Zé do povo! É o que José Mojica diz ao nos apresentar o grande personagem Zé do Caixão, que se solidificou no coletivo popular brasileiro. Apesar do sucesso de público desde “À Meia-Noite Levarei a Sua Alma“, o Zé do povo que se confunde muitas vezes com a imagem do próprio Mojica, foi um personagem que era a última cartada de um cineasta que era apaixonado pelo que fazia.

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Mojica nasceu em São Paulo no ano de 1936 e podemos dizer que desde pequeno sua vida girou em torno do cinema. Sua família morava nos fundos de um cinema, no qual seu pai era gerente, portanto Mojica cresceu consumindo filmes e aprendendo com eles. Desde cedo fazia suas pequenas produções e já demonstrava que sabia o que estava fazendo, mesmo sem estudos didáticos. Foi então na década de 1950 que Mojica começou a produzir profissionalmente, depois de seus pequenos experimentos e um filme inacabado de 1955 que se chamaria “A Sentença de Deus”, em 1958 é lançado “A Sina do Aventureiro”, um faroeste tipicamente brasileiro, mas claramente inspirado nos westerns americanos.

Estava dada a partida para uma carreira brilhante de um nome que infelizmente não alcançou seu lugar no Brasil como um grande cineasta, coisa que acontece no exterior, onde Mojica é considerado um grande gênio do cinema. Apesar do sucesso, sua carreira sempre foi conturbada, com filmes realizados com pouco orçamento, brigas com a ditadura militar brasileira, tentativas de se manter no mercado cinematográfico como diretor de filmes pornográficos, tentativas de voltar a fazer terror e conseguir se manter financeiramente. É uma pena que a mídia nos mostre Mojica como uma figura engraçada, e é triste pensar que Mojica teve que se submeter a essa imagem para conseguir seus trocados. Triste, mas totalmente compreensível.

Antes ainda de criar seu personagem icônico, Mojica fez um drama familiar  chamado “Meu Destino em Tuas Mãos”, lançado em 1963. O filme conta a história de crianças que eram abusadas e sofriam violências por seus familiares em suas casas e resolvem abandonar os lares e partir para as ruas de São Paulo. O filme inicialmente surgiu com a ideia de Augusto de Cervantes (produtor que era figurinha carimbada nas pornochanchadas da década de 1970 e 1980), para agradar os padres. Nesse quesito o filme foi bem, mas se tratando de bilheteria foi um desastre, o que deixou José Mojica em uma situação complicada para realizar filmes. E desde então decidiu que não iria mais fazer filmes somente para agradar aos outros.

Mas como seu destino no cinema estava traçado, um fato curioso aconteceu com Mojica e que é descrito maravilhosamente em sua biografia chamada “Maldito”. Em um pesadelo, ou em um sonho revelador (escolham como queiram), Mojica se viu sendo levado por um coveiro que tinha a sua própria imagem, ele gritava enquanto era carregado pelo cemitério por esse sujeito que era ele mesmo vestido totalmente de preto. Foi quando ele viu sua lápide e foi arremessado para sua tumba, nesse momento ele acordou suado e ofegante, tinha sido um pesadelo horrível para Mojica e a sensação de horror ficou em sua cabeça. Depois de ficar com a cena em sua memória, Mojica decidiu que isso precisava ser transmitido no cinema, queria passar para o espectador o mesmo horror que o havia vivenciado em seu pesadelo. E foi aí que Mojica teve a ideia de filmar o primeiro filme de terror brasileiro. A fagulha estava dada, agora era preciso trabalhar no roteiro, nos detalhes das filmagens e o mais necessário, o dinheiro para isso tudo.

c3a0-meia-noite-levarei-sua-almaMojica foi corajoso para realizar aquele que seria o primeiro filme de terror nacional e o primeiro filme da trilogia do Zé do Caixão. Ele implorou para sua mulher ir morar com os pais para cortarem os custos do aluguel, foi morar no estúdio de filmagem, vendeu toda a mobília com grande parte de suas roupas, seus pais venderam o carro para ajudarem no orçamento e  ele começou a vender cotas dos filmes para seus alunos. Mojica estava alucinado e estava fazendo de tudo para filmar, ele tinha certeza que o filme seria um sucesso e que conseguiria recuperar todo o dinheiro investido.

Depois que as coisas estavam se acertando para começar a filmar, Mojica teve problemas para encontrar o ator para interpretar o impiedoso agente funerário Zé do Caixão. E assim começaram os testes para decidir quem ficaria com o papel principal, mas Mojica não estava satisfeito, ninguém conseguia transmitir a imagem que ele tinha do personagem. E foi em um momento de fúria, onde ele não aguentava mais fazer os testes para o papel, que ele disse que ele próprio faria Zé do Caixão! Estava feito, nascia ali o temível Zé do Caixão como conhecemos!

Mas havia outro problema ainda, Mojica não tinha uma dicção adequada para interpretar o personagem e ainda tinha problemas para dizer palavras no plural. Apesar de todos os filmes da época serem dublados pelos próprios atores, Mojica teve que procurar outro dublador para fazer a voz de Zé do Caixão. E foi assim que em 1964, Mojica chocou o espectador levando aos cinemas o filme “À Meia-Noite Levarei a Sua Alma”, onde infelizmente Mojica não recebeu muito da arrecadação do filme, apesar de ser um sucesso de público, pois tinha vendido os direitos do longa.

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Josefel Zanatas estava a solto, um personagem chave nos filmes posteriores de José Mojica Morins.

“Eu fui achando um nome: Josefel – “fel” por ser amargo – e achei também o Zanatas legal, porque de trás para frente dava Satanás”.
— José Mojica Marins