Poucos filmes possuem um olhar tão imersivo quanto “Jeanne Dielman” (Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, 1975), obra-prima da cineasta belga Chantal Akerman. A proposta minimalista de observação da personagem durante três dias em sua vida é algo que, dentro de uma ficção, ainda continua vanguardista mesmo após mais de 40 anos de seu lançamento.

No filme acompanhamos Jeanne Dielman (Delphine Seyrig), uma viúva que vive com seu filho Sylvain (Jan Decorte), numa rotina de afazeres domésticos e de uma ocasional prostituição.

Jeanne Dielman“, a princípio, não é um filme fácil, seus planos longos que registram ações repetitivas podem cansar o espectador mais desavisado, mas o fato é que, ao mergulharmos na proposta do filme, reflexões são trazidas à tona, algo que somente é extraído a partir do olhar atento de Akerman, que não só consegue compreender muito bem a natureza da sua personagem, mas como também traduz o que ela representa em conceitos cinematográficos muito bem estabelecidos.

Os planos estáticos dão à obra o aspecto documental necessário para que a rotina da protagonista se torne crível. O filme capta todas os momentos de sua rotina, a vemos preparar o café, o almoço, a realizar compras e a cuidar da casa. As nuances são reveladoras dentro do contexto feminino, pois sentimos o peso de seu papel social em seus afazeres rotineiros, como por exemplo acordar ainda na madrugada para limpar os sapatos do filho, enquanto o mesmo ainda dorme.

Como se não bastasse o olhar íntimo dos trabalhos domésticos, Akerman ainda introduz outra carga dramática na personagem, que é a prostituição. E é justamente com ela que o filme ganha outra camada e injeta uma discussão altamente relevante, que trata-se da objetificação do corpo da mulher. O que é magistralmente revelado na composição de quadro realizada pela ótima fotografia de Babette Mangolte. Por muitas vezes acompanhamos a personagem em planos conjuntos e planos médios, que absorvem a protagonista no ambiente em que ela está inserinda, enquadrando não só a personagem, mas também os cômodos e os utensílios que os compõe, dando a devida importância para o todo o entorno. Mas, quando partimos para as cenas em que Jeanne recebe seus clientes, o quadro corta a sua cabeça, deixando em cena somente o que interessa naquele momento, o seu corpo. E isso é realizado sem movimento de câmera ou montagem, somente pela posição da personagem em cena, que traduz, sutilmente o seu papel desempenhado naquele instante.

A sábia escolha de não sugerir o tédio e a rotina do personagem, evidenciado cada um de seus movimentos, é crucial para o desfecho da obra, que embora catártico, ainda é contido em sua execução, mecânico como todas as ações da protagonista. Mas o que vale aqui não é como a ação dos momentos finais do filme é realizada, mas sim o que ela traz consigo em seu discurso, que fica em aberto em todos os seus desdobramentos, claramente gerando debates pós-filme. As inesperadas sequências finais podem até soar arbitrárias, mas de fato elas são bem consistentes e foram preparadas desde o início.

Jeanne Dielman” é um filme que é construído em suas nuances, todo ato, por mais banal que seja, propõe uma reflexão sobre o papel da mulher na sociedade e neste caso, dentro de seu recorte, a mulher de meia idade, viúva e de classe média. O brilhantismo da atuação de Delphine Seyrig só complementa a obra, o arco gradativo da personagem é sentido através de pequenos detalhes na movimentação e no olhar da atriz. E, juntamente com Akerman, constroem um manifesto cinematográfico-feminista, que é assustadoramente complexo em sua simplicidade.