Ao decorrer dos anos, o cineasta sul coreano Hong Sang-soo se mostrou bastante produtivo, lançando até mesmo três filmes num período de um ano. Nesse meio tempo, dentre tantas obras, Hong Sang-soo se estabeleceu como um legítimo contador de histórias e consolidou sua carreira perante a crítica internacional.

Um de seus filmes que foram exibidos em festivais ao longo de 2017, “Na Praia à Noite Sozinha” (Bamui haebyun-eoseo honja, 2017), foi selecionado para ser o longa de abertura no Indie Festival 2017, mostrando ao público que, mesmo com tantas produções lançadas, Hong Sang-soo se reinventa e nos brinda com um trabalho primoroso calcado na metalinguagem.

No filme, acompanhamos a famosa atriz coreana Younghee (Kim Min Hee), que resolve dar um tempo e viaja para a cidade de Hamburgo, na Alemanha. Lá, em uma conversa com uma amiga, ela se pergunta se o amante a seguirá ou se ele sente sua falta tanto quanto ela. Ao retornar à Coreia, reencontra alguns velhos amigos na cidade costeira de Gangneung, onde comem e bebem juntos.

Inicialmente, para quem está habituado com a filmografia de Hong Sang-soo, irá mergulhar em águas conhecidas, pois a linguagem característica do cineasta está fortemente presente desde sua primeira cena, que consiste em longos planos repletos de diálogos densos envolto de uma leveza quase simplista. Para os desacostumados, o cinema de Sang-soo pode se revelar como um objeto estranho, mas que ainda assim, cativa.

O prosaico se faz presente no estudo de narrativa que o cineasta propõe, os planos longos acompanham completamente as cenas, sem cortar nos moldes clássicos de planos e contra planos. Sang-soo possui o controle total das sequências, encontrando nos zooms uma forma orgânica de cortar o filme sem necessariamente fazê-lo, e assim a montagem acontece em tempo real, durante a própria cena. É um artifício simples, mas bastante funcional e que, além de ser uma boa escolha estética, também se reflete em sua proposta, na qual também fala sobre o cinema.

Assim como em seu último filme lançado no Brasil, “Certo Agora, Errado Antes” (Jigeumeun matgo geuttaeneun teullida, 2015), Sang-soo propõe um estudo narrativo, quase contando a mesma história duas vezes, mas a diferença em “Na Praia à Noite Sozinha” é que tudo acontece de forma mais sutil, e as reflexões perante a narrativa e perante ao tema se dão nas entrelinhas. O filme é dividido por dois atos que são apresentados em letreiros, embora em seu fim ele apresente um novo ato que não se revela completamente, e essa é uma das grandes genialidades da obra, pois até mesmo a sua própria narrativa ele subverte, mostrando mais uma vez que o cineasta possui total controle da obra e sabe exatamente onde quer chegar.

Mas, além do estudo de narrativa, o filme entrega uma discussão temática bastante interessante, que se revela através da personalidade da protagonista, levantando questões que são um misto de melancolia, auto conhecimento e sobre o que é o amor. Claro que o filme não se sustentaria somente como um estudo narrativo se as cenas aqui presentes não prendessem o público, seria no caso uma linda estrutura vazia, o que de forma alguma acontece, pois, além dos temas abordados através dos diálogos de seus personagens, a atuação de Kim Min Hee se sobressai, trazendo pras cenas toda a presença que é necessária para o filme funcionar.

Kim Min Hee já trabalhou em outros filmes do cineasta e fica claro como ela está à vontade meio a proposta que o filme carrega, em momento algum, dentre os longos planos, ela perde o vigor, conseguindo extrair sentimentos tão conflitantes em questão de minutos, tudo de uma forma orgânica que é claramente palpável. As angústias surgem como riso, piadas constrangedoras, euforia, choro e nervosismo, que são apresentadas com sutiliza e fibra pela atriz. De fato, é impecável a atuação de Hee, deixando o filme prazeroso de se acompanhar.

Como dito anteriormente, Sang-soo usa do prosaico pra abordar temas e fazer um estudo de narrativa, mas além disso, ele faz um estudo sobre o próprio cinema e o ato de se assistir filmes. É um trabalho de metalinguagem que já se inicia quando descobrimos que a protagonista é uma atriz e que algumas pessoas que a cercam também trabalham com cinema. A estrutura do filme, que se quebra ao mostrar a protagonista numa sala de cinema e que, graças a inteligente montagem, nos dá a impressão de que a própria assistia a sua vida na tela, também é desconstruída em certa altura, mais próximo do final, quando Sang-soo traça um paralelo entre o sonho e o cinema, propondo uma reflexão entre ambos. Pauta essa que existe desde o começo da sétima arte e que aqui é levada à tona de forma singular e subjetiva.

Na Praia à Noite Sozinha” é com certeza um filme que irá agradar aos apreciadores das obras do cineasta Hong Sang-soo, enquanto os passageiros de primeira viagem vão poder conhecer um universo próprio muito característico, repleto de semelhanças com nossa realidade, mas distante em vários sentidos, que vão desde o sentimento dúbio de espaço-tempo ao leve toque lúdico aqui presente. Mas uma coisa é fato, que serve para quem conhece e para quem não conhece as obras do cineasta, o encantamento é certeiro e, mesmo parecendo uma obra simples em sua execução, é um filme que possui diversas camadas e que se debruça nos sentimentos humanos de uma forma tão cotidiana que, somente o cinema de Sang-soo, que aqui se autorreferencia, consegue transmitir.

*Filme assistido na abertura da 17° edição do Indie Festival

Título Original: Bamui haebyun-eoseo honja
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Kim Min Hee, Ahn Jae-hong, Hae-hyo Kwon, Jae-Yeong Jeong, Seon-mi Song, Young-hwa Seo
Fotografia: Park Hongyeol, Kim Hyungkoo
Produção: Hong Sang-soo
País: Coreia do Sul
Ano: 2017
Duração: 101 minutos
Data de Estreia: 5/10/2017
Distribuidora no Brasil: Zeta Filmes