O cinema de Lav Diaz pode possuir vários adjetivos, mas o que mais se destaca é a força política de suas obras. A maioria das obras do cineasta filipino revela um país com problemas sociais enraizados, e, sabiamente, Diaz consegue conceber filmes que de alguma forma denuncia as mazelas de um país, mas sempre com uma abordagem diferente sua temática. Seja para revelar períodos históricos, como em “Canção Para um Doloroso Mistério” (2016), onde o foco é o conflito na época em que as Filipinas sofriam com a colonização espanhola; ou como em “A Mulher Que Se Foi” (2016), onde os excluídos da sociedade surgem numa crônica sobre desigualdade. Seus filmes, em suma, são calcados em expor e dar voz à uma classe historicamente oprimida.

Em “A Mulher Que Se Foi“, filme vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza no ano passado, Diaz faz uma adaptação livre do conto “Deus Vê a Verdade, Mas Espera“, de Tolstói. Na trama, acompanhamos Horacia (Charo Santos-Concio), que passou injustamente 30 anos numa penitenciária feminina. Ela é enfim libertada quando uma outra detenta confessa o crime que tinha caído em suas costas e assim, Horacia é liberta e então parte em busca de  sua família, mas durante esse caminho redescobre um país mergulhado na corrupção e na violência. E a medida que o tempo passa, Horacia começa a nutrir um sentimento de vingança para com o verdadeiro culpado por colocá-la injustamente na prisão.

No começo, temos a tela escura, a tela que se revela como janela para um mundo onde o tempo caminha mais devagar, mas que estranhamente nos parece tão familiar. E é na tela escura que escutamos as primeiras vozes, falas em off vindas de um rádio e que nos apresentam o contexto de violência vivido nas Filipinas. Estamos em 1996, num âmbito violento em várias formas. É, com esse presságio de tempos sombrios vividos no país, que temos o primeiro deslumbre de Horacia, onde ela ajuda suas companheiras de penitenciária a praticar a leitura e a escrita, enquanto também lhes conta histórias. Num primeiro plano conjunto, Diaz nos revela o ambiente que essa mulheres vivem. Se por meio do rádio conseguimos imaginar a violência vivida no país, através da imagem conseguimos visualizar a violência vivida dentro da cadeia, onde as mulheres estão ao longe e nos cantos do quadro temos sempre algum oficial armado, como se dissessem o quanto hostil é aquele universo somente com seus posicionamentos em cena.

O cinema de Diaz é visualmente estático, seus planos são fixos e ação se desenrola em função da câmera, que é apenas um observador nesse ambiente. E, ao caminhar da projeção, esses planos estáticos se tornam cada vez mais orgânicos e a obra ganha um novo olhar, um olhar de observação, que se aproxima demasiadamente de um documentário. Não movimentar a câmera aqui possui um forte significado, que vai além de imergir o espectador na obra, mas também de trazer uma realidade mais palpável para as cenas do filme. Para fortalecer essa ideia do real, toda a composição de campo é minuciosamente estudada, a profundidade de campo é completa, com tudo em foco, desde os personagens até o cenário ao fundo, isso traz um olhar mais apurado das locações, dos personagens e das ações, tudo ao mesmo tempo, como se o espectador fosse o olhar da câmera, da câmera do real e que a tudo enxerga.

A peregrinação de Horacia após a sua saída da prisão se funde com as dos personagens que acabam a cercando em sua trajetória, fica evidente o deslocamento social que ela se encontra, mesmo tendo um lugar para ir, um lugar para morar e uma filha para visitar. A sensação de não pertencimento àquele ambiente é clara, mesmo que as poucos ela tente se localizar e se encaixar num cotidiano que não a pertenceu por três décadas.

O reencontro de Horacia com a filha é só o ponto de partida para então encontrar a si mesma. E é por meio da filha que Horacia descobre que seu outro filho está desaparecido há tempos, o que a princípio não a choca, pois a mesma se sentia desaparecida no período em que estivera presa – desaparecida da vida dos filhos, a quem deixara ainda crianças para cumprir sua pena. Mas, se seus familiares estão desaparecidos e/ou soam como desconhecidos para Horacia, ela começa a buscar novas relações onde ela possa se indetificar. E é nesse caminho que conhecemos o corcunda vendedor de balot (uma comida típica das Filipinas) e a enigmática travesti Hollanda (John Lloyd Cruz). Horacia então começa a viver como um duplo, que sai à noite e que interage com vários núcleos diferentes, mas todos com um ponto em comum: a invisibilidade social.

A construção lenta da trama já é uma forte característica dos filmes de Diaz, os roteiros de seus filmes precisam de todo o tempo que a obra possui para poder ser desenvolvido por completo. A trama vai ganhando força gradativamente e ao decorrer da projeção, as situações começam a se encaixar e os personagens vão ganhando cada vez mais profundidade, cada detalhe é crucial para o desenvolvimento da narrativa.

