Logo de início, o documentário dirigido por Daniel Nolasco nos apresenta uma cartela com uma importante informação: as regiões rurais de Paulistas e Soledade, no sudoeste de Goiás, passaram por um êxodo rural nos anos 1990 e, desde 2014, não existem mais jovens morando nas regiões. No entanto, os jovens voltam às casas dos pais no mês de férias. E é nesse período que o filme realiza o seu registro. A cartela introdutória de “Paulistas” revela a força da proposta temática do filme, mas que no fim, nos deixa com a sensação de que o argumento é muito mais interessante do que a realização final.

O filme possui claramente um caráter social que busca ser alcançado através da observação de seu tema, que ora soa claro e ora soa nebuloso. O documentário acompanha três personagens, e o roteiro os insere de uma forma bastante marcada, definindo quem são, embora não explicitando de onde vem. Mas a realidade é que não importa de onde os jovens estão vindo, e sim o que eles trazem consigo e também como um estilo de vida do campo pode acabar entrando em conflito com as bagagens de suas vivências longe de seus locais de origem.

Há aqui a clara preocupação de tratar do conflito geracional, que fica claro em algumas nuances, como por exemplo em uma cena em que um personagem assiste algum filme ou série em seu notebook, sozinho no quarto, enquanto os pais assistem ao noticiário local em uma TV . Quando o filme se propõe a observar essas pequenas sutilezas, ele funciona bem e abre reflexões acerca de seu tema. O caráter documental puramente de observação é o grande trunfo da obra, que acompanha três personagens distintos que possuem, talvez, os mesmos dilemas. Embora esses dilemas não sejam verbalizados, as ações são reveladoras e a montagem do filme acaba por sugerir o que esses personagens sentem, mas não dizem.

Toda a elaboração da cinematografia possui um claro esmero, a composição de quadro e o desenho de luz estão a serviço da observação, o que é bastante gratificante em um documentário que se propõe a acompanhar a rotina de seus personagens. Mas, mesmo com belas composições de cena, os longos planos que, encantam a primeira vista, se perdem em uma nítida autocomplacência, tornando o filme enfadonho.

Se a princípio há o interesse pelos desdobramentos do olhar objetivo das cenas, ao passo que o filme avança ele vai perdendo o interesse. A mensagem do conflito geracional fica bastante clara durante toda a obra, mas o que vem depois disso? Quais são os seus desdobramentos? Infelizmente o documentário não alcança as reflexões necessárias à partir de seu argumento original, caindo no raso e pairando sobre o mais do mesmo a cada cena que se estende.

O documentário ainda perde a lógica narrativa quando busca por utilizar de simbologias ao inserir os personagens principais, em cenas em que eles atiram em uma televisão quebrada e desgastada. Essas cenas servem para que o tema do filme se torne explícito através de signos, o que acaba tirando a sutileza da obra. Outro momento de quebra da narrativa do filme é a transformação sem mais nem menos do seu olhar objetivo para um olhar subjetivo, pois, além de um dos personagens interagirem com a câmera, nos é revelado que o realizador também faz parte daquele universo e que está registrando momentos de sua família. Algo que até poderia ser um arco interessante, mas que destoa completamente do que o filme havia apresentado até então.

Paulistas” funciona quando se propõe a observar ações pontuais de seus personagens, que em suas sutilezas nos revelam sobre a realidade que os rodeiam sem ao menos proferir uma palavra. Infelizmente o roteiro acaba se devaneando em sua própria proposta e o que inicialmente se mostrava promissor, acaba perdendo a força temática. E no fim, nem mesmo as belas composições de quadro o salvam do vazio.

Título Original: Paulistas
Direção: Daniel Nolasco
Produção: Estúdio Giz e Panaceia Filmes
País: Brasil
Ano: 2017
Duração: 76 minutos
Estreia: 22/02/2018
Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes – Sessão Vitrine Petrobras

Notas

00 a 20 – Péssimo
21 a 35 – Ruim
36 a 50 – Regular
51 a 65 – Bom
66 a 75 – Muito Bom
76 a 90 – Ótimo
91 a 99 – Excelente
100 – Obra-Prima