Kenji Mizoguchi (1898-1956) é, sem dúvidas, um dos pilares do cinema clássico japonês. Suas obras convidaram o mundo a olhar para a cinematografia japonesa por um novo prisma, que iam na contramão dos populares filmes que eram apresentados nas sala de cinema fora do país.

Mizoguchi, que realizou dezenas de filmes, se mostrou bastante versátil em sua carreira, realizando filmes que, embora possuíssem alguma semelhança temática em sua boa parte, sempre experimentava nossas perspectivas em suas narrativas, nunca estagnando e sempre expandindo a linguagem de suas obras. Sua carreira foi acompanhada de uma constante mudança na forma de contar histórias.

A influência de um realizador tão importante se estendeu para além das fronteiras japonesas e reverbera até hoje, seu nome é reverenciado constantemente por estudiosos, críticos, cinéfilos e novos cineastas. Mas, se existe um diretor que sempre demonstrou devoção aos filmes de Mizoguchi, esse foi Kaneto Shindō (1912-2012), que iniciou sua jornada no cinema como assistente de direção do cineasta, com quem aprendeu a escrever roteiros e obviamente, a trabalhar com cinema.

Shindō também possui uma filmografia sólida, tendo realizado obras fundamentais para o cinema de horror japonês, como “Onibaba – O Sexo Diabólico” (1964) e “O Gato Preto” (1968), filmes que, de alguma forma, remetiam ao eixo central das obras de Mizoguchi, que é o papel social da mulher na sociedade japonesa. Mas o seu apreço com o trabalho de Mizoguchi veio de forma mais explícita em “Kenji Mizoguchi: A Vida de um Diretor de Cinema” (Aru Eiga-Kantoku No Shogai, 1975), documentário bastante íntimo sobre o processo criativo do cultuado cineasta.

O documentário é bastante direto em seu tema, não perde tempo em rodeios para chegar diretamente ao objeto que ele pretende retratar, que é a obra e vida de Mizoguchi. A cartela de letreiros iniciais contextualizam o filme e, de forma objetiva, partimos para uma viagem bastante próxima dos bastidores das obras do diretor. O filme se inicia com planos que mostram o hospital que o cineasta faleceu, em Quioto, onde percebemos, através de um inusitado diálogo, a importância do cineasta para a cidade, tema que o filme abordará novamente em sua projeção, se aprofundando nesse conceito de cidade-realizador e vice-versa.

A linguagem usada por Shindō para compor o documentário é tão orgânica que os 150 minutos de filme não são sentidos como poderia se esperar. Ele, sempre muito próximo dos entrevistados, onde muitas das vezes até se faz presente no quadro, busca, através das memórias das pessoas, uma biografia não autorizada do cineasta, por assim dizer. São revelados situações inusitadas, como fatos curiosos dos sets de filmagens e até de como era a relação da equipe com o diretor.

Kaneto Shindō entrevista, além de pessoas envolvidas na produção técnica dos filmes de Mizoguchi, as atrizes que protagonizaram suas obras. E, curiosamente, nos é revelado como ele era duro e cruel com as mulheres com quem trabalhava. Embora tudo seja dito da forma mais cordial e respeitosa possível, como de costume na cultura japonesa, fica claro que o tal perfeccionismo do cineasta se traduzia em abuso psicológico aos mais próximos. O que acaba desmistificando o homem por trás de filmes com temas femininos tão contundentes, que aliás não passou de uma escolha meramente comercial, a princípio. A temática feminina característica de suas obras foi inicialmente determinada pelo estúdio, mas que também não tira o mérito da forma como Mizoguchi refletiu e tratou o tema.

O filme, além de se aprofundar na persona de Mizoguchi, faz uma jornada cronológica na obra do cineasta. Nos é apresentado como ele se envolveu com cinema, como foram seus primeiros filmes, como ele foi ganhando a alcunha de grande autor e como seus maiores clássicos foram realizados. Além de traçar a linha cronológica de sua obra, o filme também pontua momentos da vida pessoal do cineasta, como o da morte de sua esposa e claro, de seus últimos momentos de vida, que é bem tocante.

Kenji Mizoguchi: A Vida de um Diretor de Cinema” é um filme perfeito para quem procura conhecer mais sobre a vida e obra de um dos maiores cineastas de todos os tempos. A riqueza de detalhes extraída das entrevistas nos aproxima não só de Mizoguchi, mas também dos próprios entrevistados, que falam sobre o diretor com paixão, temor, nostalgia e admiração. Uma obra tão profunda e tão intimamente rica só poderia ser realizada por um profundo admirador do cineasta e por alguém tão próximo. A sensação de que temos ao final é que acabamos de assistir a um filme de um grande cineasta sobre outro grande cineasta e que, com certeza, é a obra cinematográfica definitiva sobre Kenji Mizoguchi, que por sinal é tão singela e forte como as obras-primas do reverenciado.