Entre os cinéfilos muito se fala de filmes clássicos e diretores renomados que deixaram as suas marcas na sétima arte, como Ingmar Bergman, Akira Kurosawa, Yasujirō OzuFederico Fellini, Stanley Kubrick e tantos outros. Mas o fato é que temos grandes cineastas ainda em atividade, que já possuem uma carreira com obras magníficas e que já entraram pra história recente do cinema.

Com essa série de publicações, vou listar os cineastas que produzem ótimos filmes e que ainda estão ativos fortemente no meio cinematográfico.

Michael Haneke

michael-hanekeHaneke nasceu na Alemanha em 1942 e antes de se aventurar no cinema estudou psicologia, filosofia e teatro na Universidade de Viena, fato que contribui até hoje para a profundidade de suas obras. Após realizar alguns filmes para televisão, Haneke estreou no cinema em 1989 com o filme “O Sétimo Continente” (1989), um drama familiar rodado na Áustria. Ele seguiu sua carreira com produções que chamavam a atenção da crítica, como “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso” (1994), “Violência Gratuita” (2000) e “Código Desconhecido” (2001). Mas foi em 2001, com o filme “A Professora de Piano” (2001) que ele conseguiu sucesso internacional, começando uma carreira premiada internacionalmente.

Em 2005 Haneke ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes pelo filme “Caché” (2005), após isso ele iniciou uma refilmagem de seu filme “Violência Gratuita” nos E.U.A., com Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt no elenco. Em 2009 Haneke ganhou a Palma de Ouro de melhor filme no Festival de Cannes pelo filme “A Fita Branca” (2009), consagrando de vez seu nome dentre os grandes do cinema.

A Fita Branca” faz um estudo severo nas relações de poder entre personagens de um vilarejo no norte da Alemanha, em 1913. A trama se passa nas vésperas da primeira grande guerra e mostra como a educação familiar interfere diretamente na condição social e política de um país. O filme foi rodado inteiramente em preto e branco, numa fotografia que transmite a frieza dos personagens para a tela. Com certeza é o trabalho mais aclamado de Haneke.

Em 2012 é lançado “Amor“, que assim como seu filme anterior, recebe o prêmio máximo do Festival de Cannes, dando à Haneke mais uma Palma de Ouro de melhor filme. “Amor” também teve uma ótima carreira internacional, ganhando o Oscar de melhor filme estrangeiro e também indicando a atriz Emmanuelle Riva na categoria de melhor atriz.

O novo filme de Michael Haneke se chamará “Happy End” e já está em fase de pós-produção, com previsão de estreia para 2017.

“A Fita Branca” (2009)

 

Asghar Farhadi

asghar-farhadiUm dos grandes nomes do cinema iraniano da atualidade, Asghar Farhadi nasceu em 1972 e estudou teatro na Universitdade de Teerã. Farhadi começou a se aventurar no cinema com experimentos realizados em super 8 e em 16mm, logo após começou a escrever roteiros para televisão.

Mas foi só em 2003 que Farhadi produziu seu primeiro longa: “Dancing in the Dust“, que recebeu alguns prêmios em festivais ao redor do mundo. Farhadi prosseguiu sua carreira lançando filmes que sempre eram muito bem recebidos pela crítica, como “Beautiful City” (2004) e “Fireworks Wednesday” (2006), mas foi em 2009 que Farhadi se consagrou diante a crítica cinematográfica com o filme “À Procura de Elly” (2009), recebendo o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 2009.

Em 2011 Farhadi lançou o filme “A Separação“, um enorme sucesso de crítica e de público. Com “A Separação“, Farhadi recebeu o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim de 2011, além de receber o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar. Em “A Separação”, acompanhamos o ponto de partida do processo de separação de Simin e seu marido Nader, que desencadeia em uma série de conflitos. Nesse filme, Farhadi vai fundo no estudo de personagens, deixando clara as contradições ideológicas que cada um possui, fazendo um estudo não só do caráter humano, mas das relações sociais do Irã.

Após o enorme sucesso de “A Separação“, é lançado em 2013 o filme “O Passado“, que apesar de ter tido uma recepção mais morna do que seu antecessor, também foi um grande sucesso de crítica, recebendo inúmeros prêmios em festivais e sendo indicado na categoria de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro em 2014. “O Passado” conta a história de Ahmad (Ali Mosaffa), que retorna à Paris a pedido de Marie (Bérénice Bejo), sua esposa francesa, que insiste que seu marido termine o seu processo de divórcio. Assim como em “A Separação“, nós nos deparamos com uma realidade crua, cheia de relações complexas, onde mais uma vez Farhadi faz um estudo profundo de personagens, mostrando todas as suas complexidades.

