Após alguns tropeços em relação a crítica, o universo cinematográfico da DC consegue seu primeiro respiro com “A Mulher-Maravilha” (2017), filme dirigido pela cineasta Patty Jenkins, que realizou anteriormente o longa “Monster – Desejo Assassino” (2003). A maior heroína dos quadrinhos recebeu seu primeiro filme solo após décadas desde a sua criação, e isso revela muito mais sobre a grande indústria cinematográfica do que se possa imaginar.

O filme possui uma clássica trama de origem, onde a protogonista é colocada à prova e precisa partir para um mundo totalmente novo e enfrentar grandiosos desafios. E, talvez, essa simplicidade na trama tenha sido o forte do filme.

Antes de ser conhecida como a Mulher-Maravilha, Diana era princesa das Amazonas, onde vivia numa ilha protegida e escondida da humanidade. Nesse período, Diana treinava para se tornar uma grande guerreira, mesmo contra a vontade de sua mãe, a Rainha Hippolyta (Connie Nielsen). A vida das Amazonas, e principalmente de Diana, tomam um novo trajeto quando surge na ilha o Capitão Steve Trevor (Chris Pine) e as revela sobre a Grande Guerra que acontece, sabendo disso Diana resolve partir com Trevor para as trincheiras e impedir o avanço da guerra, que segundo suas crenças é fruto de Ares, o Deus da Guerra.

O primeiro grande trunfo de “Mulher-maravilha” é, inicialmente, se distanciar dos outros filmes do universo DC que o sucederam, criando assim uma ambientação única para aquele universo. As cenas que se passam na ilha das Amazonas possuem uma cinematografia extramente poderosa, as cores quentes e os planos gerais usados para evidenciar a força daquele local dão ao filme um aspecto épico. O tom grandioso se reforça nos figurinos da Amazonas e, principalmente, nas cenas de batalha e nos treinamentos. Embora o excesso de câmera lenta deixe alguns momentos de batalha com um certo maneirismo.

O contraponto entre a Rainha Hippolyta e a General Antiope (Robin Wright) serve perfeitamente para a construção da personalidade de Diana, que absorve a serenidade da primeira e a determinação da segunda. Vale destacar aqui a forte presença de Robin Wright, que, embora não tenha muito tempo de tela, deixa a sua marca com uma personagem icônica na trajetória de Diana.

A paleta de cores vivas tão presente nas cenas da ilha no começo do filme, dão lugar a um mondo sombrio, acinzentado e frio quando Diana parte com Trevor para a Inglaterra. Visualmente o filme fica bastante carregado e denso, transmitindo em alguns momentos o sentimento de horror que a guerra traz para as pessoas. Essa cinematografia carregada acompanha o filme até o seu final e, nesses momentos, conseguimos enxergar uma ligação visual com outros filmes do mesmo universo.

A inserção de Diana nesse novo mundo com diferentes costumes sociais, é retrata de forma bastante cômica, como deveria ser. A adaptação da personagem rende algumas boas situações, principalmente quando Diana é confrontada com os demais personagens. A interação dela com Trevor também funciona muito bem, os dois possuem um bom tempo cômico e, acima disso, possuem um forte sentimento de companheirismo e aprendizado, isso fica claro ao final da jornada de ambos, onde conseguimos enxergar a evolução dos respectivos personagens.

Mas, se por um lado, a interação com Diana e Trevor funciona bem, o restante do grupo de coadjuvantes servem mais para alívio cômico nas cenas do que para outras funções narrativas e isso não seria um grande problema se os personagens fossem tão caricatos. O grupo é tão cartunesco que acaba se deslocando daquele universo, que embora seja fantástico, é sempre puxado para a realidade através da sua cinematografia.

O filme perde um pouco do ritmo no começo do segundo ato, pois ele começa a dar mais espaço do que deveria para Diana se habituar no mundo novo. As piadas nesse contexto que no começo eram divertidas, acabam se tornando repetitivas e consequentemente deixa o filme um tanto quanto truncado. Mas, o filme cresce novamente na primeira cena de batalha da heroína nas trincheiras, deixando-o com um novo fôlego. A cena em questão é grandiosa, Diana se opõe a qualquer ordem dos homens e parte para a batalha sozinha, os planos detalhes em peças da armadura da personagem nos mostram o quão forte é Diana, é como se a grande imagem de uma heroína estivesse nascendo naquele momento. Embora a cena também possua um excesso de câmera lenta, a força da mesma e a simbologia ali presente não cai, e até o fim se mostra bastante poderosa. É uma cena icônica e que transcende os limites do campo imagético e conversa diretamente com todas as mulheres que finalmente podem se enxergar na tela como uma heroína forte.

Embora a atriz Gal Gadot não consiga exprimir muita carga dramática em cenas que pedem tais sentimentos, a imponência da personagem consegue segurar o filme e, para tal, Gal Gadot está muito confortável no papel. Todo o sentimento da personagem, que é um misto de inocência e esperança, é transmitido de forma eficiente através da atuação de Gadot, mas em certos momentos mais carregados dramaticamente a atuação de Gadot fica aquém do necessário, principalmente quando ela é colocada em cena com Robin Wright, onde fica mais evidente a dificuldade de Gadot em transmitir sentimentos mais complexos.

A construção do antagonista do filme também possui uma jornada problemática, ele o típico militar do exército inimigo com desejos nefastos, o mais clichê possível. Talvez por isso, como já estamos acostumados com personagens nesse mesmos arquétipos, o personagem se torna desinteressante. E o filme sabe disso, por isso há uma ridícula reviravolta no terceiro ato, que tenta engrandecer o vilão, mas que é apresentada de uma forma tão inverossímil que deixa o vilão mais desinteressante ainda, mesmo com roteiro tentando ao máximo corroborar para que tudo funcione de uma forma orgânica. Mas a verdade é que o terceiro ato é completamente perdido.

Se o filme nos seus dois primeiros atos vai entre altos e baixos, mas que mesmo assim consegue manter um consistência na obra, o terceiro ato é totalmente problemático. O roteiro possui convenções absurdas que tentam de qualquer forma fazer a história ir adiante, as escolhas que o filme toma para criar uma tensão e assim chegar ao seu clímax são irreais, o que não seria um problema se a sua cinematografia não o puxasse a todo momento para a realidade, o que acaba deixando o filme com um conflito de tom. E, nesse sentido, infelizmente, em sua batalha final, o filme esquece completamente de toda a construção narrativa que havia criado até então e entra num excesso de computação gráfica e lutas grandiosas, mas que de grandiosas só possuem o conceito. A cena da batalha final sofre com o peso do visual estabelecido para o universo DC no cinema, todo é muito escuro e carregado e, no fim, o filme acaba se tornando maçante e a batalha que era para ser épica se torna artificial.

Embora possua alguns defeitos e um terceiro ato repleto de furos no roteiro, “Mulher-Maravilha” é um filme que marca um ponto de virada nos filmes de heróis e na indústria cinematográfica. No geral, não é um filme que se arrisca muito, ele possui uma trama convencional muito bem definida e possui ótimos acertos, mas infelizmente ainda reproduz erros da maioria de filmes do gênero. No entanto, ainda assim é um filme importante para estabilizar o universo cinematográfico da DC e, principalmente, ser uma obra com um forte espiríto de representatividade feminina.

Título Original: Wonder Woman 
Direção
: Patty Jenkins
Roteiro: Zack Snyder & Allan Heinberg e Jason Fuchs
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis e Elena Anaya
País: E.U.A.
Ano: 2017
Duração: 141 minutos
Estreia: 1/6/2017
Distribuidora: Warner