Existem histórias que nos comovem pela sua maneira sublime que são contadas, e até mesmo histórias que possuem uma carga dramática elevada podem possuir uma narrativa mais leve, tornando a obra mais palatável ao grande público. Talvez por isso o filme “Insubstituível” (2016), de Thomas Lilti, se tornou um grande sucesso de público, levando milhões de pessoas ao cinema ao redor do mundo, tal como outro grande sucesso francês, o filme “Intocáveis” (2011), de Olivier Nakache e Eric Toledano.

Em “Insubstituível“, acompanhamos a história de um médico de uma cidade rural chamado Jean-Pierre (François Cluzet), que se vê doente e é obrigado a dividir seus afazeres com a doutora Nathalie (Marianne Denicourt), que futuramente irá substituí-lo. No entanto, Nathalie percebe que o processo de adaptação de sua nova rotina não será nada fácil, pois Jean-Pierre é um homem intransigente e também muito adorado na pequena cidade e substituí-lo não será fácil.

O filme se preocupa muito em contextualizar o espectador perante a cidade e seus moradores, logo no início somos apresentados a rotina de Jean-Pierre, que além das consultas realizadas em seu consultório, também faz visitas aos seus pacientes. A edição dinâmica nos mostra nesse momento vários atendimentos sendo realizados e com isso, conhecemos um pouco da personalidade de pacientes que acabarão se fazendo presentes ao decorrer do filme. E, assim como somos apresentados aos personagens por meio da edição, a fotografia nos apresenta a pequena cidade com planos gerais que nos evidenciam uma paisagem rural, com muitas cores e muita vida, fazendo um contraponto aos caminhos que a vida de Jean-Pierre vai tomando.

O filme possui todos os elementos que um dramalhão pede, mas felizmente não é esse tipo de narrativa que vemos em “Insubstituível“, o longa, como dito anteriormente, possui um olhar leve sobre os conflitos, deixando o espectador totalmente confortável durante toda a projeção. Mas tal leveza também pode ser atribuída aos protagonistas que possuem um bela química e fazem o filme fluir bem. O personagem de François Cluzet é aquele famoso arquétipo do homem solitário e bastante reservado, mas que mesmo assim possui um enorme carisma; enquanto a personagem de Marianne Denicourt é muito mais aberta ao mundo e faz um contraponto muito interessante ao personagem de Cluzet, deixando a relação dos dois com uma dinâmica prazerosa de se acompanhar.

O grande trunfo da obra é tratar das relações humanas de uma forma orgânica, sejam elas de médico e paciente, como também a relação entre os protagonistas. Por vários momentos vemos a preocupação de Nathalie com alguns pacientes, pacientes esses que servem para nos evidenciar alguns problemas que nem sempre estão somente relacionados as suas doenças, temos por exemplo uma relação que se constrói entre Nathalie e um personagem com déficit cognitivo e com uma jovem garota grávida, que acaba nos expondo um relacionamento abusivo. Jean-Pierre também possui relações fortes com seus pacientes, mas a mais intensa é sua relação com um paciente idoso que é cuidado em casa e que Jean-Pierre prometeu nunca interná-lo no hospital, deixando claro uma relação de confiança mútua estabelecida ao longo dos anos e mesmo que o filme não tenha nos mostrado isso, a confiança entre os dois nos diz o necessário para enxergar além do período que acompanhamos a trama.

O roteiro possui umas convenções necessárias para a história caminhar e, em alguns momentos parece que a trama irá descambar para um clichê, mas o que acaba ficando só na sugestão e felizmente nada de que é sugerido em algumas cenas é consumado. Embora a relação entre os protagonistas ganhe uma tensão sexual em alguns momentos, o filme não nos tira a imagem de amizade entre os dois, que apesar de ser conturbada se mostra afetuosa ao longo do tempo.

Insubstituível” não está preocupado em levantar e debater grandes temas, embora existam coisas pontuais, como algumas cenas que apontam um machismo de pessoas em torno do trabalho de Nathalie, mas o filme está mais preocupado com as relações de seus personagens e, dentro dessa proposta é um trabalho bastante honesto. É um filme que não se arrisca em momento nenhum em termos de linguagem, é bem conciso e rende bons momentos de humor e leveza, mesmo com todos os dramas que os personagens carregam.

Título Original: Médecin De Campagne
Direção
: Thomas Lilti
Roteiro: Thomas Lilti & Baya Kasmi
Elenco: Christophe Odent, François Cluzet, Marianne Denicourt, Patrick Descamps, Félix Moati, Guy Faucher, Isabelle Sadoyan e Margaux Fabre.
País: França
Ano: 2016
Duração: 102 minutos
Estreia: 9/3/2017