Dito isso, o filme caminha lentamente até a relação de Horacia e de Hollanda se tornar muito mais forte, e a partir de então toda a obra ganha um novo fôlego e uma nova atmosfera. Se antes, Horacia buscava vingança e convivia com conflitos internos sobre esses sentimentos, após a proximidade, forçada, entre ela e Hollanda, o filme fica muito mais afetuoso e mostra duas pessoas deslocadas, que juntas se fortalecem e encontram uma na outra a esperança de recomeçar. Há aqui uma clara alegoria da força política de indivíduos que vivem à margem da sociedade, mas que se fazem resistir. Seus corpos são verdadeiras armas políticas de resistência, não por acaso possuem tantas marcas, seja no caso de Horacia com suas tatuagens que foram realizadas na prisão, ou no caso de Hollanda, que possui marcas de violência que refletem um claro preconceito por parte da sociedade.

E, por falar em personagens, é impossível passar com indiferença pelo personagem de Hollanda, que é maravilhosamente interpretado por John Lloyd Cruz, numa das atuações mais fortes do cinema de Diaz. A dimensão que Lloyd Cruz dá ao seu personagem chega a ser assustador, pois o seu medo do mundo acaba sendo transmitido para o espectador. Os olhares sempre compenetrados ao longe dão a ideia de um grande vazio, mas que ao mesmo tempo não soa melancólico, em algumas cenas nos parece até mesmo esperançoso. Hollanda é com certeza um personagem complexo e profundo, repleto de camadas e que, ao encontrar o brilhantismo da atuação de John Lloyd Cruz, se torna uma das grandes forças do filme.

Há uma cena em específico de extrema força visual e simbólica, ainda referindo-se à Hollanda e a incrível interpretação de John Lloyd Cruz, onde ela precisa se descaracterizar para se impor, pois em todas as suas cenas ela permanece travestida. Além do impacto da cena, existe aqui uma bela sutileza, onde sem dizer sequer uma palavra, o filme nos evidencia que a mulher que se foi do título do filme não é somente Horacia, mas também Hollanda, ou até mesmo todos os outros personagens que precisam se despir como cidadãos para se curvarem a um sistema opressor e corrupto.

Como dito anteriormente, “A Mulher Que Se Foi” é um filme com planos longos e sem movimentos, o que nos dá impressão de realismo à obra. Mas, em um ponto de virada da trama, Diaz movimenta a câmera pela primeira e única vez em toda a projeção, nos retirando totalmente daquele ambiente em que estávamos inseridos e já habituados. A intenção de tal artifício pode ser simplesmente estética, mas que soa como um lembrete, onde Diaz tenta nos dizer: “vocês estão vendo um filme e, uma reviravolta como essa vista agora, não acontece no mundo real”. Uma cruel e verdadeira constatação que nos desperta e que coloca o espectador atônito, tirando-o do modo de conforto.

Além desse rápido momento que o filme muda de perspectiva visual e parte para a câmera na mão, Diaz, sutilmente, muda a profundidade de campo no ato final da obra. Se antes ele não guiava o olhar do espectador, deixando tudo no quadro em foco, após a já citada reviravolta no filme, as cenas em que Horacia aparece ganham uma profundidade de campo bastante reduzida. Como se o mundo em volta da personagem fosse novo e que assim como nós, ela precisa descobrir para onde vai, mas tudo ao redor é estranho, borrado e desfocado. Só conseguimos ver o que está próximo e o que está ao fundo é distante demais para que possamos deslumbrar, é um caminho novo e que precisamos traçar juntamente com a protagonista.

A força temática do filme se completa em seus minutos finais, onde Diaz usa de elementos da ficção para realizar um rápido documentário dentro do próprio filme. Os cartazes do filho desaparecido jogados aos montes pelas ruas por Horacia, evidenciam tantos outros desaparecidos sociais. A escolha por deixar a câmera com planos estáticos em rostos de pessoas comuns, da rua, é o que torna o filme ainda mais brilhante, pois além da rima temática sugerida, Diaz extrapola os conceitos de sua narrativa até então e leva o filme para observar as ruas e, assim, fazer uma denúncia da bruta desigualdade social em seu país. E, tais pessoas, assim como Horacia ou Hellena, precisam de usar do corpo como arma política para então ocuparem um espaço e tentar se adequar as torpes regras de uma sociedade. O ato de pertencimento por parte da classe mais pobre e deslocada socialmente é uma forma de luta e Lav Diaz entende isso quando usa o olhar do seu cinema hipnótico e engajado para expor as mazelas sociais de um país.

Título Original: Ang Babaeng Humayo
Direção
: Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz (Baseado livremente no conto “Deus Vê a Verdade, Mas Espera”, de Leon Tolstoi)
Elenco: Miss Charo Santos-Concio, John Lloyd Cruz, Michael de Mesa, Shamaine Centenera-Buencamino, Nonie Buencamino, Marj Lorico, Mayen Estanero, Romelyn Sale, Lao Rodriguez, Jean Judith Javier, Mae Paner, Kakai Bautista
País: Filipinas
Ano: 2016
Duração: 226 minutos
Estreia: 4/5/2017
Distribuidora: Zeta Filmes

Avaliação
  • 10/10
    A Mulher Que Se Foi (2016), de Lav Diaz - 10/10
10/10

Resumo

Lav Diaz, em “A Mulher Que Se Foi”, mais uma vez usa de seu cinema hipnótico para revelar os graves problemas sociais das Filipinas. Os personagens, tal como a protagonista Horacia (Charo Santos-Concio), são deslocados socialmente e de alguma forma precisam se legitimar para enfrentar a realidade cruel de uma sociedade desigual.