É assustadoramente incrível como não conhecemos a nossa própria história, como nossa visão acerca de determinados períodos históricos é superficial, como nosso sentimento em relação a certas culturas é tão indiferente. Vivemos na famosa era da informação, mas nos falta muito para enxergamos a verdadeira amplitude de um conflito de forças totalmente desiguais e que vem se desdobrando através de décadas a fio. Nos falta a compreensão por completo da questão indígena brasileira, o que gera indiferença e, portanto, a total falta de empatia com um povo que segue sendo exterminado diariamente em terras brasileiras.

A importância de um filme como “Martírio” (2016), de Vincent Carelli e codirigido por Ernesto de Carvalho e Tita, é gritante, pois é através das lentes desse documentário que é exposto uma luta legítima de índios por suas terras, que por tantas vezes são taxados como pessoas sem cultura e que invadem terras produtivas e que, consequentemente, atrasam o desenvolvimento econômico do país. Mas como chegamos a esse ponto do esquecimento total de um povo? Ou como chegamos nesse intenso conflito por terras? Ou até mesmo, o que é ser um índio? Tais pontos são investigados em “Martírio“, através de observações de acontecimentos bárbaros.

Martírio” possui uma amplitude gigantesca em seu tema, ao mesmo tempo em que Carelli e sua equipe acompanham de perto a luta dos Guarani Kaiowá no sul do país, o filme nos contextualiza, nos levando a períodos históricos que atravessam os séculos, tudo para nos dar um panorama completo de toda a trajetória indígena e como o governo, em diferentes épocas, procuraram extinguir os índios de alguma forma, seja ela através de assassinatos ou através de programas que os faziam perder suas identidades e suas terras. Tudo em nome de um progresso econômico.

Não seria absurdo comparar a importância de “Martírio” com “Shoah” (1985), de Claude Lanzmann – documentário amplo sobre o holocausto nazista, por exemplo. Os dois filmes mergulham em seus temas e através de suas investigações, expõem realidades cruéis que, embora acreditamos conhecer, são mais assustadoras do que possamos imaginar. Mas, se o comparativo de “Martírio” com a obra de Lanzmann é válido, também é válido dizer que as obras de Carelli possuem o mesmo peso que as obras do documentarista chileno Patricio Guzmán, enquanto Guzmán se debruça no tema do extermínio do povo chileno, seja através de ditaduras ou dos processos de colonização, Carelli narra a história do Brasil através da perspectiva indígena, como ele mesmo define, evidenciando também o extermínio.

As primeiras cenas do filme são de imagens de arquivo, são filmagens do próprio Carelli em 1988. Nessa cena, índios se reúnem e discutem, embora não consigamos entender uma palavra sequer, é fato que estão debatendo sobre os conflitos com os latifundiários. Aqui, é usado um artefato narrativo interessantíssimo, pois nesse momento, as conversas dos índios não possuem legendas e, mesmo que o próprio Carelli diga que tais palavras ficaram anos sem tradução, justificando a falta de legendas, dá pra se fazer um paralelo entre a distância da esmagadora maioria da população com a questão indígena, já que não compreendemos suas culturas e suas reivindicações. Sabiamente, tal cena é mostrada mais a frente no filme, mas dessa vez com legendas, passada toda a contextualização realizada pela narrativa e, assim, podemos compreender toda a trajetória dos índios e então também compreender o que eles diziam naquele momento, palavra por palavra. E eis que uma frase vinda de um índio ecoa: “O que tá pegando a gente é o capitalismo“. E é nessa denúncia de extermínio justificada por fatores econômicos que o filme explora.

A obra possui uma narração em off de Carelli que a acompanha até o final, ele nos apresenta várias informações relevantes que passeiam pela história do país. Começamos com a Guerra do Paraguai, no final do século XIX, onde índios foram obrigados a lutar na linha de frente. Passamos também por processos de escravização dos povos indígenas, passamos pela era Vargas e pela ditadura militar, onde a palavra em comum que cercava esses períodos era “aculturamento”. Com o passar dos anos, índios perdiam cada vez mais as sua identidades com o propósito de servir ao capital.

