A fase experimental em que Ivan Cardoso filmava em Super 8 é simplesmente magnífica, a liberdade de experimentos se revelava em obras vanguardistas e com bastante identidade. Não que seus clássicos do terrir não sejam autorais, tais propostas são distintas, embora possamos enxergar traços dos elementos do gênero em filmes dessa fase.

Nosferato no Brasil” (1970) é o primeiro filme de Ivan Cardoso, que capta com todo vigor e ginga toda a pluralidade cultural da época, misturando ideias e conceitos que resultam numa obra que deixa a sua marca antropofágica na jugular do cinema – parafraseando o próprio filme.

Uma das grandes marcas da obra é o protagonismo de Torquato Neto, que desfila pelas ruas e prais do Rio de Janeiro no papel do Nosferato. Torquato estava, na época, no cerne da revolução cultural que acontecia no Brasil, o poeta e agitador da contracultura estava fortemente presente no movimento tropicalista, e o seu papel no filme de Ivan Cardoso vem para imortalizar a figura imagética de Torquato, que surge como um personagem fruto de suas próprias ideias; libertador e provocador.

O Nosferato apresentado possui características tipicamente brasileiras. O icônico visual da capa preta e sunga, mescla a morbidez e o aspecto gótico do personagem com o calor e suor tipicamente do povo brasileiro. Tal como o visual do personagem, Ivan também insere uma miscelânea na trilha sonora, que mistura Roberto Carlos, marchinhas e músicas hippies dos anos 1960 e 1970. Por muitas vezes, o filme se assemelha à vindoura linguagem de clipe musical, remetendo até mesmo aos emblemáticos filmes dirigidos por Kenneth Anger nos anos de 1950 e 1960, como por exemplo “Scorpio Rising” (1963) e “Kustom Kar Kommandos” (1965), que são embalados por músicas pop. Enfim, tudo em “Nosferato no Brasil” é absorvido, misturado e vomitado de forma pitoresca.

Além da trilha, que reflete a essência tropicalista, Ivan ainda introduz cartelas que não são usadas somente para explicar as ações dos personagens e contextualizar a trama, mas também para realizar provocações, que podem muito bem traduzir o sentimento político e cultural daquele momento. Frases como “onde se vê dia, veja-se noite” ou “sem sangue não se faz história“, geram inúmeras interpretações e também reverenciam, novamente, ao antropofagismo cultural.

Nosferato no Brasil” é um marco do cinema experimental brasileiro da década de 1970, o filme surgiu num momento rico culturalmente e conseguiu, muitíssimo bem, expor todas as ideias que fervilhavam naquela época. Ele é um filme de linguagem experimental, de caráter tropicalista e marginal e com a autenticidade do terrir – a forte característica da filmografia de Ivan Cardoso. Além de todos os elementos, o filme ainda consagra Torquato Neto como um dos personagens mais emblemáticos da contracultura brasileira, marcando, com sangue e suor, na cinematografia do país, a eterna capa preta que aterroriza as praias cariocas.