112621545_oAlejandro Jodorowsky sempre diz que a arte tem a função de curar, e é exatamente o que ele tem feito desde que voltou ao cinema com o filme “A Dança da Realidade” (2013), onde Jodorowsky narra uma autobiografia com bastante liberdade poética, criando fatos que nunca aconteceram em sua vida e fechando velhas feridas através de uma narrativa imaginada.

Poesia Sem Fim” (2016) é o segundo filme da série que conta a história de Jodorowsky, na qual o próprio declarou que pretende realizar ao menos cinco filmes que passarão por todas as etapas de sua vida.

Em “Poesia Sem Fim” começamos exatamente de onde “A Dança da Realidade” se despede, o jovem Alejandro Jodorowsky (Jeremias Herskovits) deixa a cidade de Tocopilla junto com seu pai Jaime (Brontis Jodorowsky) e sua mãe Sara (Pamela Flores), para morarem em Santiago de Chile. O contraste com a vida corriqueira de Tocopilla nos é colocado logo nas primeiras cenas, onde pessoas se matam nas calçadas com uma estranha naturalidade, e é nesse cenário que Alejandro acaba se vendo como um estranho em um local repleto de roubos e assassinatos.

Como se não bastasse o choque com uma nova vida em uma cidade grande, Alejandro também sofre com a repressão do pai, de tal forma como fora no filme anterior, e aqui há de ser feito uma ressalva, pois se no último filme acompanhamos por um bocado de tempo a evolução de seu pai Jaime, em meio a conflitos políticos, espirituais e familiares, nesse filme Jaime volta como um ditador como antes, parecendo não ter evoluído com a própria jornada, infelizmente um retrocesso na profundidade do personagem. O que faz Jaime voltar a ser uma pessoa tirana é uma convenção de roteiro, pois a princípio precisamos de um antagonista para rebater as ideias que Alejandro possui de se tornar um poeta. Dito isso, em um certo momento, Sara pontua tal fato nos falando que depois de tanto tempo Jaime não havia mudado nada, enfim, ao menos o filme reconhece isso. Mas isso é um incômodo inicial, pois Alejandro cresce, e assim como ele, o filme também cresce.

Adan Jodorowsky interpreta Alejandro na adolescência, no período de descobertas. Após se rebelar e cortar (literalmente) a árvore genealógica de sua família, Alejandro vai morar numa espécie de pensão com outros artistas, lá ele se joga de coração na poesia e começa a construir uma sensibilidade artística gigantesca. As situações que ele vivencia são repletas de lirismo, desde os encontros com outros poetas até as primeiras experiências sexuais com Stella Díaz Varín, que por sinal se torna a sua primeira musa e não por acaso é interpretada por Pamela Flores, que também faz o papel da mãe de Alejandro, criando assim uma espécie de relação edípica. E por falar em Pamela, é impossível não dizer o quanto ela está deslumbrante no filme, em ambos os papéis.

A direção de arte é de encher os olhos, assim como em outros grandes filmes de Jodorowsky, as cores são vibrantes e o esmero com o figurino, cenários e outros artefatos feitos manualmente se tornam um personagem a parte. A cenografia abraça as ações dos personagens, por um instante parece que entramos de cabeça no universo de Fellini. Temos momentos circenses que se misturam com alegorias, deixando o filme com um tom leve, o tornando muito prazeroso de se assistir, e por sinal esse pode ser considerado o filme mais leve dentre as obras autorais de Jodorowsky, ele não possui a densidade de filmes como “A Montanha Sagrada” (1973) e “Santa Sangre” (1989), mas o peso simbólico está lá. E, por citar “A Montanha Sagrada“, há aqui uma clara homenagem ao filme quando Alejandro é convidado para uma sessão de tarô, nessa linda cena cartas de tarô são tiradas e colocadas sobre o corpo de um rapaz nu e as explicações sobre as suas simbologias são dadas em off. Aliás, é nesse ponto do filme que Alejandro desperta seu lado espiritual. Uma cena linda.

Ao longo do filme o ar despretensioso vai dando espaço para uma carga dramática crescente, os conflitos existenciais de Alejandro, os problemas de relacionamento com seus pais e às vezes com alguns amigos vão tomando conta da obra, chegando num final apoteótico que obviamente serviu para o hoje octogenário Alejandro Jodorowsky resolver problemas de sua juventude. Inclusive o próprio aparece em várias vezes em cena como uma espécie de guia para o ‘ele’ do passado.

Algumas pessoas podem achar esses dois últimos longas de Jodorowsky um tanto quanto egocêntricos, mas o fato é que à partir dessas obras ele consegue conversar consigo mesmo e se curar, e quanto nós espectadores, nos resta embarcar nessas obras quase terapêuticas e como num espelho buscar um reflexo de nós mesmos em Alejandro, seja em seus medos, nas relações familiares, amorosas e até em suas descobertas sexuais; enfim nos projetamos num filme com um protagonista, que assim como muitos busca o seu lugar no mundo, mas nesse caso de uma forma extramente poética.

*Filme assistido durante a 40° edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Direção: Alejandro Jodorowsky
Roteiro: Alejandro Jodorowsky
Elenco: Adan Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, Leandro Taub, Pamela Flores, Alejandro Jodorowsky, Jeremias Herskovits, Julia Avendaño, Bastián Bodenhöfer, Carolyn Carlson e Ali Ahmad Sa’Id Esber
Produção: Erick Aeschlimann, Takashi Asai, Moisés Cosío, Xavier Guerrero Yamamoto, Alejandro Jodorowsky, Abbas Nokhasteh e Robert Taicher
País: França, Chile
Ano: 2016
Duração: 128 minutos

Avaliação
  • 9.5/10
    Poesia Sem Fim (2016), de Alejandro Jodorowsky - 9.5/10
9.5/10

Resumo

“Poesia Sem Fim”, é um filme que possui um tom de leveza e poético, assim como o título sugere. Com momentos oníricos, no qual o filme propõe refletir sobre a existência e curar feridas passadas do cineasta. Uma obra viva e pulsante, a altura de grandes trabalhos de Jodorowsky.