção de Wilson Freire. O curta mostra um pouco do estio de vida de Miró e um pouco de seus pensamentos e poesias, além de mostrar um conversa descontraída ente Miró, Jomard e o escritor Wilson Araújo. Em um momento da conversa, Jomard pergunta a Miró se ele se considerava mais ligado ao Catolicismo, ao Comunismo ou ao Existencialismo, Miró responde o seguinte: “Ao alegrismo!” E isso define também o estado de espírito de “Tatuagem“, os personagens do filme exalam alegrismo.

E para completar os pontos altos do filme, as atuações são soberbas, os três personagens principais são muito bem caracterizados, são eles os já citados Clécio Wanderley (Irandhir Santos) e Fininha (Jesuíta Barbosa) e o personagem Paulete (Rodrigo Garcia). Eles nos presenteiam com ótimos momentos, principalmente em cenas de cargas dramáticas mais elevadas. E o que dizer de Irandhir Santos, que já é um grande nome no cinema nacional e já tem a cara dos filmes pernambucanos. A entrega de Irandhir em seus trabalhos é maravilhosa, a gente chega a se emocionar com seus personagens.

O filme ainda conta com a música “Volta” de Johnny Hooker, que é bem singela e casa perfeitamente ao filme. O clipe da música foi lançado semanas antes do filme estrear comercialmente e conta com cenas do próprio “Tatuagem” e com a participação de Irandhir Santos, contracenando com Johnny.

Se temos filmes como esse nos dias de hoje, temos que agradecer a toda junção de fatores culturais que serviram de influências, desde a poesia marginal, o movimento super 8, o movimento Manguebeat e o filme que deu o ponta pé inicial na cena de Pernambuco, “Baile Perfumado“.

No fim, “Tatuagem” se mostra um filme provocador, que foge dos padrões de linguagens do cinema nacional popular e que ainda enriquece a filmografia brasileira. Nos resta é esperar mais dessas produções, com a esperança que essa leva de ótimos filmes continue e que cada vez mais esses filmes sejam reconhecidos pelo público.

E lembrem-se, a única coisa que nos salva, a única coisa que nos une, a única utopia possível, é a utopia do cu!