Aconteceu hoje (22), em São Paulo, a abertura da 17° edição da Mostra do Filme LivreMFL, a maior janela de filmes independentes do Brasil. Na ocasião, conhecemos um pouco da programação desta edição e as demais sessões que a compõem, que traz mais de 200 filmes para o público, de forma totalmente gratuita.

Na sessão de abertura, a curadoria da MFL mostrou para o público o que ele pode esperar do evento nos próximos dias. Foram exibidos cinco curtas, embora originalmente tenham sido programados seis filmes.

Seu Paulino, de MFL2017, RJ, 11 min.

Um registro íntimo do roteirista e diretor baiano Luiz Paulino dos Santos (1932-2017), realizado por Guilherme WhitakerChristian Caselli. O filme acompanha o cineasta, num breve trajeto, do aeroporto ao hotel, mas ainda sim bastante revelador. Durante esse trajeto, Luiz fala sobre suas lembranças, sobre cinema e sobre política, num tom bastante carismático.

O mais encantador, sem dúvidas, é como Luiz fala sobre sua vida. O retrato extraído é, além de um registro histórico para a cinematografia brasileira, também é uma reflexão sobre o tempo, de como um homem com mais de 80 anos rememora tempos idos.

No quesito histórico, Luiz fala sobre a ditadura militar, os processos de produções de seus filmes, incluindo de “Barravento” (1962), que foi entregue posteriormente à Glauber Rocha. As falas são acompanhadas por inserts de seus filmes, que remetem, ao discurso do tempo e, porque não, também a preservação do cinema brasileiro, algo que a Mostra do Filme Livre realiza com afinco.

E, tratando-se de demais temas, como política, por exemplo, Luiz se demonstra totalmente confortável para expor suas ideias, embora nada muito profundo, mas extremamente pontual. A conversa amigável que o cineasta tem com o entrevistador/câmera aproxima o espectador e nos faz querer mais de sua companhia. No fim, o filme ainda ganha um valor ainda maior de homenagem, quando as cartelas finais revelam que Luiz faleceu dias depois das filmagens. É um material e tanto!

Mortalha, de Grazie Pacheco, SP, 19 min.

Mortalha” é um filme muito bem conduzido e que sabe como reverberar os conflitos vividos pela protagonista em sua linguagem, que é calcada na lenta passagem de tempo.

No filme, acompanhamos a rotina angustiante da protagonista, mulher, gorda, que sofre de crises de ansiedade e que busca o seu lugar numa sociedade que a marginaliza. A dura rotina a consome, as conversas com amigos parecem não dizer nada, e os métodos espirituais e psicológicos, que possuem o objetivo de sanar uma angústia, também parecem não surtir efeito.

Toda essa melancolia exposta é sentida pelos planos parados e, quando movimentados, bem sutis. A verdade é que o filme também é um retrato de São Paulo, ou de uma grande metrópole, que engole seus habitantes, fato que é evidenciado por algumas locações que a obra apresenta. Mas, acima disso, o filme quer levantar questões sobre o papel dessa mulher nessa sociedade, expondo uma personagem credível e bem distante de uma caricatura.

Fataurex, de Cleyton Xavier, RJ, 8 min.

Típico filme experimental que se propõe a uma experiência audiovisual imersiva. Logo no início, sobem letreiros que explicam sua proposta, ações como assisti-lo de olhos fechados ou projetar o filme no rosto do espectador, soa como uma aventura desconhecida e bastante interessante.

O filme inicia-se de forma tranquila, com cores fortes que tomam conta de toda a tela, mas a medida que a música que o guia vai crescendo, as brincadeiras visuais vão mudando e se expandindo. “Fataurex” é um filme que quebra a lógica da narrativa convencional e serve, conforme ele mesmo se define, como uma experiência, algo totalmente válido, tal como eram os filmes do cineasta Stan Brakhage.

Tantão e os Fita (Lá Vem a Direção), de Gabraz, RJ, 4 min.

Só a MFL para levar ao público uma experiência audiovisual tão estranha como a apresentada em “Tantão e os Fita (Lá Vem a Direção)“. Tantão é uma figura lendária do underground carioca, ele é um músico experimental e artista plástico, e seu grupo Tantão e os Fita realiza uma música tão perturbadora que é difícil de se explicar, só a voz cavernosa de Tantão já vale a audição.

O filme apresentado, que contém as músicas “Lá Vem a Direção” e “Oi Cat“, consegue ser mais assustador do que as canções de Tantão, criando uma identidade visual para um sentimento inexplicável que essas composições trazem. Realizado com uma câmera na mão nas ruas do Rio de Janeiro, vemos várias crianças, provavelmente em situação de rua, que interagem com a câmera, as fazendo parecer parte daquele universo caótico das músicas. As repetições de versos como “vem comigo, vem pra rua” mescladas aos rostos das crianças é mórbido, mas nem por isso menos revelador.

Bruma, de Matheus Parizi, SP, 15 min.

O último filme da noite foi “Bruma” de Matheus Parizi, que conta a história de uma jovem que foge de São Paulo em um carro com seu amigo. No caminho, eles param em vários lugares, que vão intensificando seus sentimentos confusos.

Apesar do roteiro do filme buscar uma profundidade que dificilmente é transmitida pelos atores, é interessante de se observar como a sua cinematografia é trabalhada. O tom angustiante que permeia o filme é sentida nas escolhas das locações e no tom frio da fotografia, que aliás, usa da câmera na mão para injetar mais instabilidade na trama, que reforçam os sentimentos do personagens.

Além disso, o filme também é econômico em seus planos, conseguindo driblar o habitual plano e contra-plano somente com a câmera na mão, sem precisar da montagem para isso, o que dá ao filme um aspecto orgânico e, principalmente de continuidade, o que é tão importante para a proposta de desconforto gradual que os personagens sentem.