François Ozon é um cineasta que busca sempre se reinventar a cada filme que dirige, focando-se em linhas narrativas distintas para compor as suas obras. No caso de “O Amante Duplo” (L’Amant Double, 2017), filme mais recente escrito e dirigido pelo cineasta, as escolhas narrativas são dúbias, que passeiam entre o sofisticado e o clichê.

Na trama do longa, acompanhamos Chloé (Marina Vacht), uma jovem mulher que sente insuportáveis dores no estômago. Após passar por uma série de exames, é cogitado que o problema possa ser psicológico e assim ela inicia uma terapia com Paul (Jérémie Renier), com quem acaba se envolvendo amorosamente. Mas o psicólogo também pode ter segredos incômodos, o que acaba abalando a mente de Chloé.

O Amante Duplo” é um filme que se mostra bem seguro em algumas escolhas narrativas. Ele possui um ótimo ornamento, mesmo quando cai em clichês do suspense psicológico. Ozon sabe como administrar a sua trama, e coloca o espectador juntamente com a sua protagonista, que vai adentrando, a medida que a trama avança, num emaranhado confuso de reviravoltas. A primeira cena do longa já demonstra que a cinematografia é crucial para que o aspecto de paranoia que o filme vai ganhando funcione. Os planos detalhes no rosto da protagonista fazem com que a câmera de Ozon se torne invasiva, no qual, desde o início, perfura o real e se aproxima quase que violentamente de uma personagem extremamente desconfortável com a própria realidade.

Outro aspecto técnico que deixa o filme em destaque em relação às produções do gênero é a ótima montagem, que através de um raccord, por exemplo, consegue reforçar a ideia da câmera invasiva. E, logo no primeiro ato, o filme também utiliza de várias elipses para aproximar ChloéPaul, em sequências funcionais, que levam a trama para o ponto em que realmente importa: a confusão psicológica da protagonista.

Após o filme estabelecer os seus personagens e seus conflitos, ele cai em alguns simbolismos fáceis, como o demasiado uso de espelhos em cena para se referir a paranoia estabelecida, ou até mesmo em símbolos como jarros de plantas, um com terra e outro sem, que referem-se diretamente aos personagens que estão sendo trabalhados naquele momento. Mas ainda há pontos positivos dentro desses simbolismos repetitivos, como o local de trabalho da protagonista, que é segurança de um museu, e que, também graças a fotografia de Manuel Dacosse, a coloca entre duas colunas, como se a personagem estivesse presa em forças maiores do que ela.

Também vale ressaltar as atuações de Jérémie Renier e de Marina VachtRenier se sai muito bem criando nuances que são importantes para a construção de seu personagem, fator decisivo para que todo o conflito da trama funcione. Mas o grande destaque é Marina Vacht, que, desde a primeira cena, demonstra uma atuação bastante segura. A confusão que a personagem vai adentrando consegue ser muito bem extraída pela atriz, através de sua fisicalidade ou até mesmo através de seus olhares desconfiados.

Mas, como dito anteriormente, o filme caminha entre o sofisticado e o clichê e acaba perdendo a dosagem nesse quesito. Obviamente que a obra possui uma assinatura autoral, pois Ozon vai além do que os suspenses eróticos mais populares entregam, com cenas de sexo ao estilo que o filme pede, além de uma cena no último ato que flerta com o gore, que é bem arriscada. Porém, a sofisticação consome o filme em sua resolução e o que, anteriormente, se equilibrava entre o elaborado e o comum se entrega totalmente às reviravoltas mirabolantes.

O Amante Duplo” é um bom filme, que consegue transitar entre a densidade e o pastelão, entre a assinatura autoral e o lugar-comum do erotismo, mas que acaba se perdendo em seu ato final, quando resolve abandonar a linha narrativa estabelecida e se propõe a levantar questões psicológicas mais elaboradas. Por vários momentos o filme flerta com os suspenses de Paul Verhoeven, mas, infelizmente, não possui força suficiente para entregar uma obra mais consistente.

Título Original: L’amant double
Direção: François Ozon
Roteiro: François Ozon, Philippe Piazzo (Livrimente baseado no romance “Lives of the Twins”, de Joyce Carol Oates)
Elenco: Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset, Myriam Boyer, Fanny Sage
Fotografia: Manuel Dacosse
Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer
País: França
Ano: 2017
Duração: 107 minutos
Estreia: 21/06/2018
Distribuição no Brasil: California Filmes

Notas

00 a 1.5 (Péssimo)
2.0 a 3.0 (Ruim)
3.5 a 5.0 (Regular)
5.5 a 6.5 (Bom)
7.0 a 8.0 (Muito Bom)
8.5 a 9.0 (Ótimo)
9.5 (Excelente)
10 (Obra-Prima)

Avaliação
  • 6.5/10
    O Amante Duplo (2017), de François Ozon - 6.5/10
6.5/10

Resumo

“O Amante Duplo” é um bom filme, que consegue transitar entre a densidade e o pastelão, entre a assinatura autoral e o lugar-comum do erotismo, mas que acaba se perdendo em seu ato final, quando resolve abandonar a linha narrativa estabelecida e se propõe a levantar questões psicológicas mais elaboradas.