No livro “A Utopia no Cinema Brasileiro“, a autora Lúcia Nagib revela como o cinema brasileiro, em meados dos anos 1990, ainda buscava uma utopia dentro de um determinado cenário político, mesmo que intuitivamente, isso após a queda do muro de Berlim, que abriu precedentes para uma espécie de vitória neo-liberal e antiutópica.

Tal reflexão, que consistia em enquadrar um determinado cinema realizado no Brasil no período da Pré Retomada e também da própria Retomada, nos governos Collor e FHC, que utilizava de signos para olhar para um passado distante, tanto temporal quanto ideológico, para então refletir sobre o presente, trazendo a utopia inconsciente daquele período à tona.

Essa reflexão do cinema utópico, que busca compreender o passado para então refletir sobre o presente pode ser encontrado de certa forma em novas realizações, como em “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha, e agora também em “No Intenso Agora” (2017), de João Moreira Salles.

No filme, João reúne imagens de momentos intensos de agitação política na China, França, Tchecoslováquia e Brasil da década de 1960. Além de servir como um resgate histórico, João também propõe uma reflexão sobre as imagens captadas, tal como quem seriam as pessoas que as registraram e também sobre o que nos é dito através do olhar desses filmes aqui apresentados?

No Intenso Agora” funciona, a princípio, como um Cine-Olho, quando refletimos a imagem à partir dos registros amadores. O aspecto de urgência, que também é discutido na obra, evoca muito mais diretamente o conceito de Dziga Vertov do que os filmes maoista de Jean-Luc Godard, que também buscavam uma verdade meio a efervescência política francesa da década de 1960. Porém, no momento em que as imagens são inseridas dentro de um âmbito de reflexão atemporal e imagética, um outro significado as incorpora: um cine-diário-reflexivo-político-atemporal.

O filme é divido em dois momentos, o primeiro que se concentra no levante político daquele período, e um segundo que revela o que veio a seguir, dando continuidade aos acontecimentos que não foram registrados em nenhum documentário da época. E, por citar documentários daquela época, João também insere em sua narrativa cenas de filmes que registraram as manifestações francesas de 1968, realizando um híbrido entre imagens amadoras e de produções de cineastas propriamente ditos.

A narrativa que João realiza em “No Intenso Agora” é corajosa, pois, ao partir de um ponto, que é a memória afetiva de sua infância, resgatando imagens captadas pela própria mãe numa viagem para China durante a Grande Revolução Cultural Proletária, o sentindo plural da obra poderia acabar se perdendo. Embora essas imagens carreguem em si um aspecto nostálgico, de lembranças do passado que remetem a infância do realizador na França e no Brasil, João vai além desse sentimento e, ao rememorar tais memórias, as enfrenta, construindo uma ponte entre o passado e o agora, que se dá através do roteiro e das reflexões extraídas do texto do próprio João, que as narra em um tom poético.

O filme, ao mesmo tempo que narra um fato histórico, ele se debruça no poder da imagem. São realizadas análises pontuais de certos fotogramas. A imagem dialética é debatida através de figuras históricas em suas posições no quadro. Mesmo que intuitivamente, o olhar de quem registrou esses períodos históricos apresentados no filme nos guia e acaba fazendo um direcionamento social meio as imagens que capta, seja o líder estudantil que está no centro do quadro quando possui relevância, ou até mesmo a posição dos negros, que ficam sempre nas bordas, tornando-se figurantes de uma luta que também os dizia respeito. Tais reflexões e análises nos dizem muito quanto sociedade e revela a força intuitiva do registro, como diz o próprio João em determinado momento no filme: “Nem sempre a gente sabe o que está filmando”.

Impressionante que, mesmo utilizando-se de imagens de arquivo, João consegue extrair uma unidade narrativa dentre esses fragmentos de diversos olhares distintos. A primeira parte do filme que, como já citado, mostra o levante espontâneo que o correu na França em Maio de 1968, é embalada por uma trilha melancólica, se contrapondo as imagens de euforia que são apresentadas. Registros de entrevistas de líderes sindicais e estudantis, de manifestações e de assembleias, são montadas para estabelecer um tom visual, que é quebrado totalmente quando cenas da burguesia em marcha são inseridas, cenas que possuem cores fortes e que dão, claramente, o sentido político daquele registro.

Num segundo momento, quando o filme mostra a chama da utopia francesa se esvaindo e a burguesia conseguindo tomar o controle total da situação novamente, há um ruptura no discurso. A obra, então, se torna mais silenciosa e acaba adquirindo um aspecto mais fúnebre, onde a agitação e a esperança para um futuro melhor dão espaço para a indignação. A ágil montagem de Eduardo Escorel faz ligações entre três funerais que tomaram conta das manifestações e que acabaram por se tornar símbolos de um período, são elas Edson Luis de Lima no BrasilJan Palach na República ChecaGilles Tautin na França. O discurso que surge a partir da ligação entre esse três pontos vai além da obviedade, recriando um retrato de tragédias que deixaram suas marcas.

Ao olhar para os eventos apresentados no filme, percebemos novamente a clara ponte que nos liga entre 1968 e o agora. Embora a conjuntura política se difira em vários aspectos, o sentimento cíclico prevalece quando comparamos as manifestações estudantis que pararam a França e as manifestações que também pararam o Brasil há anos atrás. É inegável que a falta de direcionamento político em ambos períodos favoreceu para que os movimentos se desintegrassem, pois a falta de base sólida do povo abre precedentes para um contra golpe ainda mais direto das classes dominantes. Quando a juventude, no filme, branda que só a desordem já é uma resposta política contra a hegemonia do capital, mostra-se o quão desarticulada se encontra essa juventude. E é ao olhar para o passado com enfrentamento, que o filme nos revela o hoje, se mostrando assustador em sua análise política e histórica.

No Intenso Agora” é um filme que pode ser caracterizado como um ensaio político abrangente e um retrato do século XX, que era cercado pela utopia. O documentário também consegue refletir sobre o poder da imagem em representar a história, nos apresentando filmagens frutos de seu tempo histórico. Além disso, João não só sabe desse poder, como o expõe de forma genial, congelando o fotograma em alguns momentos, nos propondo a observar mais atentamente um rosto ou um gesto, traduzindo um período da história através dos códigos e signos da imagem.

Título Original: No Intenso Agora
Direção: João Moreira Salles
Roteiro: João Moreira Salles
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 127 minutos
Estreia: 09/11/2017
Distribuição no Brasil: Videofilmes