O extermínio dos Guarani Kaiowá se dá das mas variadas formas, começando no começo do século XX com a tentativa de extinguir as culturas ancestrais dos índios, os forçando a se adequar a um modelo de vida etnocêntrico europeu e posteriormente passando a assassiná-los, a quantidade de túmulos que existem nas fazendas é gigantesca, são de fatos grandes cemitérios indígenas. Outro fator que o filme expõe e que também é assustador é a grande quantidade de índios que se suicidaram ao decorrer das décadas de conflito, tudo isso pelas condições de vida que acabaram se submetendo.

A montagem do documentário vai desde as cenas que contextualizam os períodos históricos, passando por entrevistas e cenas de observação, dando ao filme várias facetas em questão de linguagem, mas o que poderia soar como arbitrário acaba funcionando e cada uma dessas faces do filme conversam entre em si, deixando assim, o documentário, o mais completo possível.

O filme nos mostra como o governo é um dos grandes culpados pela expropriação das terras indígenas, por muitas vezes o filme nos joga dentro do Congresso para vermos depoimentos nojentos de parlamentares. Tal como o de Kátia Abreu, que abre o filme, onde ela diz que após lutar contra o MST e o Código Florestal, a bancada ruralista, juntamente com os representantes do agronegócio, precisariam enfrentar os índios, que são tratados como invasores de terras. “Martírio” possui outras inúmeras cenas chocantes e repugnantes, mas é totalmente assustador acompanhar os depoimentos da famigerada bancada ruralista, são discursos repletos de ódio, distorcidos e desumanos, todos com a ideia de se “defenderem através de armas de fogos contra os invasores“. Dificilmente vemos um discurso lúcido, como é mostrado na fala do deputado federal Ivan Valente (PSOL), onde é vaiado incansavelmente pela maioria dos parlamentares da casa.

Por se tratar de uma obra que vai a fundo em sua investigação, “Martírio” é um filme longo, com quase três horas de duração, mas que são totalmente justificáveis. Por conta da duração e pelos acontecimentos que são denunciados, o filme acaba se tornando uma obra difícil de ser digerida, o que é bastante compreensível, pois as atrocidades aqui expostas ainda acontecem e índios são assassinados a sangue frio em uma época onde muitos negam que extermínios ainda possam existir. Não foi à toa que o filme recebeu o prêmio do público de melhor documentário brasileiro na 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo no ano passado, pois é um filme que também sensibiliza. E, assim como o diretor e os índios entendem a importância da produção desse filme, o espectador também acaba entendo, e isso fica muito claro numa das falas do cineasta com uma índia, onde ele diz que o governo não consegue e não irá se aproximar deles e, um dos meios de luta é conscientizar a população através de filmes como esse, já que a mídia hegemônica não os retrata de forma digna.

Martírio” é com certeza o documentário mais amplo sobre o extermínio dos Guarani Kaiowá que já foi produzido, a sua amplitude investigativa o torna tão fundamental que já o coloca entre o panteão dos grandes filmes nacionais. É um filme urgente, que precisa ser assistido, digerido e debatido. É preciso desconstruir toda uma figura alegórica que possuímos dos índios e compreender as suas lutas legítimas contra o agronegócio, mas diferentemente do que nos é vendido através de discursos de políticos retrógrados, os índios não querem destruir a economia brasileira, eles só querem o que são deles por direito, as terras para continuar vivendo e garantindo que seus povos, suas culturas e religiões sobrevivam através do tempo.

Tekoha!

Título Original: Martírio
Direção
: Vincent Carelli (Co-direção: Ernesto de Carvalho e Tita)
Roteiro: Vincent Carelli, Tita
País: Brasil
Ano: 2016
Duração: 160 minutos
Estreia: 13/4/2017
Distribuidora: Vitrine Filmes – Sessão Vitrine Petrobras

Avaliação
  • 9.5/10
    Martírio (2016), de Vincent Carelli - 9.5/10
9.5/10

Resumo

“Martírio” é com certeza o documentário mais amplo sobre o extermínio dos Guarani Kaiowá que já foi produzido, a sua amplitude investigativa o torna tão fundamental que já o coloca entre o panteão dos grandes filmes nacionais. É um filme urgente, que precisa ser assistido, digerido e debatido.