O audiovisual sempre se apropriou de histórias trágicas para vender mais, seja no cinema, ou mais vergonhosamente na TV com programas sensacionalistas e de mau gosto. Mas notoriamente toda essa exploração de conteúdo se reflete na ânsia da sociedade por esse tipo de material. E é de uma maneira muito coesa e interessante que o documentário “Kate Plays Christine” (2016), de Robert Greene, levanta esses questionamentos.

O filme parte de uma premissa bastante simples, que é acompanhar o trabalho de pesquisa que a atriz Kate Lyn Sheil faz para compor a sua personagem, que é baseada na repórter Christine Chubbuck, que cometeu suicídio em rede nacional em 1974, no estado de Minesota, no norte dos E.U.A.. 

Na primeira impressão parece que iremos acompanhar um grande making of, na qual Kate vai construindo sua personagem conversando com pessoas próximas de Christine, procurando por imagens e vídeos da repórter e montando seu figurino para ficar parecida com a personagem que ela irá retratar. Mas para a nossa grata surpresa, o filme rapidamente foge desse estigma e começa a inserir profundidade temática nas ações de Kate

Na maior parte do momento a câmera está a serviço de Kate, nós não desgrudamos os olhos dela, criando uma atmosfera interessante de observação. E a medida que Kate vai entrando na personagem vemos a sua transformação e como o seu envolvimento com o papel vai ficando cada vez mais intenso. No começo Kate começa a usar as roupas parecidas com a de Christine, passando por uma transformação que vai desde o cabelo com uso de peruca e até dos olhos com uso de lentes de contato. Se no começo Kate estava um tanto quanto segura para embarcar na vida dessa personagem, a medida que ela vai entrando na vida da falecida Christine as angústias e os questionamentos vão surgindo.

Kate, assim como grande parte do elenco da ficção que eles estão rodando não conheciam a verdadeira história de Christine, ou se conheciam só sabiam do trágico suicídio cometido por ela, porém todos possuem uma opinião forte, que tenta explicar o real motivo que levou a jornalista a se matar em rede nacional, fato que nos deixa atônitos e que também perturba Kate. O filme segue numa linha narrativa interessantíssima, mesclando cenas de entrevistas, sejam elas realizadas por Kate com pessoas que conviveram com Christine ou pelos outros atores que contam diretamente para câmera um pouco sobre as suas experiências como atores e sobre o projeto ficcional em si, que reconta essa trágica história. o filme também faz uma brincadeira interessante entre ficção e documentário, o que poderia parecer banal e sem função narrativa, aqui faz todo o sentido ao acompanharmos os passos de uma atriz, o que dá liberdade para esse tipo de linguagem dentro do documentário.

E  a inserção de Kate na personagem é muito interessante de se acompanhar, pois entramos num processo de criativo de uma atriz muito comprometida com seu papel. Ela lê livros sobre depressão, visita o lugar que Christine comprou a arma para se matar e conversa sobre o ocorrido com pessoas do jornalismo televisivo. Obviamente isso reverbera na vida pessoal de Kate e também para o filme, o que é a grande sacada da obra. Kate começa a se questionar se contar essa história realmente possui sentido, já que eles estavam revirando o passado de uma pessoa comum e que talvez o maior feito de sua vida tenha sido se matar ao vivo na televisão, pois ao decorrer do filme descobrimos que Christine tinha conflitos editoriais com seu chefe, já que ela era contra as matérias apelativas e violentas, o que torna tudo mais intrigante e tristemente irônico.

O papel da mídia também é posto em cheque pela própria postura que Christine tinha, que ironicamente é lembrada por um ato que tanto repudiava na televisão. O que dá margem para o filme levantar outra questão, que é o sadismo da sociedade, pois no dia em que ela se matou, pediu para gravarem o jornal em fita, fato que não era corriqueiro no canal, portanto existe sim um vídeo de Christine cometendo suicídio, que está muito bem seguro nos cofres da emissora. Mas o fato de existir tal registro gera uma busca incessante por parte das pessoas por essas imagens, o que nos leva a refletir sobre a nossa necessidade, quanto pessoas modernas, de ver acontecimentos tão trágicos.

O final de “Kate Plays Christine” é arrebatador, é construído uma atmosfera angustiante em torno da cena, no qual Kate está para gravar o ato do suicídio e ela o repete por diversas vezes. Como se não bastasse todo esse clima que a cena traz, ela levanta explicitamente todas as questões que o filme estava levantando até então, questionando a própria obra de usar uma história tão trágica e vendê-la para satisfazer a curiosidade do público, além de revirar a vida de Christine, que era uma pessoa complexa e que também tinha seus problemas como qualquer outro, resumir sua vida com problemas pontuais de saúde e relacionamento e buscar uma justificativa para seu suicídio aparenta ser só um mecanismo para o filme recriar a cena onde ela se matou, além de reduzir a vida inteira de uma pessoa a somente um ato, tal abordagem não possui ética. Vale lembrar que a ficção que estava sendo construída era algo melodramático, voltado para o sentimentalismo barato, como algumas novelas que conhecemos, o que faz tal reconstituição soar pior do que o habitual.

Sendo assim, “Kate Plays Christine“, é um filme poderoso, que levanta tantos questionamentos à partir da visão de uma atriz que estuda para compor um personagem. É um filme também como uma linha narrativa muito original, que brinca com as possibilidades de linguagem que o documentário possui, onde nos perguntamos se determinada ação é encenada ou não, misturando ficção com documental numa linha estreita. No fim, saímos da sessão nos questionando sobre o que consumimos na mídia televisiva e até mesmo no cinema, onde está a ética em determinadas produções? A arte tem permissão de se apropriar de determinadas histórias tão particulares? Por que a violência chama tanta atenção e gera tanta audiência? Obviamente ele não nos responde essas questões, e nem era essa sua proposta, “Kate Plays Christine” é acima de tudo um filme questionador e deveras necessário para tentarmos refletir e talvez nos compreender quanto sociedade moderna.