No Festival de Cannes nesse ano, Farhadi lançou seu mais novo filme: “Forushande” (2016), dentro da mostra competitiva. E após inúmeras críticas positivas ao filme, Farhadi recebeu o prêmio de melhor roteiro e Shahab Hosseini recebeu o prêmio de melhor ator. “Forushande” tem seguido uma ótima carreira em festivais internacionais e já é o filme selecionado do Irã para representar o país no Oscar 2017,  sacramentando de vez o estilo narrativo de Asghar Farhadi, o deixando entre os grandes cineastas autorais da atualidade.

No momento Asghar Farhadi já está envolvido em um outro filme, que está em pré-produção, e que deve figurar entre os grandes festivais em 2017.

“A Separação” (2011)

 

Naomi Kawase

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Naomi Kawase nasceu em 1969 em Nara, no Japão. Seus filmes são repletos de memórias e afetos, pois a sua relação com o mundo sempre se deu à partir desses sentimentos. Seus primeiros trabalhos refletiam sobre a sua vida na infância e adolescência, pois Naomi foi abandona por seu pai quando era criança, sendo criada pela sua tia-avó. Naomi retrata isso em “O Sorvete do Papai” (1988) e mais fortemente em sua trilogia composta pelos filmes “Katatsumori” (1994), “Ten, Mitake” (1995), “Hi Wa Katabuki” (1996), onde a relação com a sua tia-avó é retratada.

Desde jovem, com seus filmes em 16mm, Naomi já possuía uma linguagem própria de narrativa, sendo em ficção ou documentário, onde a relação das pessoas e as locações compõem toda a trama, formando assim uma simbiose, entregando ao espectador filmes repletos de sentimentos e com um lindo vislumbre visual.

Seu primeiro longa de ficção foi o aclamado “Suzaku” (1997), no qual Naomi recebeu o prêmio Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1997, prêmio destinado aos melhores filmes de diretores estreantes. Na trama acompanhamos o drama de uma família que mora no vilarejo de Nishiyosino-mura, onde após vários acontecimentos se estabelece uma crise financeira no local, transformando assim as relações.

Sua ficção que veio logo em seguida, chamada “Firefly” (2000), foi exibida dentro da mostra competitiva do Festival de Locarno em 2000, onde Naomi recebeu dois prêmios. Em “FireflyNaomi mais uma vez fala sobre relacionamentos, dessa vez focando na história de Ayako (Yûko Nakamura), que sofre de depressão após passar por um aborto e por um relacionamento abusivo, segundo Naomi esse é o seu filme que ela mais tem apreço, chegando a relançá-lo em 2009 com quase uma hora a menos.

Naomi seguiu com vários trabalhos de ficção e documentário, como o forte “Nascimento e Maternidade” (2006), onde Naomi explora a sua relação com sua tia-avó e faz um paralelo com o seu filho recém nascido, um filme tão singelo quanto poderoso. Mas foi em em 2007, com o filme “A Floresta dos Lamentos“, que Naomi se firmou perante a crítica e público como grande cineasta que sempre foi. “A Floresta dos Lamentos” foi exibido dentro da mostra competitiva do Festival de Cannes em 2007, rendendo a ela o Grande Prêmio do Júri. Aqui nós acompanhamos a relação de Shigeki (Shigeki Uda), um senhor que vive num pequeno asilo nas montanhas, e de Machiko (Machiko Ono), que é uma funcionária do local e que cuida especialmente dele. Mais uma vez Naomi nos coloca numa relação afetiva forte, fazendo paralelos entre a juventude e a terceira idade, angústias e o poder da natureza. Um dos trabalhos mais grandiosos dela.

Em 2008 ela apresenta o filme “Nanayo“, filme rodado na Tailândia sobre uma mulher japonesa que se instala num mosteiro, onde ela aprende outras formas de comunicação e de entrega ao próximo. No ano seguinte Naomi recebeu o prêmio Carrosse d´Or pelo conjunto da obra no Festival de Cannes.

Mais uma vez Naomi seguiu produzindo muito, sempre intercalando vários documentários com filmes de ficção e em 2011 voltou à Cannes com o filme “Hanezu, que também participou da mostra competitiva daquele ano. Em 2014 mais um filme de Naomi foi selecionado em Cannes, dessa vez “O Segredo das Águas“, que teve uma boa recepção da crítica internacional. Esse foi o primeiro filme de Naomi distribuído no Brasil, fato que se repetiu com o seu filme posterior: “Sabor da Vida” (2015).

Por uma obra tão vasta, repleta de filmes maravilhosos e com uma linguagem autoral, Naomi Kawase é uma das grandes cineastas que estão em atividade no momento, sempre trazendo obras reflexivas.

A Floresta dos Lamentos (2007)