A filmografia do cineasta norte americano Darren Aronosfky é recheada de obras fortes e que causam um estranhamento por parte do público, seja em “Réquiem para um Sonho” (2001), que mostra a decadência humana através dos mais variados vícios; ou seja em “Pi” (1998), seu claustrofóbico filme de estreia, que possui uma narrativa extramente densa; ou até mesmo em “O Lutador” (2008), que propõe um estudo de personagem que está deslocado no tempo em que vive.

Seus filmes, quando mais autorais, sempre possuem personagens carregados e que, de uma forma ou outra, extrapolam o campo imagético e nos assombram com suas angústias.

Em “Mãe!” (Mother!, 2017), Darren Aronosfky escreve e dirige um filme que não é fácil de digerir e que pode se firmar como um clássico moderno através dos debates que a obra levanta, tal como sua elaborada narrativa sufocante.

No filme, a relação de um casal (Jennifer Lawrence e Javier Bardem) é testada quando visitantes não esperados chegam à sua casa e atrapalham a tranquilidade da família, causando estranhamento e desconforto.

Primeiramente, falar sobre “Mãe!” pode ser uma tarefa difícil, por ser uma obra muito sensorial e repleto de alegorias, mas, mesmo dentro de uma obra tão alegórica, onde qualquer informação a mais pode estragar a experiência do espectador, é preciso destacar alguns pontos que fazem o filme ser tão contundente em sua proposta.

A ambientação é o alicerce do filme, pois é através do clima que a obra possui, que mora toda a densidade e toda sua tensão. Isso se dá graças a alguns fatores cruciais, que passam pela fotografia até ao o trabalho de edição de som, que por sua vez, dão todo o sustento necessário para que as peculiaridades de seus personagens fiquem mais evidentes.

A fotografia é repleta de planos detalhe nas mãos, nos olhos e na nuca da protagonista, além de acompanhar a personagem na maioria das vezes em primeiros plano, dando a sensação de angústia e desconforto que ela sente ao decorrer da trama. Existem poucos planos gerais, mas que são usados em momentos chaves da narrativa, geralmente para aliviar a tensão criada e para estabelecer uma ambientação perante a casa em que o filme se passa. O tom granulado da fotografia e sua cores frias transmitem o aspecto de horror que o filme carrega, que vai ficando cada vez mais perturbador a medida que a trama avança, mas não por vias convencionais, que expõem com clareza o desconforto, pois Darren faz questão de ir pelo caminho contrário, causando apreensão através uma estranheza peculiar e das confusas situações, que parecem sempre não possuir uma lógica clara.

O som do filme se mostra inventivo em sua execução, pois ele faz o papel de uma suposta trilha sonora sufocante. A ambientação que a edição de som traz, faz o filme se aproximar ao máximo de um horror psicológico. O ranger das madeiras da casa, os vidros se quebrando e os demais elementos sonoros vão muito mais além do que o convencional e causam o desconforto necessário que o filme pede.

Os personagens são muito bem construídos, entregando o essencial para que cada um carregue consigo um aspecto misterioso. A personagem de Jennifer Lawrence se revela confusa, desorientada e com dificuldade de se impor, além de também possuir um aspecto de pureza, que é reforçado pelas roupas brancas que ela usa. A personagem representa o alicerce de uma estrutura familiar, que pode ser encarada de forma literal e também simbólica. O olhar e as percepções do espectador se dão através da protagonista, que se mostra confusa meio as situações que vivencia. A medida que o filme avança, mais camadas são inseridas na personagem, que incluem medo e uma estranha adoração por seu marido.

Enquanto a personagem de Jennifer Lawrence se mostra confusa na maior parte da trama, o personagem de Javier Bardem é uma verdadeira incógnita, por possuir várias camadas e de forma alguma ser unilateral, na qual se mostra ao mesmo tempo como alguém bondoso, benevolente e um bocado egoísta. Além dos personagens principais citados, pode-se dizer que a casa também é um importante personagem no filme, que possui um forte sentindo alegórico na trama.

A atuação de Jennifer Lawrence é extremamente competente e caminha numa crescente ao longo do filme, os sentimentos da personagem são entregues de uma forma bastante física. É com certeza um dos trabalhos mais intensos da carreira da atriz, que consegue levar o filme pra si de uma forma bastante orgânica. O elenco de apoio também é muito funcional, o personagem de Ed Harris carrega consigo um aspecto dúbio e ameaçador, enquanto Michelle Pfeiffer entrega uma personagem provocante e dissimulada.

O clima denso e de tensão vai aumentando gradativamente, a montagem vai ficando cada vez mais frenética a medida que o filme avança, tal como vista nos primeiros filmes do cineasta, que foi batizada de hip-hop montagem. A crescente tensão do filme segue até o fim do segundo ato, quando ele parece se encaminhar para um final, perdendo um pouco do ritmo até então estabelecido. A partir do terceiro ato, o forte aspecto de densidade volta com mais força, embora o filme fique com a impressão de descontinuidade quando o olhamos em retrospecto. Mas, mesmo com a clara quebra de ritmo, o filme recupera a sua força no ato final e entrega uma sucessão de cenas sufocantes que se mostram cada vez mais grandiosas, ressignificando totalmente o ambiente até então apresentado.

Se os dois primeiros atos as metáforas do filme eram mais sutis, no terceiro ato elas ficam mais expositivas. Mas, mesmo assim, a força temática do filme não se perde, pois a proposta do cineasta não é somente fazer um filme alegórico, mas sim levantar questões através de uma alegorias central. Pontos como o significado da figura materna, o papel da mulher meio à vida e onde a mesma acaba ocupando, além de também levantar temas como o sentido da adoração e o que isso se reflete na figura adorada.

Mãe!” é, sem sombra de dúvidas, uma das grandes estreias do ano, é um filme forte, denso e alegórico, na qual se propõe a debater vários temas de uma só vez, o que pode soar um tanto quanto confuso a primeira vista. Mas, na verdade, Darren Aronofsky está mais preocupado em levantar reflexões com as camadas que o filme possui, revelando um cinismo sombrio sobre os anseios da humanidade, que por sua vez é carregado de um humor estranhamente ácido e de um horror calcado no absurdo.

Título Original: Mother!
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson
Fotografia: Matthew Libatique
Produção: Darren Aronofsky
País: Estados Unidos da América
Ano: 2017
Duração: 121 minutos
Estreia: 21/9/2017
Distribuição no Brasil: Paramount