Começou nesta quinta-feira (7), em São Paulo, a programação do 10° Festival In-Edit Brasil, que traz uma seleção de documentários musicais do todo o mundo.

Neste ano o festival conta com mais de 40 filme, dentre longas e curtas, além de atividades paralelas como shows, festas e uma bela homenagem ao diretor Georges Gachot.

No primeiro dia de festival assisti a 4 filmes, são eles: “As Minas na Batalha” (2016), de Grazie Pacheco; “Yzalú – Rap, Feminismo e Negritude” (2017), de Inara Chayamiti e Mayra Maldjian; “Dzimba dze Mabwe – Casa de Pedra” (2017), de Luiza Gannibal; e “Asfalto – 25 anos de Dead Fish” (2017), de Marcos Okura e Caio Rodriguez.

Abaixo seguem os textos dos respectivos filmes assistidos nesse primeiro dia de festival. E não deixem de acompanhar também a nossa cobertura através do TwitterInstagram e Facebook.

Bom festival à todo(a)s!

“As Minas na Batalha” (2016), de Grazie Pacheco

O curta dirigido por Grazie Pacheco é extremamente relevante em registrar uma legítima expressão cultural, que são as batalhas de rimas que acontecem em São Bernardo do Campo. E, dentro dessa expressão, o filme se debruça sobre as batalhas realizadas por mulheres.

As Minas na Batalha” surge quase como um manifesto sobre as mulheres periféricas que rompem com os padrões e colocam a cara a tapa num ambiente ainda dominado por homens. As constatações extraídas, através da pura observação, evidenciam que a batalha para as meninas vai além das rimas e passa também por se firmar nesse ambiente.

E o filme consegue nos transmitir esses aspectos, seja em seu primeiro momento, quando contextualiza o cenário em que elas estão inseridas e, por último e não menos relevante, quando partimos para as batalhas de rimas propriamente ditas. A câmera registra, de uma forma bastante orgânica, uma longa batalha de duas MC’s, apresentando a coragem dessas participantes e a riqueza dessa expressão artística.

“Yzalú – Rap, Feminismo e Negritude” (2017), de Inara Chayamiti e Mayra Maldjian

Tal como “As Minas na Batalha“, o curta “Yzalú – Rap, Feminismo e Negritude” também se debruça sobre a mulher periférica, só que aqui concentrando-se em uma única personalidade, que dialoga com tantas outras mulheres negras da periferia.

A proposta de narrar a trajetória de uma artista ainda em acensão é corajosa, como também é corajosa dar a voz do filme exclusivamente a própria documentada, tais objetos que funcionam muito bem e que fogem de estigmas narrativos do gênero. E, para além de funcionar como narrativa, o filme de Inara Chayamiti e Mayra Maldjian se torna também um instrumento de transmissão de ideias, pois como o foco é exclusivamente Yzalú, o documentário concede tempo suficiente para que as suas questões temáticas sejam devidamente abordadas, como o feminismo negro.

“Dzimba dze Mabwe – Casa de Pedra” (2017), de Luiza Gannibal

Realizar um documentário é muito mais do que apontar a câmera e registrar acontecimentos. O filme deve haver um roteiro e ao menos, uma montagem eficiente. E o documentário de Luiza Gannibal, que busca se aprofundar no ancestral instrumento mbira, peca ao não possuir substância narrativa, se agarrando somente ao seu tema para que o filme funcione.

A investigação acerca do instrumento e do povo que o produz e o toca revela interessantes apontamentos culturais através de alguns depoimentos e de rituais locais. Mas por inúmeras vezes o filme perde seu foco narrativo e se confunde entre os personagens, os locais e o objeto documentado.

Infelizmente é um trabalho muito promissor tematicamente, mas que não se sustenta pela falta de um roteiro e uma montagem coesa. Os letreiros que dividem a obra nada dizem e só mostra que o filme estacionou na intenção e não conseguiu entregar muito além disso, uma boa intenção.

“Asfalto – 25 anos de Dead Fish” (2017), de Marcos Okura e Caio Rodriguez

O título do filme se justifica completamente nesse que é uma verdadeira viagem, íntima e sem firulas, na história de uma das bandas mais importantes do Brasil de hardcore melódico.

A montagem é extramente eficiente e consegue complementar todas as entrevistas de uma forma tão orgânica que a linha temporal consegue ser traçada de uma maneira extramente clara. O filme cumpre seu papel ao narrar a trajetória de 25 anos da banda, pois ele se dedica de forma igual aos vários períodos que a banda passou, conturbados ou não.

Os depoimentos são ótimos e sem pudores, pois numa trajetória longa e de várias desavenças, é nítido que surjam inimizades entre integrantes e ex-integrantes da banda. Sendo assim, o documentário dá espaço para que todos marquem presença com suas entrevistas, realizando assim um retrato bastante fiel e apaixonado sobre a carreira do Dead Fish.

O filme funciona bem em todos os aspectos, seja na já mencionada ótima montagem, seja no roteiro e nas animações que apresentam imagens de arquivo. “Asfalto – 25 anos de Dead Fish” é um documentário conciso e a altura da banda retratada, que irá gradar aos fãs e cativar até mesmo quem desconhece o grupo.